Há 4 anos atuando como Superintendente da Polícia Rodoviária Federal de MS, o policial Ciro Vieira Ferreira e seu efetivo trabalham para garantir a segurança nas rodovias federais e nas áreas de interesse da União. Mesmo com um contingente aquém das necessidades, dada a particularidade do Estado com uma extensa fronteira, ele explica que o planejamento estratégico os tem ajudado a atuar e resolver os problemas na área. Nesta entrevista, ele fala sobre a fiscalização no trânsito, sobre a falta de conscientização do condutor, da atuação diante do tráfico de drogas, entre outros temas.
Superintendente da PRF, Ciro Vieira Ferreira, falou ao Correio do EstadoCORREIO PERGUNTA – Em primeiro lugar, gostaria que o senhor explicasse em que consiste o trabalho da PRF no Estado.
CIRO VIEIRA FERREIRA –Temos como missão garantir a segurança com cidadania nas rodovias federais e nas áreas de interesse da União. E para isso, ela desenvolve uma parte de atendimento, uma parte de fiscalização e outra de policiamento.
Há 4 anos, o senhor assumia a superintendência da PRF em MS. Na ocasião, disse que seu empenho maior seria conseguir, junto ao governo federal, apoio para aumentar o efetivo na fronteira. Isso ocorreu? Qual o contingente da PRF hoje em MS e, particularmente, na fronteira?
Nós buscamos junto ao departamento, desde que assumimos, essa recomposição do efetivo aqui do Estado. Mas nosso departamento depende de toda uma política de governo, de recompletamento do efetivo da Polícia Federal. Para fazer concurso público, é preciso de autorização da Presidência da República e do Ministério do Planejamento. Nestes quatro anos, nós recebemos reforço do efetivo, mas, em decorrência dos anos, nós aqui, no Estado, já tivemos um grande número de aposentadorias. Na turma antiga, a de 1994, tivemos grande número de aposentadorias e também de remoções, além da própria sistemática de remoções: toda vez que há um concurso, a gente recebe um pouco e sai um pouco. Diria que nós – sem falar em números, pois não gostamos de divulgá-los, até porque isso envolve uma questão de segurança para nós e para os servidores que estão na rodovia – estamos bem aquém do ideal, nós precisaríamos de, pelo menos, um aumento de 100% do efetivo que temos hoje. Nós procuramos equilíbrio entre os postos e as delegacias do Estado todo. E por que esse equilíbrio? Porque nós consideramos o Estado todo fronteiriço. Da mesma forma que lá em Ponta Porã ou em Mundo Novo, aqui em Corumbá, eu tenho apreensão de droga, eu tenho em Bataguassu, Três Lagoas, Coxim, Campo Grande. Então, procuramos ter esse equilíbrio de forma que consigamos manter ali um serviço mínimo de fiscalização, de atendimento. Mas, hoje, é deficitário? Infelizmente, sim!

Com esse quantitativo, dá para comandar satisfatoriamente as estradas no Estado, no que se refere à fiscalização do trânsito e ao combate ao tráfico de drogas?
Mesmo com esse quantitativo aquém, nós temos conseguido bons resultados. Mas está bem difícil manter essa atuação efetiva.
O senhor diria que o efetivo de hoje estaria, então, trabalhando muito mais para suprir essa falta de contingente?
Procuramos trabalhar mais em planejamento, o plano de operação de forma direcionada. Por exemplo, no trânsito hoje, procuramos identificar os pontos críticos e direcionar o policiamento para aqueles lugares, para aqueles horários, para aqueles momentos em que está havendo mais incidência de acidentes. Da mesma forma com o tráfico de drogas. A polícia procura trabalhar com planejamento, bem detalhado, de forma a utilizar o pouco de efetivo que nós temos e, aí sim, eu acredito que, em função disso, temos conseguido manter os resultados que temos hoje. Para se ter uma ideia, nós temos, neste ano, mais de 50 toneladas de maconha apreendidas. E isso, se você comparar com as outras superintendências do País, chega a em torno de 30% a 40% de maconha apreendida pelo Brasil todo. É certo que a característica do nosso Estado está muito próxima da fronteira, mas, se nós tivéssemos um efetivo maior, os resultados também seriam maiores. É preciso salientar também que nós temos investido muito em tecnologia nessa questão do planejamento, direcionar o policiamento para os pontos que eu citei, identificados tanto na área de trânsito quanto na parte do crime. Com isso, temos conseguido manter os resultados, com o apoio de tecnologia. Em 2014, por exemplo, a Superintendência da PRF de Mato Grosso do Sul bateu recorde de apreensão de drogas, foram 76 toneladas.
