Falar sobre aborto é sempre um assunto polêmico, “tema difícil de ser abordado, multifacetado, e com diversas implicações à saúde da mulher”, como explica a doutora em Pswicologia, Zaira ndrade Lopes, de Campo Grande. Nesta entrevista sobre o tema ao Correio do Estado, ela fala sobre os aspectos psicológicos que afetam a mulher principalmente após o aborto - voluntário ou não . Seguno ela, hoje a concepção que a sociedade tem sobre a prática do abordo, sob o ponto de vista da moral, da ética ou do enfoque religioso, podem suscitar na mulher emoções, processos psicológicos que podem evidenciar sentimentos de culpa.
CORREIO PERGUNTA - Estudos mostram que são vários os efeitos psicológicos e emocionais que o aborto provocado (pode) ocasionar à mulher. Quais são eles?
ZAIRA ANDRADE LOPES Para entender um pouco a questão dos aspectos psicológicos que decorrem da prática do aborto, quero trazer inicialmente a questão de como se constitui o ser humano, ou melhor dizendo, como chegamos a ser o que somos. O ser humano é constituído histórica e culturalmente. Aquilo que nos identifica, a nossa forma de ser, pensar, fazer e agir no mundo. Enfim, os nossos processos psicológicos são resultados de tudo que vivemos e “experenciamos” em nossa história de vida pessoal e social, das normas e da cultura que nos cercam. Desse modo, falar dos aspectos psicológicos e emocionais que envolvem a mulher e a questão do processo de aborto, necessariamente implica pensar nas normas, nas regras, na cultura que envolve essa mulher, a sua constituição, isto é, da mulher que realizou ou não o procedimento, que pensou ou não em realizar. Se o que somos está diretamente ligado às nossas experiências, às nossas aprendizagens, e como se diz na vertente da Psicologia histórico cultural, os processos intra e inter psicológicos são resultados de nossas relações sociais e atividades realizadas e internalizadas. Então, hoje a concepção que a sociedade tem sobre a prática do abordo, sob o ponto de vista da moral, da ética ou do enfoque religioso, podem suscitar na mulher emoções, processos psicológicos que podem evidenciar sentimentos de culpa, sintomas ligados aos processos de depressão, podem desencadear comportamentos auto-destrutivos, auto imagem negativa. Estudos, por exemplo, apontam a diminuição do desejo sexual, ou seja, o aborto levando a uma alteração da sexualidade das mulheres. Em resumo as alterações de cunho psicológico de certo modo, implicam em como essa mulher internalizou a concepção dessa prática. Se internalizou que o aborto é pecado, que implica em uma ação “criminosa” vai com certeza sentir-se inadequada, levando a sentimentos de culpa por ter praticado tal ato. Então, é preciso saber separar as questões culturais dos processos psicológicos decorrentes de nossas ações no mundo. Ou seja, no campo da psicologia é necessário explicar os processos psicológicos, e não apenas descrevê-los. Por exemplo, na sociedade existe preconceito, que leva à discriminação e à criminalização da mulher que realiza o aborto, e isso causa danos psicológicos severos a ela e nos seus relacionamentos afetivos e sociais. Tais condições podem então levar a mulher a apresentar um universo de psicopatologias descritas nos estudos sobre as consequências da prática do aborto.
Há pensamentos negativos, memórias sensoriais sobre o ato do aborto que viriam a traumatizar a mulher?
Considerando que em nossa legislação a prática do aborto é proibida, as consequências do ato do aborto e os traumas advindos dele passam pela polêmica discussão sobre a descriminalização do aborto e envolve uma série de questões sobre a saúde, os direitos reprodutivos das mulheres, concepções científicas e religiosas sobre a vida, dentre outras questões. E estas vão, de certo modo, provocar uma série de “sintomas” nas mulheres que ou por opção ou por necessidade involuntária tiveram que recorrer à prática do aborto. Se por opção a mulher recorre ao aborto e após a realização entra em confronto com seus valores morais, ela poderá desencadear pensamentos negativos, sentir-se culpada, apresentando quadros de transtornos psicológicos decorrentes da situação que lhe foi traumática. Ou mesmo, se pensar que essa mulher já tenha alguma condição anterior em seu desenvolvimento psicológico de instabilidade emocional, traumas vividos que envolvem perdas, a realização do procedimento pode abrir a condição de transtorno mental, de um quadro de sintomas que necessitem uma intervenção psicológica. Com certeza, toda atividade por nós desenvolvida vai gerar em nosso mundo mental uma imagem que vai orientar nossas futuras ações. E o modo como a realizamos tal ação, o sentido que atribuímos a essas experiências podem nos afetar profundamente tanto para nossa “felicidade” quanto para nossa “tristeza”, fazer bem ou mal para o nosso processo de desenvolvimento. No caso da prática do aborto o mesmo ocorre. Qual o significado dessa ação na sociedade, e qual o sentido dessa ação para mim? Então esse é o ponto que deve ser discutido para entender os possíveis traumas que a mulher pode apresentar. Aliás não só a mulher, mas todas as pessoas envolvidas no processo.
*A entrevista completa está na edição de hoje do Correio do Estado.