Eleito reitor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) para os próximos quatro anos - e empossado no último dia 8 - Marcelo Augusto dos Santos Turine já está em fase de implantação de várias mudanças para atingir seus objetivos. A primeria de4la foi um choque de gestão, com a definição da equipe e estruturação do que está por vir. Nesta entrevista exclusiva ao Correio do Estado , ele fala sobre projetos, adequação a orçamento, atenção especial aos estudantes e seus anseios e da necessidade de integrar escola e comunidade, entre outros assuntos.
CORREIO PERGUNTA
O senhor tomou posse como reitor da principal universidade pública de Mato Grosso do Sul, a UFMS. De que forma pretende gerir seu mandato? Quais serão as primeiras ações e desafios a vencer?
MARCELO AUGUSTO DOS SANTOS TURINE - O desafio é a motivação principal para entrar neste processo, pela paixão que a gente tem na educação, na ciência e tecnologia, na inovação. A educação é transformação, é uma estratégia de transformação da vida de nossos jovens. É por isso que tomamos a decisão de ter o desafio de cuidar da UFMS, de colocar esta universidade na rota do desenvolvimento de MS e do Brasil. O desafio principal é trabalhar com a comunidade da UFMS. É a maior universidade, temos múltiplos campus em 11 municípios. Temos que trabalhar com muito diálogo, transparência, humildade e responsabilidade. Isso faz com que a gente consiga agregar e integrar a comunidade da UFMS - professores, estudantes e técnicos - com a sociedade e com os governos estadual e municipal.
Qual a primeira providência tomou ao ser empossado?
São várias ações. A primeira foi montar um time que eu tenha confiança, porque a gestão compartilhada não se faz apenas com uma reitoria. Nós estamos com sete pró-reitorias, temos a ouvidoria... O primeiro desafio foi montar este time. O segundo, a mudança da cultura que nós estamos colocando na universidade: uma cultura de diálogo, de conversação, de transparência, e, de alguma forma, de gestão eficiente. Estamos divulgando esta ação internamente para conscientizar o processo. Outra ação emergencial é que. no último dia 10 foi o último prazo para fazer empenho dos recursos e enviar para o MEC. Uma correria.
Para fazer investimentos é necessário trabalhar dentro do orçamento. Qual é o valor para 2017 e como pretende trabalhar com ele? O investimento será focado em quais áreas e em quais campus?
Uma das primeiras iniciativas que tomamos no primeiro dia de gestão foi criar uma assessoria específica de assuntos estudantis; uma assessoria para cuidar, escutar e ouvir, junto com os nossos jovens, as necessidades deles. Porque nós só existimos porque existem nossos alunos, nossos grandes protagonistas são os nossos jovens. Eles têm que ter uma atenção especial para isso. Neste processo teremos uma revisão administrativa da universidade, esperamos que, até fevereiro, o Conselho Universitário aprove esta revisão administrativa para a gente ter uma pró-reitoia específica de assusntos estudantis. O orçamento de 2017 foi mandado para a gestão anterior e é de R$ 677 milhões. O que é importante colocar para os nossos colaboradores é que 77% deste valor é para a folha de pessoal. Para investimento universitário teremos 20% destes recursos, que engloba o custeio - terceirizados, segurança, os contratos administrativos...
E como o senhor pretende administrar este orçamento, já pensou nisso?
Nós estamos com um time muito bom, uma gestão inovadora. Gostaríamos de uma universidade empreendedora, com uma boa qualidade de gestão. Eu sempre falo a todos que nós não podemos brincar de fazer gestão. Gestão pública tem que ser eficiente e não se pode olhar para os interesses pessoais. Tem que haver combate à corrupção em qualquer tipo de demanda que existir. A primeira ação é um choque de gestão. Não podemos criar nada neste momento. Esta pró-reitoria vai entrar em substituição a uma outra pró-reitoria, vamos economizar, enxugar a atividade meio e fortalecer a atividade fim da universidade, que é o ensino de graduação e pós-graduação. Quer dizer, são os nossos alunos, nossos estudantes. Em relação a este orçamento, para podermos acompanhar o ano que vem, houve, de alguma forma, uma redução no orçamento de 2017 em torno, mais ou menos, de investimento capital – equipamentos, obras – em torno de 50%. Isso em relação a 2016. Em custeio, em torno de 6% de redução em relação ao mesmo ano. Então, em média, o investimento teve em torno de 15% de decréscimo em relação a 2016. Para conseguir acompanhar o crescimento da universidade tivemos que fazer um choque de gestão. Teremos que analisar todos os contratos, todas as obras que a universidade está fazendo. Na UFMS, os processos ainda não são digitais, é tudo no físico. Semana que vem estaremos assinando convênio com o Ministério do Planejamento junto com o Tribunal Regional Federal da quarta região para implantar na UFMS, em torno de seis meses, todo mapeamento e acompanhamento e um sistema eletrônico de processos. Haverá choque de gestão, com revisão dos contratos para usar os recursos públicos e conseguirmos, de alguma forma, manter a qualidade que nós temos de 2016 e fazer mais coisas com menos.