No último feriado, o balanço da PRF foi de 71 mortes no Brasil, sendo 8 mortes apenas em MS, portanto pouco mais de 10% do total do País. Quais motivos o senhor acredita que promovem esse número tão assustador?
Toda vez que acontece um acidente grave, nós fazemos todo um estudo. Como eu disse, nós procuramos detalhar nosso planejamento, nosso plano de atuação e trabalhar pontualmente. Procuramos direcionar o policiamento para estes pontos críticos. E analisando esses acidentes, sempre estudamos para ver o que poderia ter sido feito, qual é a causa. E isso, fora do boletim de acidente, eu falo internamente, para ver se houve falha do policiamento, se existe alguma providência que pode ser tomada, e na grande maioria, infelizmente, desses acidentes é falta de atenção do condutor, falta de respeito às normas de trânsito. Muitas vezes, numa situação, o cidadão sabe que existe o risco e ele mantém a velocidade acima, subestima a informação. Então, sempre procuramos melhorar nossa atuação nesses pontos. Vamos ao local, discutimos com os órgãos de engenharia o que poderia ser feito ali. Um exemplo é a BR-163, sempre trabalhamos com a CCR e com o Dnit e temos conseguido reduzir. Mas, infelizmente, quando entram outros fatores, a responsabilidade do condutor, a gente não tem o que fazer. Tem acidente que acontece a mil metros da viatura da polícia, então não é a falta de policiamento que está causando o acidente. São questões que temos que levar em consideração. Se você vê a quantidade de notificações por excesso de velocidade, de alcoolemia, por falta de uso do cinto de segurança, é grande. São quatro eixos importantes nos quais a gente procura atacar: a fiscalização da alcoolemia – por meio do etilômetro – do excesso de velocidade, da ultrapassagem indevida e de motociclistas. Portanto, são os quatro eixos que são os principais, vamos dizer assim, mas fiscalizamos todos os outros. Quando a fiscalização é feita, é de modo geral, mas procuramos focar nesses quatro, nos quais temos conseguido esses resultados. Este trabalho é muito intenso e reforçado também com a nossa necessidade de, além de trabalhar no crime, trabalhar no trânsito. Na verdade, o principal nosso é o trânsito, o crime aparece, mas o principal é o trânsito.
O senhor diria que aumentou a vulnerabilidade de nossa fronteira, que é extensa, diante da falta de efetivo e da criatividade dos bandidos em fazer a droga passar sem ser vista?
Nossa fronteira é muito complexa, digamos assim, ela tem uma extensão muito grande. Se nós formos comparar com os Estados Unidos, na fronteira com o México, eles têm a fronteira fechada, e ainda assim conseguem entrar com drogas lá. Imagine a nossa, que ainda tem uma particularidade muito grande de entradas e de estradas vicinais, rodovias. Isso dificulta bastante. Com certeza, se nós tivéssemos reforço, não só na Polícia Rodoviária Federal, mas em todos os organismos de segurança que fazem o policiamento e a proteção de fronteira, e tivéssemos uma retaguarda com efetivo maior, conseguiríamos fazer a segurança muito melhor na fronteira do Estado.
O senhor acredita que o Código de Trânsito Brasileiro é falho e que a punição para o infrator é branda no País?
Existe um trabalho que está sendo feito e acredito que, em breve, deve ser lançado pelo governo federal com relação a essa questão do trânsito. E dentro desse trabalho, está a atualização das normativas de trânsito; é um esforço legal para poder corrigir, melhorar e ampliar algumas das normas de trânsito. Nós entendemos, hoje, que isso é essencial. Precisamos aprimorar, entendemos que é necessário. Eu acredito que algumas medidas já foram feitas, como o aumento das notificações de ultrapassagem indevida, a questão da própria alcoolemia, da Lei Seca, acredito que já são evoluções da lei. E, em alguns aspectos, eu acredito que a lei é branda e precisaria ser mais pesada. No tocante aos crimes de trânsito, eu acho que precisam ser revistos alguns aspectos, embora tenhamos toda esta problemática do sistema prisional, que precisa ser melhorada.
