Cidades

SOLIDARIEDADE

Dom Dimas quer retomada reflexão sobre serviços que a Igreja pode prestar à sociedade

Esta é, diz o arcebispo, a essência da Campanha da Fraternidade que será lançada esta semana

Redação

15/02/2015 - 18h00

Na semana em que o Carnaval termina e começa o período da Quaresma, é lançada, oficialmente, em todo o Brasil a Campanha da Fraternidade, um produto exclusivamente brasileiro. Para falar sobre o tema da campanha e como Campo Grande celebrará este evento católico, entrevistamos o arcebispo Dom Dimas Lara Barbosa. Segundo ele, a pretensão é levar os católicos a viverem bem o tempo da Quaresma, que é de conversão, e a se atentarem para a importância de os cristãos participarem ativamente dos debates e ações na sociedade. 

CORREIO PERGUNTA  - Dom Dimas, neste ano, a Campanha da Fraternidade  tem como tema “Fraternidade: Igreja e Sociedade” e o lema “Eu vim para servir”, passagem bíblica do livro de Marcos. Que reflexão é esta que a igreja quer passar para os cristãos?

DOM DIMAS LARA BARBOSA – Estamos comemorando os 50 anos do Concílio Vaticano II, particularmente, da publicação da Constituição Pastoral, na qual a Igreja se associa a tudo aquilo que é humano. Desta Constituição Pastoral do Vaticano II, nasceu uma linha de ação na CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil],  chamada de linha de ações sociotransformadoras. E agora, nestes 50 anos, queremos retomar a reflexão sobre a parceria e os serviços que a Igreja pode prestar à sociedade nas mais diversas áreas.   

Como a Arquidiocese de Campo Grande participará da campanha?

A Campanha da Fraternidade é um produto exclusivamente brasileiro, não existe em outros países nestes mesmos moldes. A pretensão é justamente levar os católicos a viverem bem o tempo da Quaresma, que é um tempo de conversão. Então, além das iniciativas de cunho religioso, digamos assim, nós queremos basicamente conduzir duas gestantes, uma delas na linha da Pastoral da Criança, que se preocupa com a vida e a saúde do bebê e, naturalmente, da gestante. Promoveremos uma série de iniciativas, desde um concurso de redação, que vai acontecer em todas as escolas que desejarem participar – públicas ou particulares –, com temas que vão variar segundo a faixa etária. Desde a questão de higiene para os mais pequeninos até questões de drogas e de gravidez precoce para os do Ensino Médio. Esta é uma das iniciativas e estamos fazendo parceria com outras organizações para realizar este projeto. Além disso, mobilizaremos a juventude numa espécie de Festival da Canção, no qual os temas próprios, relacionados a esta saúde do bebê e da gestante, serão abordados. E nós queremos culminar com mais uma edição daquilo que foi a Cidade da Saúde, lá na Cidade do Natal, porém, desta vez, Cidade do Bebê, voltada para os vários aspectos da vida: a vida segura (entrariam bombeiros, policiais, etc.), a vida legal (entraria a questão da documentação) e a vida saudável (entram os hábitos saudáveis). E todas as pessoas e entidades da sociedade civil que desejarem participar poderão atuar. Esta é uma vertente. Na outra vertente, nós queremos mobilizar a população na coleta de assinaturas pró-reforma política. A CNBB integra a coalisão democrática e, há uns dois anos, pelo menos, vem se reunindo para elaborar uma proposta de projeto de lei de iniciativa popular, em parceria com a OAB e, no mínimo, 100 entidades representativas, para ser apresentada no Congresso Nacional. São quatro os pontos principais da reforma política que nós estamos propondo. O primeiro é afastar o poder econômico das eleições, dizer não ao financiamento privado na campanha; o segundo é a questão da eleição em dois turnos, em que, no primeiro turno, se faria a votação dos programas partidários. Cada partido deverá apresentar as suas propostas de governo nas mais diferentes áreas (saúde, segurança, educação, etc.) e, então, o povo votaria nas propostas do governo. Para este primeiro, turno você já teria definido o coeficiente eleitoral. A partir do segundo turno, haveria lista de candidatos que cada partido apresentaria para os diversos cargos e, aí, as pessoas votam, mas não mais em partidos. Com isso, se reduz o número de candidatos.

