Em busca de novas oportunidades como cantora lírica, a campo-grandense Jayana Paiva, 30 anos, deixou família e amigos na capital sul-mato-grossense e decidiu ir em busca de seus sonhos na capital paulista. A soprano viu seu sonho se realizar quando, entre centenas de candidatos, foi escolhida e contratada para o espetáculo “Master Class”, em São Paulo, onde além de cantar, também atua, ao lado da atriz Cristiane Torloni.
Sucesso na Broadway, a peça é uma comédia dramática que conta a história da cantora lírica Maria Callas. Jayana foi contratada como substituta de duas personagens sopranos da peça, Sharon Graham e Sophie de Palma, interpretadas por Ju Daud e Bianca Tadini, respectivamente.
Ao Portal Correio do Estado, a soprano disse que, apesar de ser substituta, a partir do dia 24 de setembro, todas as quintas-feiras ela subirá ao palco para interpretar uma das personagens da peça, para o qual se sente preparada.
Apesar da emoção de conseguir um papel na área para a qual estudou e em uma peça de sucesso em suas montagens internacionais, a trajetória de Jayana no canto lírico é antiga e marcada por muita dedicação, alguns obstáculos e várias outras conquistas.
A soprano começou os seus estudos em música através do Coral da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), sob a regência do maestro Manoel Rasslan. Posteriormente, a soprano se matriculou no curso de licenciatura em música da UFMS, na classe da mezzo-soprano Cristina Passos, que assim como Rasslan, ela considera fundamentais para sua formação.
Foi Cristina inclusive que incentivou Jayana a se dedicar ao canto lírico. Segundo a soprano, quando entrou no curso ela já sabia que queria cantar, mas ainda não tinha um estilo definido e começou a cantar em uma banda de blues. Porém, não satisfeita com a falta de técnica que machucava sua voz, ela decidiu seguir o conselho e optou por se aperfeiçoar na música erudita.
Durante o curso, entre os anos 2009 e 2010, em parceria com o pianista Adriano Lopes, ela realizou uma turnê por Mato Grosso do Sul, cantando repertório lírico nacional e internacional, além de fazer parte de projetos como Quarta Erudita, Movimento Concerto em Campo Grande, Música na Capela Ivinhema e Festival da Primavera de Dourados.
Jayana também participava de festivais por outros estados do país para adquirir conhecimentos e, em um desses eventos, realizado em Londrina, conheceu uma professora que a incentivou a ir para Goiânia, onde as oportunidades para a área eram maiores.
Dessa forma, em 2011, Jayana deixou Campo Grande e transferiu seu curso de licenciatura para bacharelado em canto, na classe da soprano Marília Álvares, pela Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás (UFV), onde se formou em 2014.
“É um curso muito rico, os professores, a formação, é tudo muito bom. Foi a melhor escolha que fiz, tive um crescimento na minha técnica e canto e foi a minha base, mas tudo acontece no sudeste. Eu trabalhava na Orquestra Sinfônica de Goiânia, mas vivia sem ter para onde crescer e decidi vir para São Paulo”, contou.
Na capital paulista desde fevereiro, onde tem sido orientada vocal e musicalmente pela soprano Elayne Caser e pelo pianista Ricardo Ballestero, Jayana já estava sem perspectivas e buscando contatos para cantar em casamentos quando apareceu a oportunidade do teste para a peça, em maio.
A princípio, a soprano enviou um vídeo, foi chamada para o teste, onde os produtores gostaram de sua voz e técnica vocal e a chamaram para um novo teste, dessa vez com texto, já que por se tratar de uma peça, exige que o elenco contracene.
Jayana teve ajuda de amigos com o texto, já que nunca havia tido experiência com artes cênicas e conseguiu o contrato. "Fiquei muito feliz. Quando apareceu a chance eu agarrei com todas as forças, me dediquei e valeu a pena", disse.
Ela teve preparação da assistente da peça e já se acha “preparada” para o novo desafio, mas não pretende seguir a carreira de atriz e pretende focar no canto.
“Quero guardar uma parte do salário e tentar focar mais ainda no canto lírico, quero ir pro exterior estudar, mas estou fascinada pelo teatro e faria um curso. Para um cantor o curso é excelente, porque a ópera precisa que você tenha conhecimento de artes cênicas”, disse.
Com contrato até março de 2016, a expectativa da soprano é que a peça passe por outras capitais brasileiras e chegue a Campo Grande. “Imagina que legal ficar aí? Campo Grande é uma cidade que não tem verba e incentivo para a música, não existe campo a não ser na área acadêmica e professor de canto não é algo que eu quero, mas é a cidade do meu coração, sempre vou para matar a saudade”, contou.
MASTER CLASS
Considerada a maior soprano de todos os tempos, Maria Callas teve sua história contada por muitos em palcos ao redor do mundo, em diferentes montagens. Terrence McNally foi um dos dramaturgos que investigou a cantora lírica: o americano estreou em 1995 um dos mais aclamados e premiados espetáculos da Broadaway, “Master Class”, com montagens em vários países e que ganhou, no início de setembro, uma nova versão brasileira. No papel da cantora está Christiane Torloni, dirigida por José Possi Neto.
O espetáculo está em cartaz de quinta à domingo, no Teatro das Artes em São Paulo. A temporada segue até dia 22 de novembro na capital paulista.