Depois da polêmica envolvendo parto domiciliar, com duração de onze horas, em que recém-nascido acabou morrendo na segunda-feira (14), em Campo Grande, a presidente da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de Mato Grosso do Sul (Sogomatsul), ginecologista e obstetra Nádia Stella Viegas dos Reis, reforçou que partos em casa não são recomendados.
Segundo Nádia, a recomendação tanto do Conselho Federal de Medicina quanto da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) é que os partos sejam realizados em ambiente hospitalar, "mas reconhecem (as entidades) que a paciente tem autonomia para decidir. Só que ela tem que estar informada do risco".
Os riscos, segundo a médica, vão desde as oscilações dos batimentos cardíacos do bebê até um "estresse do útero" que pode ter mudanças no ritmo das contrações em decorrência de um trabalho de parto muito longo.
Nádia analisa que não há problemas no parto domiciliar, sendo prática comum em outros países como Holanda e Estados Unidos, por exemplo. A diferença, segundo ela, é que existe uma equipe à disposição da gestante, hospital próximo de onde o parto é realizado e, às vezes, até ambulância na porta da casa.
"Se acontecer alguma coisa, ela [mãe] não vai fazer ligação para o serviço público, que às vezes está atendendo outra ocorrência e vai demorar pra chegar. Esses momentos são cruciais, os segundos são essenciais tanto para a sobrevida da mãe quanto para a do bebê".
ENTRE HUMANIZADO E HOSPITALAR
Defensora do parto humanizado, a doula Maria Maia dos Santos faz questão de diferenciar os serviços. Segundo ela, é possível ter um parto "mais humano" mesmo no hospital.
"As pessoas às vezes confundem. Mas o parto humanizado é o que tenta melhorar o ambiente para a mulher parir naturalmente, com menos intervenções possíveis, que é o que nós chamamos de violência obstétrica".
Dentre os tipos de violência obstétrica, Maria cita o rompimento prematuro da bolsa, a proibição da mãe de se alimentar ou beber água, a aplicação de ocitocina sintética para acelerar o parto e as manobras de kristeler, técnica de pressionar o útero com força para que o bebê saia mais rápido.
"O parto humanizado é o parto respeitável em que a mulher não é induzida a fazer cesariana sem motivo, mas também não é influenciada a fazer normal quando há necessidade de cesariana. Ele pode ser domiciliar, no hospital, na casa de parto, mas eu, nunca fiz domiciliar porque acho muito prematuro na cidade".
ENTENDA O CASO
Um trabalho de parto que era realizado há pelo menos 11 horas terminou em tragédia no fim da manhã de segunda-feira (14), em Campo Grande. Informações iniciais dão conta de que a gestante, de 32 anos, fazia um parto natural em casa, com auxílio de uma doula – profissional especializada no apoio durante o parto – e tudo acabou mal.
O bebê nasceu sem sinais de vida e equipes do Corpo de Bombeiros e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foram acionadas. Houve tentativa de reanimação, mas a criança não sobreviveu.
Equipes do Corpo de Bombeiros e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foram acionadas pela família depois que o bebê nasceu sem sinais de vida, por volta das 11 horas de hoje, em uma casa no bairro Taquarussu.
Houve tentativa de reanimação, mas a criança não sobreviveu. Perícia da Polícia Civil esteve no local no incidente e o corpo do bebê foi encaminhado pela funerária Nippon ao Instituto Médico Legal (IML).