Há 4 anos, dois jovens estudantes campo-grandenses foram assassinados por bandidos que queriam lhes roubar o carro para levá-lo para a Bolívia. A mãe de um deles, Ângela Miracema Batista Fernandes, é a entrevistada do Correio do Estado para falar sobre o evento que será promovido hoje, às 9h, para marcar a data e, ainda, contar como ocorreu a fundação da Associação Mães da Fronteira. Ela aborda também temas como reaprender a viver, policiamento, ações para a fronteira, entre outros.
CORREIO PERGUNTA – Você é mãe de um dos acadêmicos assassinados em agosto de 2012, em Campo Grande, por seis pessoas que já foram condenadas e estão presas. Seu filho, Leonardo Batista Fernandes, e o amigo dele, Breno Luigi Silvestrini, foram mortos com requintes de crueldade. Quatro anos se passaram e você e a mãe de Bruno, Lilian Silvestrini, criaram a Associação Mães da Fronteira. O que ela faz?
Ângela Miracema Batista Fernandes – Assim que os meninos foram assassinados, no dia seguinte ao enterro ocorreu uma passeata na cidade, organizada por pessoas que nem nos conheciam. A princípio nós não íamos, mas depois decidimos ir, assim meio sem pensar, ainda estávamos anestesiados. E lá nós sentimos uma grande força e o grande mote da passeata era “Eu não quero ser o próximo”. E aquilo parece que mexeu conosco, pelo fato de que haveriam próximos, e a gente não queria aquilo. E começamos a participar quando outras pessoas faziam passeatas. O meu filho Leonardo e o Breno eram amigos desde a terceira série primária, eles viviam um na casa do outro, eram inseparáveis. Começamos a ser chamadas para entrevistas e a participar de várias delas, nunca nos negamos. E quando paramos para conversar uma com a outra – nós não éramos amigas, nós compartilhávamos dois filhos, mas não éramos amigas íntimas, apenas eles eram – percebemos que tínhamos a mesma certeza no coração, de que no lugar deles tinha ficado uma missão e que aquilo não era para ser uma coisa qualquer. Começamos, então, a refletir, e não nos negávamos a nada, seja entrevista, seja encontro, nunca foi para nós tabu falar sobre a morte deles, sobre os requintes de crueldade, sobre nada. Fomos participando de tudo o que acontecia, e chegou um dado momento que alguém falou para a Raquel Ferraro (União em Defesa das Vítimas de Violência), que ficou nossa amiga: “Essas mães não vão parar, elas estão parecendo as Mães da Praça de Maio!?”. Ela me contou e eu disse que não, não íamos parar, disse que nós somos as Mães da Fronteira. E aquilo saiu e soou bem, porque mãe dá aquela coisa de acolhimento, e era esta a sensação que nós tínhamos em nossa missão, de que outras mães não passassem por isso e era isso que nós esperávamos de nossa nação, uma nação que protegesse seus filhos, que tivesse mais carinho e mais cuidado com seus filhos do que com os vizinhos. O mote da Associação Mães da Fronteira é o acolhimento e o cuidado com a nossa fronteira, com a segurança. Uma luta para que as famílias fiquem mais protegidas do tráfico internacional. Uma luta para que o nosso governo tenha uma política externa com nossos vizinhos, e que exija mais respeito. Não queremos construir um muro na fronteira. Queremos políticas de fronteira que propiciem aos nossos irmãos, vizinhos, condições de sobrevivência, que eles tenham outras atividades que não sejam o cultivo de maconha e o processamento de cocaína. Políticas para que eles possam se desenvolver com dignidade e segurança.
Como você avalia a situação de descaso e policiamento, principalmente na fronteira?
Para nós, em última instância, os assassinos de nossos filhos são o descaso do governo brasileiro com esta fronteira, o tráfico internacional de drogas e o governo boliviano que propicia a regularização de carros roubados. Estas pessoas foram presas e condenadas, ainda bem, bom para elas, que poderão refazer as suas vidas repensando. Elas continuam presas – eu não fico acompanhando. Mas para nós isso muda pouco, porque novos casos aconteceram e acontecerão. Porque nada foi mudado na fronteira. Para nós, os assassinos de nossos filhos estarem presos é muito pouco. O nosso sentimento não se esgota na morte de nossos filhos, se esgota à medida que alguma coisa seja feita para que novas vítimas não sofram o que os meninos sofreram. Para nós ficou este sentimento, esta certeza de que “epa, espere aí, vamos mudar isso?”. Nossos filhos já se foram, mas vai continuar tudo isso, até quando?
