Cidades

EM RECUPERAÇÃO

"Sou um milagre", comemora faxineira que tinha 5% de chance de viver após acidente

Mãe de três filhos pede justiça e cobra que culpado pelo acidente seja punido

Redação

01/07/2016 - 16h00

“Eu sou um milagre de Deus!”. Com esta frase a faxineira Simone Maria da Silva, de 29 anos, define o fato de ter sobrevivido ao trágico acidente ocorrido no dia 4 de junho, no cruzamento da Avenida Fábio Zahran com a Avenida das Bandeiras, em Campo Grande, que, não só quase lhe tirou a vida, como até os médicos desacreditavam em sua recuperação e lhe deram apenas 5% de chance de viver. Diante da gravidade do acidente, a família foi chamada para se despedir de Simone no hospital e um padre chegou a dar extrema-unção à mulher (sacramento católico dedicado aos enfermos que é realizado no leito de morte).

Desde sexta-feira (24), quando Simone teve alta médica, o clima da casa de Maria Ramona Ortiz Franco (sogra), de 48 anos, é outro. Ambiente cheio de amigos, parentes e sorrisos distribuídos em todos os rostos que passam por ali, demonstram o alívio de quem passou 10 dias em coma induzido e teve parte de uma das pernas amputada.

De poucas palavras, sentada em uma cadeira de fio na sala, Simone falou com exclusividade ao Portal Correio do Estado, pela primeira vez depois que deixou a Santa Casa de Campo Grande. Em cinquenta minutos de conversa, a auxiliar de limpeza ressaltou o milagre de estar viva, a falta que sentiu dos filhos - um menino de 11 e duas meninas, de 5 e 2 anos - e a dificuldade de aceitar parte da amputação da perna direita.

O mais difícil, durante os 22 dias entre a data do acidente, o coma induzido e o processo de recuperação até a alta hospitalar, foi ficar sem poder ver os três filhos. “Depois que acordei do coma eu só chorava de saudades e vontade de ver as crianças. Até que um dia a psicóloga liberou a visita no hospital e eu pude vê-los”, contou Simone.

Com uma força visível e incompreensível aos olhos de quem está fora do contexto, Simone conta que, hoje, depois de renascida, como ela mesma diz, todos os dias, ao acordar, a primeira coisa que ela faz é agradecer por estar viva. “Eu tive uma segunda chance”, reforça uma mulher de porte físico médio, que tem como passa tempo as redes sociais. "Passo meu tempo conversando com as pessoas e ouvindo música evangélica". 

O DIA DO ACIDENTE

O dia do acidente parece não ter existido para ela, já que não se recorda daquela madrugada de sábado, quando antes do sol nascer já estava na rua, de moto, indo buscar a sogra para cuidar dos netos, enquanto se preparava para fazer uma faxina extra e acrescentar a renda de um salário mínimo, R$ 880, que ela ganhava como auxiliar de limpeza em uma agência bancária da cidade.

Local do acidente. Simone ficou prensada entre o veículo e o muro do estabelecimento - Foto: Álvaro Rezende / Correio do Estado

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O que ninguém imaginava é que, no meio do percurso, os planos da trabalhadora seriam interrompidos. Simone foi atingida por um veículo que transitava em alta velocidade enquanto pilotava a motocicleta Honda CG. Com a força do impacto, a faxineira ficou prensada contra um muro e teve as duas pernas esmagadas e parte de uma teve que ser amputada. Por sorte, um tendão salvou a outra perna e, hoje, Simone usa uma gaiola para colar os ossos e recuperar a perna que lhe restou. 

“Só me lembro de um dia antes do acidente, da sexta-feira, depois disso recordo que acordei no hospital, ainda na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), e perguntei para as enfermeiras aonde eu estava. Foi quando me contaram o que tinha acontecido e me sedaram de novo, pois eu comecei a me debater, fiquei muito agitada”, relatou.

Apesar de não se lembrar de quase nada do período em que esteve em coma induzido, Simone conta que lembra dos banhos na água fria que as enfermeiras lhe davam nos dias de frio e do pesadelo que tinha. "Eu sentia muito frio e muita dor nas pernas. Elas me davam banho gelado e, por conta disso, peguei uma pneumonia. Eu sonhava constantemente que minha cabeça estava presa numa caixa de vidro fechada com cadeados. Eu tentava sair e não conseguia". 

Durante os dias em que permaneceu no hospital, já desentubada, Simone conta que o choque maior foi quando descobriu que havia perdido parte da perna. “As meninas do hospital faziam fisioterapia em mim de costas, então eu não sabia que estava sem o pé direito, porque ainda sinto ele aqui. Fui descobrir a amputação quando trocaram de profissionais. As novas fisioterapeutas não sabiam que eu desconhecia o fato de ter perdido a perna no acidente. Entrei em choque, tiveram que chamar o médico e a psicóloga para conversarem comigo, pois fiquei muito agitada e inconformada”.

Quase um mês após o acidente, a auxiliar de limpeza relata que acorda durante a noite com dor na perna amputada. “Ainda sinto meu pé. Às vezes que acordo chorando a noite e não acredito que perdi o pé. Tenho altos e baixos. Tem dias que estou mais conformada, mas tem dias que choro demais”.

Em agosto, Simone tem retorno no médico e deve tirar o colar servical usado para recuperar lesão na última vértebra da coluna. Diariamente, o sogro a leva ao posto de saúde do Jockey Club para fazer curativo no local da amputação. Diante de tanta despesa, a família teve que fazer empréstimo bancário para arcar com as despesas, que aumentaram desde o acidente.

Por prazo indeterminado, a faxineira está morando na casa da sogra, com o sogro e os três filhos, no Bairro Parati 2, em Campo Grande. Com isso, a despesa da família aumentou, além dos inúmeros remédios e aparatos como faixa e esparadrapos, também ficou mais cara a conta de água, de luz e despesas com alimentação. 

JUSTIÇA

A família agora pede que justiça seja feita e que o condutor responsável pelo acidente, Alisson Moraes Cordeiro, de 32 anos, pague pelo que fez. “Precisamos de fisioterapeuta e psicólogo. Cada sessão custa R$ 80 se a pessoa morar aqui por perto, não temos dinheiro para pagar”, afirmou Ramona ao contar que gastou R$ 200 com o colar servical.

Logo depois do acidente, após audiência de custódia, Alisson pagou fiança no valor de R$ 3.520, foi solto e responde o processo em liberdade, com medidas cautelares. Ele não pode sair da comarca sem autorização, frequentar bares e a cada 30 dias tem que comparecer ao Fórum. Em liberdade provisória, se ele descumprir qualquer regra ou surgirem novos elementos, a medida pode ser revogada.

Indignados e com sentimento de impotência, familiares relatam que, até o momento, o motorista que estava embriagado no dia do acidente e quase tirou a vida da trabalhadora, não procurou a vítima para saber se, ao menos, estão precisando de algo. “Quer dizer que a vida da minha nora vale R$ 3.520?”, questionou a sogra de Simone.

Depois de uma experiência de quase morte, Simone afirma que não imaginava que era tão querida. "Parentes que eu não via há 25 anos vieram me ver, irmão e tios. Estou muito feliz. Apesar de ter perdido uma perna, ainda estou viva!”, com esta frase Simone demonstra a força que carrega e a certeza de que um dia vai voltar a andar. “Meu maior sonho é andar de novo!”.

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