Tomar banho, andar pela praça e dirigir. Simples ações que fazem parte da rotina de todos ficam bem mais difíceis quando não se tem um membro como uma perna, por exemplo. Em muitos casos, a amputação ocorre depois de um trauma, na maioria das vezes, um acidente de trânsito. Não é fácil se deparar nesta situação.
Em Campo Grande, cerca de 10 a 15 pessoas por dia amputam algum membro decorrente de acidente de trânsito. Por conta disso, um grupo de pessoas que foram amputadas ou que nasceram com algum tipo de deficiência física se uniu com o objetivo de levar a outras pessoas nas mesmas condições, conforto, palavras de superação e, além disso, informações úteis a quem terá de conviver para o resto da vida com uma mudança que não foi escolhida por ela.
Por meio do projeto “Amigos do Joel”, formado por aproximadamente 100 pessoas distribuídas em ao menos cinco municípios do Estado, é que vítimas de acidentes são contatadas ainda no hospital, logo após a amputação do membro, a fim de oferecer um suporte logo no início do processo de conformação. Em sete anos de existência 1.500 pessoas já foram atendidas.
Cadeiras de rodas, muletas e próteses são alguns dos itens que o projeto batalha para conseguir entregar a quem necessita. Além disso, são oferecidas, em escolas, palestras para crianças com objetivo de despertar nos futuros motoristas a conscientização de dirigir com prudência, além de fazer com que o convívio com uma pessoa amputada seja normal.
Grupo de vítimas de acidente leva conforto e palavras de superação a recém amputados Simone Maria da Silva, de 29 anos, é uma das últimas vítimas do trânsito da Capital. Após 11 dias do acidente ocorrido no dia 4 de junho, no cruzamento da Avenida Fábio Zahran com a Avenida das Bandeiras, em Campo Grande, a faxineira, internada no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) da Santa Casa, perdeu parte de uma das pernas.
Sabendo disso, o grupo de amigos entrou em contato com a cunhada de Simone para oferecer qualquer tipo de ajuda que a mulher precise com relação a adaptação de ter que viver sem uma das pernas. Porém, os trabalhos só podem iniciar assim que ela sair do CTI e puder conversar, já que a garganta está bem debilitada por conta do tubo de oxigênio.
Vítima de acidente de trânsito e idealizador do projeto, Joel Lidio Faustino, de 38 anos, é o responsável por levar informação a quem desconhece os direitos a partir de um acidente com amputação. Desde que soube do caso de Simone se ofereceu para ajudar.
DEPRESSÃO PÓS-ACIDENTE
Joel diz que faz questão de exibir a prótese e que só usa calça para ir à igreja Ex-motorista de transporte coletivo, Joel conta que 'renasceu' no dia 1º de maio de 2009 quando um veículo, que ele não sabe especificar qual, mudou a rotina dele para sempre. “Eu seguia pela Rua dos Cafezais, no bairro Paulo Coelho Machado, em Campo Grande, quando fui atingido por um veículo. Acordei na Santa Casa e sem a perna. A partir daí me afundei em depressão”, lembra.
Nos 12 meses seguintes à amputação, nada nem ninguém conseguiu fazer com que ele reagisse e a revolta pelo ocorrido só aumentava. “Tudo que falavam não fazia sentido pra mim. Certo dia um colega foi me visitar e falou para eu levantar da cama, mas respondi que ele só estava falando aquilo porque ele tinha as duas pernas inteiras”.
Tudo mudou a partir do dia que Joel recebeu a visita de Nunes, um amigo de longa data o qual tinha servido o quartel com ele. “Ele foi picado por uma cobra e teve que amputar a perna. Foi a única pessoa que escutei, já que tinha passado pela mesma situação que eu”, detalhou Joel ao enfatizar que a partir deste momento, ele não só reagiu, como renasceu.
NOVA VIDA
Joel conta que resolveu fazer com outras vítimas de amputação, o mesmo que Nunes fez com ele. “Decidi ajudar quem passou pelo que eu passei. Assim que fico sabendo que alguém teve membro amputado, já oferecemos suporte ainda no hospital”.
O ex-motorista conta que a luta do projeto vai além de fazer com que a pessoa compreenda que a vida dela continua. “Precisamos mudar as leis, fazer com que o estado garanta melhores condições de vida às vítimas de amputação. A pessoa sai do hospital sem saber como fazer para poder ter uma perna”.
Joseane ainda está na cadeira de rodas. Na foto ela recebe visita de Joel após acidente É o caso da cabeleireira Joseane Silva, de 32 anos, que no dia 8 de agosto de 2015 perdeu uma perna após ser atropelada e ficar prensada no muro da área militar, na Avenida Duque de Caxias. Ela foi uma das vítimas atendidas pelo projeto “Amigos do Joel”. “Ele foi me fazer uma visita e levar a própria experiência dele. Na ocasião ele falou que minha vida não tinha acabado, que nada mudou na vida dele depois da amputação”, ressaltou Joseane ao afirmar que “só quem passa por isso sabe das dificuldade”.
Ainda em processo de adaptação, a cabeleireira conta que o sentimento é de que nada vai dar certo. “São pensamentos negativos, mas não cheguei a entrar em depressão. Não é fácil para mim nem para minha família, que também ainda está se conformando com o que me aconteceu. Encaro numa boa, aceitei muito fácil minha nova condição de vida”, define Joseane ao destacar que após 10 meses do acidente vai começar o processo de fortalecimento da perna para poder usar uma prótese.