A história de vida de cada uma delas é interligada por questões genéticas, pela denominação e, principalmente, pela escolha profissional. Oito irmãs, que têm “Maria” nos nomes, escolheram ser professoras influenciadas pelo amor com que a mãe delas transmitia conhecimentos para os outros.
“Era uma apaixonada pela educação”, respondem em uníssono as Marias, quando questionadas sobre a mulher que deu início a essa história: a mãe delas, Luiza Vidal Borges Daniel cujo nome batiza uma escola situada na Vila Bom Jardim em Campo Grande. Segundo elas, Luiza alternava o ensinar das disciplinas básicas com o lecionar partituras já que também era pianista.
A primeira filha alcançada pelo amor ao magistério foi Maria Emília, de 76 anos. Com ela, crianças passaram a se familiarizar com o alfabeto e adultos graduaram-se em letras. Dentre as escolas que passou, as estaduais Maria Constança e Joaquim Murtinho, além da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e a Fucmat, atual Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). "Melhor é a que a gente está", brinca a aposentada.
Diferente da irmã, cujo fascínio estava nas letras, Maria Inês, 73, a segunda desta cronologia do ensinar, optou pelos números. Depois de trabalhar três anos como professora de matemática da rede municipal, passou a dar aulas particulares. "Meu marido viajava muito. Era mais fácil dar aula em casa", explica.
Familiarizada com os algarismos, ela só "perde as contas" quando indagada em relação a quantidade de alunos que teve. "Hoje dou aulas para os filhos e netos dos meus alunos". A diferença de uma geração para outra é percebida durante a exposição do conteúdo. "As crianças eram mais concentradas! A tecnologia influencia muito, mas a pedagogia tem que acompanhar".
E quem acompanhou a tradição da família foi Maria Izabel, 71, lecionando durante o período em que era solteira. Dentre as pessoas alfabetizadas por ela, aparece o cantor Almir Sater. Para ela, ensinar para crianças sempre foi mais gratificante. "O carinho delas com o professor é diferente, porque precisam muito mais da gente".
Da esquerda para direita: Sílvia Luísa, Maria Fernanda, Maria Inês, Ana Maria, Maria Luiza, Maria Eduarda, Maria de Lourdes, Maria Isabel e Maria Emília (foto: Maressa Mendonça/Portal Correio do Estado)Além de lecionar para crianças, Maria Eduarda, 64 nos, ensinou adolescentes, jovens, adultos e, hoje, atua com idosos na Universidade da Melhor Idade. Os ensinamentos vão desde artesanato até a língua portuguesa. "Sempre amei dar aula e hoje não preciso mais trabalhar pelo dinheiro, só pelo prazer em ensinar", declara.
Para Ana Maria, 63, a satisfação era ensinar os alunos a lerem. "Cada ano era um desafio porque você tinha que entregar essa criança alfabetizada no final do ano". A retribuição ocorre ainda hoje, mesmo depois de sete anos aposentada. "Esses dias um juiz falou para um rapaz: 'trata bem aquela moça lá porque ela foi minha professora na 2ª série e me perguntou se eu não lembrava'. Então tem uma gratificação porque eu adorava trabalhar com eles".
Maria Luíza, de 58 anos, conta que lecionou para os cantores Michel Teló, Gabriel e Rodrigo Sater, além de alguns descendentes e faz questão de ressaltar que "nunca deixou nenhum deles [familiares] verem a prova antes". Segundo ela, uma questão de ética.
Maria de Lourdes, 57, também gostava de acompanhar quando as crianças liam as primeiras palavras e formulavam pequenas frases. "Eu gosto das séries iniciais porque a gente percebe o rendimento do aluno de frente. É bem melhor!",declara se referindo ao contato diário com o estudante, o que não ocorre nas séries posteriores, quando o aluno passa a ter professores de matérias específicas.
No histórico de Maria Fernanda, 55, a irmã caçula, há estudantes de idades variadas, desde crianças até os adultos da graduação. Com 36 anos em sala de aula, ela diz que "antes tinha mais a presença do aluno porque não tinha celular, mas hoje, ela não "disputa" mais com as tecnologias. Tem que ter inserção, senão você não consegue ficar em sala de aula".
OUTROS PROFESSORES
Além das oito Marias, existem outros professores na família, como é o caso da sobrinha Silvia Luisa, 48 anos, que teve o primeiro contato com a sala de aula aos 14 anos, auxiliando uma das tias. "Hoje estou diretora".
O geógrafo Carlos Eduardo, gêmeo de uma das Marias, atua como assessor técnico em um centro de meteorologia, mas também pensa em dar aulas.
E essa conta era ainda maior há sete anos, quando Ana Luiza e Maria Tereza, outras duas irmãs das Marias eram vivas e, claro, eram professoras.
CASOS MARCANTES
Depois de tanto tempo em sala de aula, as Marias vivenciaram histórias marcantes com os alunos. Em certa ocasião, Emília, ganhou a "admiração" de um aluno depois de usar um colar com pingente da cannabis (maconha). "Ele perguntou se eu era adepta e eu não entendi. Depois ele me explicou que era pelo colar", lembra. "Ela comprou um 'colarzinho' achando lindo. Pensou que fosse uma samambaia", completa Maria Fernanda.
Eduarda conta ter levado uma aluna para morar na casa dela depois de saber que a menina, que atuava como empregada doméstica havia sido demitida e não tinha para onde ir. "Meu marido disse: 'que loucura', mas ela morou um tempão com a gente".
Fernanda já foi colocada em "fila preferencial" por um de seus alunos. Na época, ela havia fraturado a clavícula e aguardava para ser atendida pelo médico. "Ele me disse: 'a senhora foi minha professora na 2ª série. Acha que vou te deixar esperando? Presta atenção, professora!", brinca.
Esse tratamento dispensado por alguns alunos é uma recompensa ante a desvalorização da profissão, com "remuneração baixa e muita pressão", como elas dizem. " Se não tiver amor, não aguenta ficar nem um dia em sala de aula", analisa Silvia.
Ocasionalmente têm algumas compensações. "Na escada, quando a gente vai passar, ás vezes abrem passagem e falam: 'Ela foi minha professora, deixa ela passar porque ela merece", finaliza Maria Fernanda.