Em que fase está este processo todo?

Estamos coletando assinaturas no Brasil todo. Queremos lançar agora, na abertura da Campanha da Fraternidade, a coleta das assinaturas oficialmente na arquidiocese. A OAB já vem fazendo isso algum tempo antes. Depois, tem a questão da paridade entre homens e mulheres. Hoje, embora as mulheres sejam 46 ou 47% do contingente eleitoral, o número delas em cargos eletivos ainda é muito pequeno. E o quarto é a regulamentação do artigo 14 da Constituição, que prevê incrementos de democracia direta.

Neste ano, completam-se os 50 anos do Concílio Vaticano II, com ensinamentos que  levam a Igreja a ser atuante, participativa, consoladora, misericordiosa e samaritana. O senhor acredita que, nesses anos todos, a Igreja cumpriu inteiramente este papel? 

Isso vai depender muito de região para região e, como eu disse, a Campanha da Fraternidade é um instrumento para a gente avaliar a caminhada da Igreja no Brasil. Em outros países, naturalmente, a realidade pode ser diferente da nossa. Aqui, no Brasil, a Campanha da Fraternidade também está completando 50 anos e, num primeiro momento, abordou temas mais internos à Igreja – temas do tipo “Você também é Igreja”, “Começa em sua casa”, “Reconciliação”. Mas agora, com o passar do tempo, os temas abordados passaram a ter relevância social – grandes trabalhos, moradia, terra, família, negros, terras indígenas, ecologia... E, em cada ocasião, a sociedade se mobiliza e junto da Igreja, na recepção destes temas que são abordados ainda nas Câmaras dos Vereadores, nas universidades, nas escolas, independentemente da confissão religiosa de cada entidade. Então, a julgar pela Campanha da Fraternidade, foi feito este esforço e também as próprias pastorais sociais se multiplicam. Isso acontece em todas as partes da mesma maneira. Nós já vivenciamos plenamente o Vaticano II e estamos atravessando uma fase perigosa de esquecimento do Concílio. A Conferência de Aparecida, realizada em 2007, com a presença do Papa Bento 16, foi um esforço continental de resgatar a doutrina do Vaticano II e aplicá-la a uma realidade mudada. Eu espero que esta campanha nos leve a mergulhar de novo nas águas profundas do Concílio.

A Quaresma começa na quarta-feira (18). O que ela significa para os cristãos? E o senhor acredita que os antigos costumes ditados pela Igreja, para esta época, ainda são praticados?

Quando se fala em Quaresma, existem as celebrações regionais características, algumas, inclusive, folclóricas. A Semana Santa em Minas Gerais, por exemplo, é muito sentida, muito vivida pelo povo. E nas regiões históricas – Mariana, Ouro Preto, São João Del Rey, este circuito histórico – com muito mais vivacidade, com o exercício do barroco que ainda é cantado nestas regiões. A Quaresma é um período de preparação mais intensa para a Páscoa. A Páscoa é o centro do ano litúrgico e da vida da Igreja. Então, é um tempo de conversão, de penitência, de oração. 

Haverá alguma programação especial nas igrejas para celebrar o início da Quaresma?

A Quarta-Feira de Cinzas já é celebrada normalmente em todas as igrejas, uma cerimônia muito bonita, voltada justamente para a consciência da nossa criaturalidade – somos criaturas –, a transitoriedade da vida e o convite à conversão. No domingo seguinte, como ocorre todos os anos lá no Poliesportivo Dom Bosco, nós faremos o lançamento solene da Campanha da Fraternidade.

O senhor completará 4 anos à frente da Arquidiocese de Campo Grande. Como definiria o seu trabalho junto a ela durante este tempo? Quais as principais mudanças?