Hoje haverá programação para marcar a data da perda dos dois jovens. O que será feito?
A partir das 9h, no Bosque da Paz Breno e Leonardo, na Rua Folhagens, entre as ruas Mário de Andrade e Kame Takaiassu, no Bairro Carandá Bosque I, em Campo Grande, haverá missa campal e o lançamento da Feira Amigos da Fronteira, prevista para terminar às 17h. É uma feira nos moldes da que acontece na Praça da Bolívia. Um evento “irmão” deste. E, coincidentemente, percebo que nosso problema é com a Bolívia. Na verdade, nós não temos problemas com os bolivianos, temos um amor grande por nossos vizinhos. Nosso problema é com os governantes que regularizam carros roubados. Vamos abrir a feira e descerrar a placa com a logomarca da Feira Amigos da Fronteira. O evento reunirá artesanato, arte, vários artistas farão arte ao vivo, gastronomia variada (doces e salgados), o núcleo indígena fará artesanatos e produções e haverá atrações musicais e danças. Todos são voluntários.
Como é o trabalho da Associação?
Nosso trabalho é político, não partidário. Nós não temos ainda uma sede e pretendemos que isso ocorra em breve. Nós já estivemos em Brasília levando sugestões e cobranças ao presidente da República em exercício, ao Ministro da Justiça, presidentes da Câmara e do Senado.
E há contato entre vocês e as mães que, porventura, passaram pelo mesmo problema?
Sempre que acontece um crime nós vamos até a pessoa, prestamos nossa solidariedade, nosso carinho. É a única coisa que nós temos, porque não temos condições de dar assistência jurídica nem social. Nossa ambição é, um dia, chegar a isso.
Vocês criaram o Bosque da Paz Breno e Leonardo. Onde ele fica e o que vocês pretendem fazer nesse espaço?
O Bosque da Paz aconteceu a partir da ideia de uma amiga. Ela aventou a possibilidade de se ter um espaço onde as pessoas pudessem se reunir, clamar pela paz, chamar as pessoas para imbuí-las deste sentimento e a gente foi procurar um lugar que não tivesse o nome de alguém. Para nossa surpresa, o antigo Bosque do Carandá não tinha nenhuma denominação e é justamente um local que os meninos frequentavam, iam passear com o cachorro, tomar tereré, eles gostavam muito dali. Nós procuramos a Câmara Municipal, eles encamparam a ideia e denominaram o bosque desta maneira. Mas nós tivemos a incumbência de transformar aquele lugar em um local apropriado, para que o cidadão usufruísse. Por enquanto, só temos ali a beleza natural, mas está sendo feito um projeto pelo coordenador do curso de Arquitetura da Universidade Federal de MS para que se transforme em um bosque modelo, que tenha várias atividades, que seja tudo sustentável, voltado para a paz e tranquilidade. Assim que estiver pronto, nós buscaremos recursos, preferencialmente da iniciativa privada, para reformularmos o bosque, preservando tudo o que ele já tem de natureza.
Nada justifica a morte de dois jovens, também não é preciso explicar o que vocês sentiram com tudo isso. Mas o que mudou na vida das duas famílias, após o episódio? Vocês tiveram de reaprender a viver?
Certamente. Você reformula todos os seus conceitos, reaprende tudo, nada mais faz sentido. Só quem vive a situação é capaz de compreender a profundidade do que é isso, o abismo em que você cai. Eu sou muito grata, porque tenho a impressão de que todos os amigos que fiz ao longo da minha vida, todas as pessoas que me ajudaram, que me instruíram no meu caminho, me prepararam para aquele momento. Eu me sinto muito grata porque, embora tenha sofrido muito, e sofro ainda muito, considero que tinha um certo preparo espiritual para o que aconteceu. Eu refiz, reformulei minha vida inteira, porque nada mais daquilo fazia sentido nem tinha coerência.
