Cidades

Período perigoso

Violência contra mulher representa metade das ocorrências dos fins de semana

Segundo secretário de segurança, números demostram também confiança das vítimas

Redação

29/11/2015 - 13h29

"Aos finais de semana, 50% das nossas ocorrências são de violência contra mulher. É impressionante!". A declaração foi dada pelo secretário de segurança pública de Mato Grosso do Sul, Silvio Maluf, em visita recente ao jornal Correio do Estado, e demonstra uma estatística que mesmo a autoridade pública acostumada a trabalhar com a realidade de crimes se surpreende.

Dados da Sejusp apontam que do dia 1º de janeiro até a última sexta-feira (27), foram registrados 1.492 casos de violência doméstica em Campo Grande e outros 3.295 no interior. Só neste fim de semana (entre os dias 27 e manhã do dia 29) foram outros cinco casos na Capital e 15 casos nas cidades do interior do Estado. 

O secretário afirma que esse volume de ocorrências, considerado expressivo por ele, precisa ser interpretado sob duas perspectivas: do sistema que contabiliza os registros e atualiza os dados instantaneamente e da confiança das mulheres em denunciarem. 

"Eu tenho uma estatística consolidada que nem todos os estados tem e uma  população que acredita no cumprimento da Lei, então as mulheres acabam encorajadas pela denúncias das outras e acaba aquela questão de segredo de família". 

Titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), Rosely Molina, também ressalta que a análise dos registros policiais deve ser feita com cautela. "Os números de registros estão aumentando, mas a gravidade dos relatos está diminuindo. As mulheres não estão mais esperando o primeiro tapa para denunciarem". 

VÍTIMA

Mas o medo ainda persiste e impede muitas mulheres de procurarem ajuda. Esse era o caso da dona de casa E.L.V, de 50 anos. À reportagem do Portal Correio do Estado, ela contou que, além de sentir culpa, não tinha coragem de contar as agressões físicas que sofria constantemente para ninguém. O autor era o marido, com quem ficou casada por anos.

Quando a situação ficou insustentável, ela decidiu primeiro desabafar para os filhos que ela tem de outro relacionamento. Toda a violência que sofria foi detalhada. O ato de compartilhar uma experiência de humilhação constante a ajudou a criar coragem para agir.

Denunciar o ex-marido ela não conseguiu. "Fiquei com medo de ele descobrir e fazer alguma coisa para os meus filhos na rua", relatou. "É difícil contar para os outros. Alguns acreditam, outros te acusam. Você não sabe o que fazer. É complicado", reconheceu. O registro na polícia não foi feito, mesmo  com os filhos apoiando o fato de ela fazer a denúncia.

A medida tomada por E.L.V foi mais extrema. Simplesmente desapareceu da vida do agressor. Sem avisar e dar pistas, mudou-se de estado. Foi morar em Santa Catarina por um ano, na busca por refazer seu caminho e tentar enterrar o que tinha passado.

Hoje ela voltou a viver em Campo Grande. Veio para a Capital novamente porque a mãe dela ficou doente e precisava de ajuda. O medo voltou a rondá-la, mas o passar de meses a tranquilizou. Descobriu que o ex-marido, que a humilhava e a agredia fisicamente, casou-se com outra mulher. "Acho que ele não volta a me procurar mais. Soube que ele está doente e casado com outra, agora estou mais tranquila", afirmou.

PREVENÇÃO

A advogada Ana Patrícia Nassar, vice-presidente da Comissão de Combate à Violência Doméstica e Familiar contra à Mulher (Comcevid), braço da Ordem dos Advogados do Brasil de Mato Grosso do Sul (OAB-MS), disse que a prevenção deve ser feita com medidas de curto, médio e longo prazo, começando com campanhas educativas e terminando na repressão do agressor. 

Ela confirma que a violência costuma ocorrer com mais regularidade aos fins de semana e feriados. Nassar ainda inclui o período noturno nessa estatística. "A bebida alcoólica é um dos fatores que potencializa, mas não é a causa", explicou

DESCONSTRUÇÃO 

A advogada ressalta ainda a necessidade da desconstrução de alguns conceitos como o de que "mulher gosta de apanhar". 

"Muitas pessoas não entendem porque algumas mulheres reatam o relacionamento com o agressor ou porque elas aguentaram tanto tempo. Existe a questão de gênero, da mulher criada para ser submissa. Não se vê como independente. Também tem o vínculo emocional, não é um simples agressor que a mulher encontrou na rua e não tem vínculo, é o marido, o pai do filho dela".
 
Ana Patrícia explica ainda que a violência física é a mais comentada por ser mais aparente, visível e abranger o risco de morte, mas existem outras como a patrimonial, a moral, a sexual e a psicológica. 

"Muitos não consideram essa parte sexual como violência doméstica quando ocorre entre o casal, mas sexo tem que ser consentido inclusive dentro do casamento. E o estupro sempre foi muito utilizado como instrumento de vingança nas guerras, em torturas. A mulher é muito atingida nessa prática de crime sexual". 

A recomendação para as mulheres que sofrem violência é sempre a mesma: que denunciem e procurem ajuda. O apoio psicológico também é fundamental para que a vítima reconstrua a vida longe do agressor e evitem novos casos com outros agressores. 

 

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