Termina hoje o prazo para a Polícia Civil coletar depoimento do ex-procurador de Justiça aposentado, Carlos Alberto Zeolla, de 51 anos. Preso no dia 24 de junho pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), Zeolla é suspeito de estuprar um adolescente de 13 anos.
Responsável pelo caso, o delegado Mario Donizete, da Delegacia Especial de Proteção a Criança e ao Adolescente (DEPCA) afirma que ainda aguarda autorização judicial para que Zeolla seja levado do Presídio de Trânsito para a delegacia, onde prestará depoimento.
Caso a decisão não saia hoje, o delegado irá finalizar o inquérito e repassar tudo que foi investigado até agora para a Justiça. Dessa forma, o depoimento será feito somente em juízo.
“Já tenho um investigador que está em cima disso para conseguirmos a autorização de ouvi-lo, se não sair, eu finalizo o inquérito”, disse ao Portal Correio do Estado.
A reportagem tentou contato com o advogado que defende o procurador, José Belga Trad, mas não houve retorno até o fechamento desta matéria.
PRISÃO
A prisão foi cumprida pelo Gaeco sob a justificativa de que o mandado havia sido expedido desde 7 de abril e que a polícia demorava para realizar tal tarefa. Por outro lado, a Polícia Civil rebateu dizendo que não foi informada sobre a expedição do mandado e, por isso, não o cumpriu. O fato é que a tentativa de blindar o ex-servidor por parte do Ministério Público Estadual de Mato Grosso do Sul (MPE/MS) tem dado certo. Por outro lado, o órgão judicial entendeu que o homem não tem direito à prisão domiciliar como pedido pela defesa, justamente por estar aposentado.
Zeolla segue no Ptran, na cela de número de 17, dividida com outros 23 detentos. A cela especial impede que ele divida o mesmo espaço com os presos regulares - lá ficaram o empresário João Amorim e o ex-deputado federal Edson Giroto quando presos na Lava Jato.
TENSÃO
Todos os episódios envolvendo a prisão de Zeolla causaram clima de tensão entre as instituições, embora ambas tenham adotado postura diplomática ao tratar sobre assunto. O mandado, expedido no dia 7 de abril pela 7ª Vara Criminal da Capital, foi cumprido em razão da gravidade do crime noticiado e da suposta demora da Polícia Civil em realizar a tarefa, afirmou a promotora de justiça Cristiane Mourão, coordenadora do Gaeco, em recente entrevista ao Correio do Estado. Na ocasião ela ainda negou qualquer tipo de favorecimento.
No entanto, o chefe da DEPCA, Paulo Sérgio Lauretto, rebateu dizendo que depois de ser solicitada a prisão preventiva, a Justiça não retornou o ofício com a decisão. Considerando a grande demanda de ocorrências da unidade, com cerca de mil inquéritos em andamento desde 2011, apurados por apenas três delegados, Lauretto alegou que seria impossível acompanhar diariamente o andamento de todas as decisões judiciais uma a uma e, por esta razão, foi pego de surpresa quando soube da prisão e das alegações do MPE. “Nós enviamos ofício à Justiça e simplesmente não fomos informados sobre a decisão”, declarou.
É justamente este ponto que intriga os delegados. Embora nem Lauretto e nem o delegado Donizete Ferraz de Queiroz Queiroz tenham falado abertamente sobre a conduta do MPE, é visível que isso lhes causou desconforto, principalmente em razão dos procedimentos que a DEPCA teve, e ainda terá, de adotar para dar seguimento ao inquérito. A dúvida é como o Gaeco teve acesso ao mandado e porque decidiu cumpri-lo. Se for mantida a justificativa da demora da Polícia Civil, abriria precedente ao estado para solicitar que o Gaeco auxiliá-se nos cumprimentos de inúmeros outros mandados que seguem em aberto, conforme questionado pelo secretário estadual de justiça e segurança pública José Carlos Barbosa, o Barbosinha. “Por que o Gaeco não os cumprem também?”.
CONDENADO
Em 2009, Zeolla matou a tiros o sobrinho Cláudio Zeolla, no dia 03 de março, na frente de uma academia de musculação frequentada pela vítima na Rua Bahia, na Capital. Naquele mesmo mês, dia 24, ele foi preso, mas ficou apenas três dias em uma delegacia, sendo encaminhado para uma clínica psquiátrica alegando transtorno bipolar. No final daquele ano, conseguiu se aposentar ao longo do processo, antes de ser condenado e perder os benefícios do cargo público. Laudo pericial constatou que o homem, de fato, sofria transtorno bipolar, embora tivesse consciência dos atos.
Em 2011 foi condenado há oito anos de reclusão, como já havia ficado cerca de dois anos e meio na clínica, foi transferido para a Colônia Penal Agroindustrial da Gameleira, onde ficou por alguns meses em regime semiaberto, até se concedida liberdade.
Zeolla. Os encontros aconteciam na Vila Serrana, nesta Capital. Foi descoberto ainda que outros dois meninos, de 10 e 11 anos, também eram violentados e, inclusive, embriagados para realizarem os atos. “A partir destes levantamentos, em março de 2016, pedimos a prisão preventiva do autor à justiça, mas nunca fomos informados sobre a decisão”, completou Queiroz.