A PRF ainda carece de profissional para operar o scanner veicular? Quando o assunto será resolvido?
Nós temos uma equipe que foi formada para operar. Nós direcionamos porque se trata de um equipamento muito caro, não tenho como o colocar para operar 24 horas. O próprio fabricante, pelo desgaste do equipamento, não orienta isso. Então, trabalhamos direcionando esse policiamento. Fazemos um planejamento de forma que a gente identifique os pontos críticos, identifique os momentos daquela região onde possa ter incidência maior de crimes – que ele é para esse fim – e direcionamos a operação para esses momentos. Nós temos este profissional que manuseia o equipamento e, daqui uns dias, teremos um novo curso de formação de operadores desse equipamento. Ampliaremos um pouco mais nossa equipe aqui. A polícia tem condições de operar, está operando o equipamento, mas de forma pontual. E para aquilo que ele foi feito, tem atingido nossas expectativas.
Qual é o perfil, hoje, do tráfico no Estado? Entra mais cocaína, mais cigarro, maconha ou o quê?
Cigarro, cocaína e maconha. Até pela característica, da maconha, sempre o volume é muito maior, pela quantidade, pela produção e pela forma. De janeiro até 13 de outubro, tivemos 1,4 milhão de pacotes de cigarro apreendidos, 1,3 tonelada de cocaína e 50 toneladas de maconha. O modus operandi deles também mudou, principalmente no contrabando e descaminho. Notamos que este pessoal que contrabandeia cigarro antes usava veículos normais, como caminhões, carretas, que tinham documentação, eram regulares. Hoje, eles estão começando outro crime, usam veículos roubados ou furtados. A maioria dos caminhões, hoje, em torno de 70%, que são apreendidos com cigarros, é fruto de roubo ou furto. Esse tipo de crime está começando outro crime, que é o roubo ou o furto, e a gente não sabe se foi morto o motorista ou não, enfim. Identificamos esta mudança. Outra questão, o tráfico de drogas antigamente trabalhava com os batedores e, hoje, esse número aumentou. E também, antigamente, não encontrávamos batedores armados e, hoje, sim. Houve uma evolução do modus operandi deles. Eles não vinham para cima da viatura para passar e hoje, naquilo que chamamos de “cavalo doido”, fazem isso, com caminhonetes roubadas em outros estados. Eles enchem de maconha e tentam passar de qualquer jeito. Já bateram em viaturas, atropelaram policiais, se acidentaram nas rodovias, capotaram, muitos são presos, outros abandonam os veículos na perseguição policial. Isso tudo já é uma mudança, e nós nos atualizamos também.
Com a privatização de algumas rodovias e consequente atuação da concessionária, sobrou mais tempo para a PRF aplicar em outras ações? Quais?
Com certeza. Em função dessa privatização e, hoje, o exemplo que temos é da BR-163, alguns serviços que fazíamos anteriormente, de atendimento, de sinalização, não fazemos mais . E nisso, sobra mais tempo para fiscalizar, fazer ronda, policiamento ostensivo. E é o que a gente tem feito.
PERFIL
CIRO VIEIRA FERREIRA
Natural de Campo Grande. Está na Polícia Rodoviária Federal desde 1994. Ficou na Polícia Militar no Estado durante 4 anos, o que contabiliza 25 anos de serviços na área pública. Foi chefe de delegacia, chefe da área de fiscalização, trabalhou em Brasília por 3 anos como assessor da direção-geral, coordenou a inteligência da polícia no Brasil todo e trabalhou na Paraíba e em Goiás. Voltou para MS chefiando a Delegacia de Anastácio, na região de Corumbá. É instrutor da Polícia Rodoviária Federal em algumas disciplinas, como armamento de tiro, técnicas de abordagem, policiamento e fiscalização; também na área de inteligência, coordenou vários cursos de formação da polícia e foi coordenador geral dos cursos. Exerce a função de superintendente regional desde 2011. É formado em Teologia.