Bem, falando do ponto de vista do que eu ganhei aqui, recebi muito deste povo campo-grandense. O povo de Campo Grande é profundamente acolhedor, eu me senti em casa desde que aqui cheguei. Um povo que respeita muito os ministros, inclusive, com gestos que a gente já não vê tanto em outros lugares por onde eu passei, com crianças, jovens virem pedir a bênção. E esta prática, este respeito, é algo muito característico. Agora, falando especificamente de minha parte, o que eu tenho procurado fazer? Em primeiro lugar, eu acho muito importante o processo de formação. Eu tenho procurado incrementar o processo formativo, desde o seminário, também passando pelo investimento  – que ainda não é suficiente,  mas foi bastante positivo – na formação de novos agentes na Pastoral Carcerária, na Pastoral do Menor, que não havia ainda na Diocese, no Ministério das Exéquias e, agora, vamos começar, se Deus quiser, a Escola Diaconal. E também a elaboração do novo plano de pastoral, que começou a vigorar no ano passado, mas no qual nós já vinhamos trabalhando há, pelo menos, dois anos e meio, com o tema central da setorização, da conversão pastoral e da renovação da paróquia.

Nesta semana, uma notícia mostrou a insatisfação de padres católicos sobre a aceitação da Igreja de que padres anglicanos casados migrassem para ela. O senhor acredita que o futuro da Igreja será aceitar o fim do celibato?

O celibato é uma vocação. Ainda hoje existem, sobretudo, nas igrejas orientais, padres católicos casados. Eu já convivi, em minhas viagens pela Europa, com padres casados. Então, isso não é propriamente uma novidade na igreja, talvez seja na comunidade latina, que coloca o celibato como vinculado à ordenação. Celibato é um valor e, enquanto vocação, ele não vai nunca ser extinto como opção de vida. Se a Igreja pode liberar na igreja latina a disciplina de celibato para candidatos ao sacerdócio, impossível não é, não haveria impedimento dogmático, digamos assim. No momento, eu acho muito difícil, porque as experiências com os diáconos casados mostra como é complicado você viver um ministério sacerdotal. É comum vermos pastores ou diáconos casados que têm filho na droga, às vezes, se separam e aí entra todo o problema social da educação dos filhos, sustentação, salário, a pessoa não pode fazer um voto de pobreza, ela não pode envolver a família no voto de pobreza. Não é fácil.

O Papa Francisco participou, dias atrás, do consistório para discutir as reformas da Igreja. O senhor, que é um arcebispo com grande trânsito no Vaticano, saberia dizer quais as principais mudanças que serão anunciadas?

Na verdade, algumas mudanças já vêm sendo realizadas. O papa se antecipou bastante no que diz respeito à gestão de bens patrimoniais da Igreja, à questão do banco do Vaticano, da adesão às regras internacionais contra a lavagem de dinheiro e tudo aquilo que faz parte de uma gestão financeira acreditada internacionalmente. Este passo, o Papa Francisco praticamente já deu, abriu uma comissão específica para isso. Ele criou uma comissão mais ampla, de 8 cardeais, inclusive, com o nosso latino-americano, o cardeal Maradiaga, de Tegucigalpa, no sentido de ajudá-lo a pensar a reforma da Cúria Romana. Mas esta reforma não foi anunciada ainda, o Papa diz que não tem pressa para ela não, porque, como é uma mudança muito radical na estrutura central da Igreja, ele prefere que seja discutida em todos os níveis. Eu sei que os cardeais têm se reunido com cada um dos departamentos da Cúria Romana para pensar, refletir como é que eles funcionam, como é que eles trabalham e levar as suas diversas sugestões e proposições.

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use a fachada da Sesau na capa e mantenha a foto de Papy com Dr. Victor Rocha no meio da reportagem, próximo ao trecho sobre o ofício enviado à Prefeitura. Foto: Arquivo Correio do Estado.

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