Cidades

Entrevista

"Hoje, eleitor precisa pensar no que é melhor para a cidade e não para si"

Paulo Eduardo Cabral é sociólogo e professor

Redação

30/10/2016 - 04h00

Sociólogo e professor, com atuação em escola estadual e universidade, Paulo Eduardo Cabral analisa os impactos vividos pela sociedade brasileira em função da crise atual no Brasil. Para ele, o País está passando por um quadro de anomia, ou seja, uma crise de valores. Aqui, ele também aborda temas como habitação, o papel atual exercido pela juventude e o que o eleitor precisa levar em consideração na hora do voto.

CORREIO PERGUNTA - Gostaria que o senhor analisasse qual impacto social a crise política e econômica tem sobre a população brasileira neste momento.
PEDRO EDUARDO CABRAL -
Eu acho que os impactos são de várias ordens. Se a gente pensar no aspecto econômico, o crescimento do desemprego leva a um processo de pauperização e isso pode ser especialmente complicado quando a gente pensa que a partir dos governos do PT houve uma ascensão social, muitas pessoas deixaram o extrato da miséria, muitas pessoas saíram da pobreza para uma classe média-baixa, outros de classe média-baixa para média-média, enfim. Há um processo de ascensão e aí esta crise no emprego tende a impactar este processo de mobilidade que foi ascendente, e a partir do que temos e do que se avizinha deveremos ter o movimento inverso, descendente. Teremos um movimento de decréscimo de prestígio, de posição social, o processo de pauperização. Esta crise também traz impacto forte para a crença das pessoas. Podemos afirmar que estamos vivendo, ou melhor, que as revelações feitas pelas investigações policiais não só da Lava-Jato mas principalmente as dela, nos levam a configurar um quadro de anomia, de crise de valores. Acreditar em quem, quando políticos de todos os partidos estão envolvidos, em maior ou menor grau, nesta rede de corrupção que se revela sistêmica, estrutural? Então, o episódio da corrupção não é uma coisa fortuita, não é um episódio. Ela é uma praxis instalada dentro da máquina do Estado, em todos os níveis de Governo, em todos os poderes. 

O senhor acha, então, que será difícil mudar essa sensação de desânimo e descrença que o brasileiro vem mostrando em relação à política do País?
Conforme eu estava dizendo, há esta constatação de um sistema que demonstra aquilo que o sociólogo (Émile) Durkheim definiu como anomia, que é a crise de valores de uma sociedade. Eu penso que nós estamos atravessando claramente um quadro de anomia. E, obviamente, que dentro desta crise de valores tão profunda e acentuada, é razoável, é esperado que as pessoas se tornem céticas, que elas descreiam das instituições, das lideranças. Enfim, a descrença ganha um terreno muito grande! O que é, aliás, muito arriscado, porque é neste caos de cultura que se abre espaço para o surgimento de salvadores da Pátria. De todo modo, eu acredito que , por mais terríveis que sejam os desdobramentos e as verdades que nos estão sendo trazidas, acaba sendo um processo de purgação das impurezas. Acredito que pode acontecer de, em algum momento, se ver revertido este quadro de desesperança e de desencantamento. Mesmo porque, fora da ação política não há muita saída. Numa sociedade complexa como a nossa, você só vai poder lidar com todos os conflitos em suas múltiplas manifestações pela via política. 

O número de favelas e pedintes aumentou em Campo Grande. Podemos dizer que este é um sinal relevante de que a coisa vai muito mal no Brasil?
Não sei, porque esta visibilidade do pedinte...Normalmente, quando eu noto esta presença, especialmente na área central, ela tem mais a ver com uma chaga contemporânea - cujo enfrentamento não se fez e não se faz - que é a da dependência química. Nós temos, perambulando pelas cidades, os dependentes químicos na sua grande maioria. Agora, claro que não é toda população de rua que é dependente química, há um segmento que vive na rua. As favelas, você tem deficit habitacional importante em Campo Grande e, à medida que este deficit existe, os alugueis são mais caros. O poder público, nos últimos anos, não tem ofertado - nem do Estado e nem do município - habitação popular; sabia-se que muitas vezes a habitação popular era drenada não para os que realmente necessitavam, mas para os que eram apaniguados - e isso tudo traz distorções. Quando aumenta o número de favelas, de pessoas com habitações precárias, isso reflete uma dificuldade para compor o orçamento. A favela, longe de ser um problema como muitos enxergam, é uma solução habitacional para quem não tem como pagar um aluguel, não tem como adquirir uma casa própria. Ele precisa buscar uma alternativa e, mesmo assim, uma favela também tem um custo, não é gratuita como no passado. De todo modo é um indicador da crise. 

