Cidades

ACIDENTE DE TRABALHO

De onde viria a sobrevivência, o martírio

Coletor conta história dramática que ainda vive, depois de sofrer acidente em 2010

Redação

13/11/2015 - 09h15

O relógio marcava 19h, do dia 25 de janeiro do ano de 2010, quando o coletor de lixo chegou para mais um dia de trabalho, assim como fazia havia quatro meses. Naquela noite, um acidente daria início ao drama de sua vida.

Uniformizado e com equipamentos de proteção exclusivos para coleta domiciliar, percorreu alguns bairros até chegar ao centro de Campo Grande. No cruzamento entre as ruas Doutor Arthur Jorge e 15 de novembro, ao recolher o lixo que havia sido depositado de maneira irregular, na frente de um hospital, sentiu que as duas mãos estavam perfuradas.

Curioso, abriu o saco preto e foi surpreendido com 24 agulhas - algumas sujas de sangue. Ficou preocupado, mas continuou com a rotina, e avisou, imediatamente, responsáveis pela empresa a qual prestava serviço. Em princípio, nenhuma providência foi tomada.

Alguns dias depois, adoeceu. Fez o primeiro exame de sangue que não diagnosticou nenhuma doença. Nas próximas semanas, continuou doente, sentindo febre, sem apetite e fortes dores. Então, novamente buscou amparo médico. Foi, então, que novos exames sentenciaram o sofrimento que enfrentaria a partir daquele momento. O resultado havia sido positivo para sífilis e hepatite B – doença que atinge o fígado, podendo causar até morte, e do tipo de mais fácil contágio.

A pessoa em questão é Ordilei Soares de Castro, 31 anos, que recebeu a equipe de reportagem em casa e contou a sua história na calçada de um vizinho, do outro lado da rua. A recepção em sua varanda não foi possível, pois ela estava toda suja de graxa, com peças desmontadas e uma carcaça de caminhonete a qual ele tentava fazer funcionar para realizar um sonho: trabalhar com reciclagens, já que o mercado de trabalho lhe fechou as portas.

Quase seis anos depois, enfrenta preconceito e desprezo. “Depois do acidente fiquei algum tempo na empresa, mas sempre precisava pegar atestado por causa de recaídas na saúde e um dia fui demitido. Desde então, empresas descobrem que tenho essas doenças e me mandam embora. A caminhonete é para juntar materiais recicláveis e vender. Preciso ajudar a minha família”, declara.

Ordilei mora com com a mãe, um casal de irmãos e quatro sobrinhos. Sobrevivem com renda mensal de R$ 1,3 mil.

NÚMEROS

Este é apenas um drama de dezenas de trabalhadores que sofrem ou sofreram algum tipo de lesão corporal ou perturbação funcional, de caráter temporário ou permanente, em atividade de coleta de lixo na Capital e interior de Mato Grosso do Sul.

Segundo o último Anuário Estatístico da Previdência Social do ano de 2013, 199 pessoas que atuam neste segmento profissional sofreram acidentes de trabalho, no Estado.

Na Capital, no ano passado, conforme dados da concessionária responsável pela gestão de limpeza CG Solurb, foram 102 acidentes envolvendo coletores. O número representa média de um caso a cada três dias.

A estatística também mostra que deste total, 33 se feriram, especificamente, com agulhas, vidros e madeiras (objetos perfurocortantes).  

 

Coletores diariamente se arriscam em ruas de Campo Grande para manter limpeza e conservação
 (Foto: Valdenir Rezende)

Até outubro deste ano, foram 82 acidentes. Nestes períodos, não houveram mortes.

Apesar de os dados indicarem redução de um ano para o outro, acidentes que ocorrem durante desempenho de atividades poderiam ser ainda menores se houve conscientização da sociedade. É como avalia o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Asseio e Conservação de MS (Steac-MS), Wilson da Costa.

“Descarte inadequado de alguns tipos de lixo e mordidas de cães estão entre as principais causas de acidentes. As pessoas têm que ter consciência. Vai jogar vidro? Enrole-o em jornal. Prendam os seus animais. São os trabalhadores que ficam expostos a atitudes imprudentes e acabam como vítimas”, critica.

Além de perfurações por objetos e mordidas, trabalhadores enfrentam outros problemas. Ruídos do motor dos caminhões, por exemplo, podem provocar dores de cabeça, irritação e stress. Também ficam vulneráveis a intoxicações por produtos químicos, quedas e até atropelamentos.

Não são apenas situações que poderiam ser evitadas que podem causar prejuízos à saúde desses trabalhadores. Há também doenças que se desenvolvem com o passar do tempo – as chamadas doenças ocupacionais. Tendinites, alergias, problemas posturais e desgastes na cartilagem dos joelhos – devido ao sobe e desce dos caminhões, por exemplo, fazem parte desta lista.

