Cidades

Educação

Mais de 300 mil alunos estão fora do 'ensino do futuro' em MS

Só Campo Grande concentra as escolas capacitadas para o ensino bilíngue

Redação

04/01/2016 - 09h00

O ensino do futuro, que é caracterizado pelo acesso à escola bilíngue, ainda está longe ser realidade na rede pública de Mato Grosso do Sul e para seus 330 mil alunos. 

O método acrescenta, no mínimo, três horas a mais na grade escolar e oferece aprendizado de uma segunda língua a estudantes foi definido como o principal passo garantir a evolução educacional no Brasil. O tema tornou-se referência depois do VI Congresso Internacional de Educação, realizado no Rio Grande do Sul em maio deste ano.

A bem da verdade que mesmo para quem não está na escola pública também tem dificuldade para encontrar essa opção, principalmente em Mato Grosso do Sul. Só Campo Grande concentra as escolas capacitadas para o ensino bilíngue no Estado, mas existe a previsão da abertura de uma unidade com esse método em Três Lagoas. Até este ano, era apenas uma unidade educacional oferecendo esse método, a Escola Harmonia.

A partir de 2016, mais três entram nesse mercado, todas elas particulares: Paulo Freire, Maple Bear e a Escola do Sesc Horto . “É uma tendência do mundo. O futuro da educação é bilíngue. Isso foi destaque no congresso nacional realizado no Rio Grande do Sul”, afirmou a educadora há 38 anos e diretora pedagógica, Adelina Maria Avesani Spengler.

INVESTIMENTO E EXPECTATIVA

Pais que tem condições de arcar com o custo de uma escola bilíngue entendem que se trata mais de investimento do que pagar a mais na mensalidade. O acréscimo do valor mensal, em média, é de R$ 260.

E quem decidiu matricular o filho nesse tipo de método tem grandes expectativas, como é o caso administradora, Renata de Rezende Kroetz, de 41 anos, mãe dos gêmeos João Paulo e Eduardo, de 7 anos que estudam no colégio Paulo Freire.

Ela morou no Texas na década de 90 e conta ter tido certa dificuldade com o idioma. "Acho que a gente têm muita vergonha, mas para as crianças é mais tranquilo", diz. Para Renata, aprender outro idioma não é importante apenas para garantir a empregabilidade, mas "para a vida".

A opinião é compartilhada pela analista de sistemas, Gretta Rodrigues de Paula, de 35 anos. Mãe de Lucas, Caio e Guilherme que também estudam no colégio Paulo Freire.

Ela pontua ter ficado muito satisfeita com a mudança da escola para o ensino bilíngue por acreditar que" a língua inglesa não é mais um diferencial, mas pré-requisito para o mercado de trabalho".

Outra vantagem apontada por ela é a facilidade que as crianças têm de assimilarem novos  conhecimentos. Com filhos  de 5,7 e 9 anos, ela percebe como a percepção deles é mais apurada. "A absorção de um novo idioma para eles vai acontecer naturalmente, sem conflito. Para eles é menos estressante".  O investimento, segundo ela, equivale a mensalidade de um curso de inglês.

REALIDADE NACIONAL

No Brasil, os números mostram que o ensino bilíngue ainda é a menor parte do sistema educacional. Dados divulgados pela Universidade Estadual Júlio de Mesquita (Unesp-SP) indicaram que existem 71 escolas com essa metodologia no país e mais de 10 mil alunos, isso em um universo de mais de 43 milhões de estudantes matriculados apenas no ensino público brasileiro.

No ensino público, só três estão inseridas nesse mundo, todas elas ficam no Rio de Janeiro. O Centro Integrado de Educação Pública tem duas unidades que oferecem francês e inglês como segunda língua. A outra unidade é o Colégio Estadual Hispano-Brasileiro João Cabral de Melo Neto, que tem espanhol como segunda língua. A concorrência para entrar é grande.

Durante o VI Congresso Internacional de Educação, em Rio Grande do Sul, outra estatística mostrou como saber uma segunda língua ou até outras é algo ainda muito novo para quem vive por aqui.

Em países europeus, entre 70% e 80% das pessoas sabem ao menos falar um segundo idioma. Nos Estados Unidos, a fatia representa entre 50% e 60% dos cidadãos. No Brasil, 5% da população domina um outra língua que não seja o português.

“O prejuízo (da falta de mais de um idioma) é enorme. Quando uma empresa de escala mundial quer abrir uma unidade em algum país, esse o critério é analisado. Por que a Índia, por exemplo, um país com nível de pobreza tão grande, consegue atrair empresas e tem um crescimento maior que o nosso? Porque a população bilíngue lá é muito grande”, analisou Daniel Martins, diretor da Harmonia, escola bilíngue em Campo Grande há 12 anos.

ENSINO BILÍNGUE OU AULA DE INGLÊS

Para uma escola ser intitulada bilíngue é preciso seguir alguns critérios. O ensino do português é obrigatório e precisa atender uma carga mínima de 200 dias letivos.

Ao se ensinar uma segunda língua, a unidade educacional precisa acrescentar pelo menos três horas diárias a mais na sua grade. Por isso, em geral, essas escolas acabam funcionando em período integral.

Há educação da fala e da escrita e o estudante aprende matérias muitas vezes equivalentes às ministradas em português, mas com conteúdo todo repassado no outro idioma, inclusive com o professor fazendo explicações na nova língua.

Dependendo do método, é inserido o ensino de geografia, filosofia, literatura no segundo idioma. Algumas escolas fecham convênio com instituições internacionais que passam a coordenar parte do plano pedagógico. Assim, ao final do ensino médio o aluno recebe um diploma válido no Brasil e em outros países.

A grande vantagem disso é que quem pretende concorrer a uma vaga em universidades nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo, tem currículo reconhecido para apresentar nessas instituições.

ENSINO PÚBLICO

No ensino público estadual em Mato Grosso do Sul, há oferecimento de aulas em outras línguas: (inglês, espanhol, francês, italiano além da Linguagem Brasileira de Sinais), ofertadas em quatro horas semanais e com vagas limitadas no Centro de Línguas, situado na avenida Tiradentes, onde antes funcionava a Escola Guia Lopes da Laguna.

O local funciona desde setembro de 2013 e tem como público-alvo, estudantes do Ensino Médio, conforme explica a  diretora do Centro de Línguas, Márcia Proescholdt. Ela explica ainda que o foco dos cursos é leitura, fala e escrita.  " A gente preza pela comunicação".  

O processo seletivo é feito por meio de uma análise documental. Caso as vagas não sejam preenchidas, a comunidade também pode se inscrever nos cursos.

Como não atende a totalidade dos matriculados na rede estadual, o ensino bilíngue não é realidade. Segundo informações divulgadas pela assessoria de comunicação da Secretaria de Estado de Educação,  ainda não existe um estudo para construção de uma escola pública bilíngue em MS.

Nesse contexto, uma das dificuldades é encontrar professores que ensinem em inglês e não apenas o inglês porque disciplinas como matemática, física e literatura, por exemplo, precisam ser ministradas no outro idioma.

BOLSAS DE ESTUDOS

Entre as escolas particulares, o acesso a bolsas ainda é pequeno. Somente a Harmonia tem vaga disponível para alunos carentes. Quem está no ensino médio público pode concorrer a uma vaga, mas antes precisa passar por um processo seletivo e entrevista.

As inscrições ficam abertas até janeiro e interessados precisam procurar a escola pelo telefone (67) 3341-5751. O número de bolsas disponíveis não foi divulgado.

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