O projeto de reforma trabalhista sinalizado pelo atual governo brasileiro, em sua opinião, é uma imposição dos interesses financeiros que comandam a economia do País? 
Sem dúvida, aliás, me aborrece um bocado a insistência com que a mídia joga a justificativa da PEC 241, reforma da Previdência e todas as demais medidas para a “retomada do controle da economia...”. Ninguém fala, por exemplo, na taxação das grandes fortunas, cujo imposto já está criado desde 1988. Já são quase 30 anos  que a Constituição foi promulgada, o imposto criado e que não se regulamentou. E não regulamentou por que? Porque as grandes fortunas têm suas bancadas no Congresso Nacional e não lhes interessa pagar imposto. O setor que mais ganha neste País é o financeiro, os bancos têm lucros extraordinários, seja qual for a conjuntura, seja qual for o grupo político no poder. Seja PSDB, seja PT, os bancos vão muito bem obrigado, sempre. Qual é a taxação sobre estes ganhos que os bancos têm e não produzem nada? Sim, porque o capital financeiro não produz, ele só intermedia recursos. É o setor produtivo que gera riquezas e não o financeiro, entretanto ele não é taxado. Se queremos mudança, por que é que não se começa a mudar realmente? Vamos taxar os muito ricos primeiro, antes de jogar no lombo da classe média e da classe trabalhadora! Assim, eu acho que que a resposta está dada  e que a mídia tem que estar atenta de não comprar como uma fatalidade, como única alternativa possível, a redução de direitos sociais.

Podemos dizer que a juventude ainda não despertou para a política com a crise? Ou há avanços? 
Se a gente pensar, por exemplo, a quantidade de escolas ocupadas contra a PEC 241 e a medida provisória do Ensino Médio, quando a gente pensa a ocupação que houve em São Paulo, no ano passado, em que o governador Geraldo Alckmin pretendia fechar algumas escolas, algumas delas até tradicionais...E por que ele queria fazer isso? Porque elas estão em regiões hiper valorizadas da cidade de São Paulo. E, segundo consta, havia o projeto de o Estado vender estas escolas para que incorporadoras as demolissem para fazer empreendimentos. Ora, a meninada foi para a rua e parou São Paulo!  A juventude está retomando de uma forma bastante vigorosa, eu diria. Os estudantes que historicamente tiveram papel de destaque estão retomando de uma maneira até consequente porque, por exemplo, nas ocupações de São Paulo, tinham um esquema de cooperativa, mantinham as escolas limpas, não depredaram o patrimônio. Me parece que a juventude está dizendo “olha, nós não estamos concordando com isso, nós queremos voz e vez”. E isso é auspicioso, porque durante décadas a juventude ficou calada, meio que alienada. 

Hoje o eleitor volta às urnas para cumprir a votação do segundo turno. O que dificulta a tarefa do eleitor para fazer sua escolha de modo consciente e cuidadosa? 
Eu tenho levantado uma questão que me parecesse importantíssima e que não se pauta: os partidos políticos. Eles hoje são instâncias quase que ficcionais. Quando você pega o partido político, ele funciona basicamente como uma possibilidade de aparelhamento de lideranças individuais. O partido não tem ideologia, o partido não tem programa, não tem doutrina, não tem princípio, não tem absolutamente nada. E se você fizer a leitura dos papéis que eles são obrigados a produzir, a diferença de um para outro é praticamente inexistente.

Por isso que a grande maioria vota mais em pessoas do que em partidos?
Eu acho que aqui no Brasil, de uma certa maneira, esta sempre foi a tradição. Até por conta de nossa tradição política, histórica. A grande figura política no passado mais remoto era o senhor do engenho, era o coronel, senhor da vontade de todos. Daí, nos séculos 19 e 20 a gente tem a figura do coronel no sistema coronelista. Nossa prática sempre foi muito mais votar em nomes do que em ideias, do que em propostas. E isso hoje se reforça de uma maneira absoluta. Me aborrece muito quando as pessoas falam “o povo que é responsável porque é o povo que elege”. De fato, é o povo que elege , só que ele elege quem? Aquelas figuras que foram filtradas pelo partido político. Não é o povo que, por autorrecreação,  estabelece quem serão os candidatos. E nós sabemos que as candidaturas obedecem um ritual que passa pelos crivos dos caciques, dos donos dos partidos. Além desta questão, você tem a total falta de compromisso do partido para com os candidatos. Isso tem que mudar! É uma forma de a gente começar a penalizar também o partido, ele tem que perder a cadeira porque aí, quem sabe, ele cuidará melhor das candidaturas. Quanto ao eleitor, ele precisa pensar, no caso desta eleição, hoje, o que é o melhor para a cidade, e não para si. Talvez para si ele não vá ganhar tanto, mas se o candidato A ou B for, no seu entendimento, a melhor alternativa para a cidade, ele precisa fazer com que seu voto recaia para isso. Eu, particularmente, entendo que a democracia não foi uma dádiva. Para nós termos democracia, houve muita luta, houve sangue de muita gente, houve sacrifícios imensos. Precisamos presar esta democracia, por isso, eu não anulo voto e pretendo nunca anular, porque preso esta democracia que temos. Imperfeitíssima, muito ruim, muito aprimorada e para isso seria preciso uma Constituinte exclusiva para a reforma política. Precisamos fortalecer a democracia, por mais imperfeita que ela seja. Ela é, sempre, extremamente superior a qualquer ditadura. E tem sido complicado, já há algumas eleições, escolher o menos ruim. Mas a política não é o ideal, é o possível. Então, dentro do possível que se apresenta, tenho que buscar construir o menos ruim ou o melhor.

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