AÇÕES DE PREVENÇÃO

Conforme o coordenador de segurança do trabalho da CG Solurb, Readir Andrade, 320 funcionários fazem a coleta de lixo diária, na Capital. Visando o trabalho seguro, a empresa desenvolve ações preventivas e de capacitação, especialmente com o uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI´s) - uniforme (calça e camisa e boné), luvas impermeáveis, sapatênis, e, em dias de chuva, capa de proteção.

“O número ainda é alto. Por isso, temos toda cautela desde o ato da admissão. Além de exames, nossos funcionários recebem todo o treinamento necessário. Periodicamente, há campanhas com instruções do uso adequado dos equipamentos de proteção e como prevenir lesões decorrentes de instrumentos perfurocortantes. Além disso, todos recebem o manual com seus direitos e deveres”, garante Readir.

Para Readir, ações previnem acidentes de trabalho
(Foto: Álvaro Rezende)

O coordenador destaca, ainda, que ações preventivas também envolvem a sociedade. “Fazemos divulgações nas mídias, distribuímos panfletos explicativos, realizamos ações nas vias mais movimentadas do centro da cidade. O objetivo é educar a população sobre a forma correta de descartar o lixo e evitar que o coletor se machuque”, pontua.

Sobre a prevenção das doenças ocupacionais ele é taxativo. “É fundamental que as empresas tenham programas relativos à segurança e medicina do trabalho bem estruturados e elaborados. Entretanto, somente a existência de tais programas não basta, é preciso garantir que sejam executados corretamente e fiscalizados”, frisa o coordenador.

Para o especialista em segurança do trabalho, proteger a integridade dos trabalhadores é fundamental para a satisfação do ambiente profissional.

Ele cita, ainda, que afastamentos em decorrência de acidentes de trabalho causam grande impacto nas finanças da empresa. “Para não comprometer nossas metas, precisamos suprir a falta do funcionário que está de atestado tendo que pagar horas extras. Se o afastamento for superior a 30 dias, temos que contratar novas pessoas. Isso nos gera custos elevados”, afirma, sem divulgar valores.

O coletor Rafael Ferreira Delgado, 23 anos, empregado na concessionária de limpeza da Capital há três anos, avalia a profissão como de eminente risco e já fez parte da estatística dos acidentados.

“É muito arriscado. Apesar de termos toda a preparação que precisamos, estamos sujeitos a machucar quando corremos, sermos atropelados, diariamente enfrentamos cães. Há um ano furei um dedo com caco de vidro e torci um tornozelo. Mas, gosto do que faço. É com essa profissão que contribuo para o sustento da minha família”, comenta.

Rafael trabalha na coleta de lixo de Campo Grande há três anos e duas vezes sofreu acidente de trabalho
 (Foto: Álvaro Rezende)

​ACIDENTES EM GERAL

Na outra ponta, está o Tribunal Regional do Trabalho de Mato Grosso do Sul (TRT/MS) que avalia denúncias para chegar em comum acordo entre empresa e funcionário. De acordo com dados da instituição, dos 2.730 novos processos envolvendo acidentes de trabalho, até o mês de setembro deste ano, 65% - que equivalem a 1.773, foram resolvidos na 1ª instância. O resultado expressivo de casos solucionados ocorreu em menos de um ano.

A cidade que lidera o ranking de abertura de processos neste período, consequentemente, é a mais populosa: Campo Grande, com 1.160 casos. Em Dourados, 471 pessoas buscaram amparo na Justiça Trabalhista e a cidade está em segunda colocação. Depois, está Três Lagoas com 223 processos.

Ainda conforme os dados, em todo o ano de 2014, foram abertos 3.268 novos processos, representando média de nove por dia.  

JUSTIÇA EM AÇÃO

A Justiça também trabalha com estratégias para conscientizar empregadores e empregados na prevenção de acidentes. O Programa Trabalho Seguro, formado há três anos, em Brasília (DF), tem como gestor regional, em Mato Grosso do Sul, o juiz Marco Freitas, titular da vara de Rio Brilhante. Segundo o magistrado, a proposta é difundir ideias, buscar prevenções e valorizar a saúde.

"Pelo menos a cada dois meses nos reunimos com gestores nacionais e traçamos metas para serem alcançadas em cada estado. Entre as ações desenvolvidas, estão campanhas em empresas. Também palestras com juízes e servidores. Nosso objetivo é trabalhar a prevenção e mostrar que o acidente é ruim para ambas as partes. Tanto empregado que pode ter graves lesões quanto o empregador que tem gastos que poderiam ser evitados", pontua Marco. 

O juiz explica, ainda, que o tema eleito para desenvolvimento de ações neste ano foi "Acidentes de trabalho com máquinas". 

Dados das Comunicações de Acidentes de Trabalho ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS ), apontam que em todo o país, máquinas e equipamentos provocaram 221.843 acidentes, entre os anos de 2011 e 2013. O que representa 17% dos acidentes de trabalho típicos ocorridos no período.

Foram comunicados ainda 41.993 fraturas (270 por semana) e 13.724 amputações (mais de 12 por dia).

Confira no gráfico abaixo orientações do descarte de lixo com segurança.

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