Você rumou para as artes plásticas, criou a Associação Mães da Fronteira...
Sim. Na verdade, as artes plásticas sempre estiveram em mim, mas eu priorizava outras coisas. Eu fiz um trabalho, chamado “It’s now or never”, que doei ao Marco (Museu de Arte Contemporânea) quando realizei minha exposição lá. Eu fiquei a minha vida inteira para fazer isso, e aí chegou o momento em que você se questiona e pergunta até quando você vai esperar. Mas tudo, tudo é um caminho que você tem de percorrer, isso é fundamental. Sempre quando olho para trás, percebo que todos os caminhos que eu percorri foram os caminhos necessários para me dar os instrumentos para eu fazer aquilo que é preciso fazer em determinados momentos.
Quais apoios se busca em uma hora dessas e que, de alguma forma, ajudam a minimizar a situação?
Olha, o conhecimento espiritual é fundamental. Eu sou espírita e esta foi a certeza de que, de todos os conhecimentos teóricos que eu adquiri na minha vida, este foi o exame final, você é colocada à prova: vamos ver se aprendeu mesmo. E graças a Deus eu não tive dúvidas de tudo o que eu tinha aprendido. Outra coisa muito importante é que eu já fazia terapia, análise, eu já vinha inserida em um processo terapêutico e isso me ajudou muito a separar as coisas. Eu passei por um período até que eu sofria por sofrer, eu pensava assim: mas você não sabe que está tudo certo, que está tudo bem, que esta vida não se encerra aqui, então por que sofre tanto assim? A terapia me ajudou muito a compreender. E a carne, o ser humano, ele precisa passar por essas etapas, é uma consequência natural do viver.
As duas famílias receberam algum apoio público psicossocial na época?
Não. Na verdade, até acontecer o fato, eu nunca tinha visto no Estado uma movimentação dessas, tanto da comunidade quanto das polícias. Foi uma movimentação tão grande! Porque os meninos eram amigos do filho de um delegado da polícia civil, ou, então, parente do parente do parente de um delgado e de outros. Eu sei que todas as polícias se envolveram de verdade, foi muito curioso. Quando nós fizemos uma audiência na OAB logo após o acontecido, foi até engraçado, porque um dos chefes de uma destas polícias foi ao microfone falar e, chorando, pediu desculpas por não ter podido trazer os meninos vivos. E quando eu peguei a palavra, disse que ele não deveria pedir desculpas, porque tinha cumprido a missão dele, nós conseguimos enterrar nossos filhos com dignidade, não havia mais nada que ele pudesse fazer. Dentro do possível, naquele momento, todos fizeram o que era possível, deram o seu melhor. E não porque ia dar ibope, fizeram de coração. Houve uma união muito grande. E isso é o que nos faz ter a certeza de que nós temos de agir, é uma comoção muito grande, que a gente nunca viu.
Vocês levantaram todas estas bandeiras em relação à fronteira, aos problemas sociais e à polícia ser mais enérgica. Alguma coisa mudou de lá pra cá, com a atuação da Associação Mães da Fronteira?
A gente percebe que houve aceleração na implantação do Sisfron (Sistema de Monitoramento da Fronteira), e sabemos que temos nossa cota de participação nisso. A ideia é que ele demorasse uns 10 anos para começar a ser implantado, mas foi antes. E para nós, cada policial é um filho nosso. Nós temos um carinho muito grande por eles, porque cada policial que está nas estradas está tentando trabalhar. Eles vivem um sério problema de falta de gente, falta de gasolina, falta de viaturas. Mas o policial, a pessoa que assume aquele caso, está dando o seu melhor, está oferecendo sua vida ali. A gente sempre luta, sempre batalha por eles. Tudo o que eles nos pedem nós procuramos interceder a favor, porque eles estão arriscando a vida deles por nós e não têm condições nenhuma. A maioria trabalha com colete à prova de balas que não é certificado ou está até mesmo vencido, e muitas vezes sem munição, são pouquíssimas viaturas para cuidar da cidade inteira. De um limão, eles fazem uma limonada. A vontade de fazer é grande.