O campus da UFMS em Campo Grande está com várias obras. Há necessidade de tantos prédios? Por que? O número de alunos aumentou?
A questão das obras foi algo no campo ministerial, um programa do Ministério da Educação, porque houve incentivo muito grande para a ampliação das obras nos últimos 10 anos. Nós tínhamos algumas estruturas que não acompanhavam, não eram tão modernas para acompanhar a expansão dos cursos - é o caso do laboratórios de pesquisa. A UFMS conseguiu grandes projetos, conseguiu fazer muitas obras. Várias foram finalizadas e até setembro do ano que vem pretendemos finalizar todas as obras, já que o dinheiro está praticamente todo empenhado. Pela proposta nossa e pela análise que iniciamos até esta semana, não haverá descontinuidade para finalizar as obras porque o recurso já está empenhado.
Isso não descaracterizou o campus, sempre conhecido pela natureza exuberante?
Este campus foi, é e vai continuar sendo o campus da biodiversidade, natureza...É importante integrar o meio ambiente com a ciência e com a sociedade. A proposta é que a gente consiga transformar a UFMS num espaço aberto, de vivência estudantil e da comunidade. O Morenão é um desafio. Estamnos viabilizando com o Governo do Estado para podermos abrir o estádio ano que vem para os Jogos Estaduais. Queremos fazer este movimento dentro da universidade, de espaço físico. É manter a biodiversidade, a natureza, a riqueza que nós temos aqui, incrementá-la. E um ponto importante é investir num plano diretor da UFMS, porque hoje isso não existe. Existe plano dirretor de pequenas unidades, mas não do campus Campo Grande . Temos que fazer isso para poder manter esta diversidade. Não queremos construir novos prédios, queremos verticalizar algumas unidades para que a gente consiga manter isso. Temos que criar a carona amiga, outros instrumentos e ferramentas para termos maior mobilidade e integrar isso com a malha rodoviária. A questão da segurança foi um dos pontos principais de nossa campanha. A demanda maior dos nossos jovens e professores, não em relação só ao patrimônio, mas em relação à riqueza das pessoas. Nós temos muitos pesquisadores aqui que são únicos no Brasil; temos jovens que vivem nas universidades. A gente tem que proteger, dar segurança para estas pessoas. Estamos aumentando o número de vigilantes e a capacitação deles. Já conversei com o Secretário de Segurança Pública do Estado para colocar policiamento nas saídas e entradas. Queremos também melhorar a iluminação.
O senhor foi diretor-presidente da Fundect - Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul durante 6 anos. De que forma pretende fomentar a área de pesquisa na universidade, além da pós-graduação e doutorado?
Eu falo que a ciência é o que move as transformações do ponto de vista do desenvolvimento do Estado e do Brasil. Quem não investe em ciência, não investe em inovação, não consegue ganhar competitividade. Eu tenho esta experiência durante nove anos na Fundação. Tenho articulação muito grande com os órgãos de fomento nacional, em MS com as federações, e em nível nacional com várias empresas que querem financiar projetos no Brasil. O que nós vamos colocar aqui é este legado, com todo este conhecimento de vida, de gestão com a ciência e tecnologia em prol do desenvolvimnento da UFMS. E para isso vamos criar uma Agência de Desenvolvimento de Internacionalização, vinculada à administração, para potencializar as parcerias nacionais e internacionais com empresas, governo municipal, governo estadual - para que a gente consiga canalizar e dar prioridade em ações estratégicas para Mato Grosso do Sul.
Como pretende envolver a comunidade com a universidade? Haverá novos cursos de extensão para quem não é acadêmico?
Eu fiquei como coordenador de extensão de 2004 a 2007. Eu amo esta coisa de extensão, do extra muro da universidade, da integração da UFMS com a nossa sociedade. Não existe universidade se não existir a missão social, se não existirem nossos jovens e se não existir o território no qual as universidades estão cercadas, tanto aqui em Campo Grande quanto nos demais 10 municípios. Nós temos que fazer, desenvolver ações junto com a sociedade local. E a extensão é o canal onde a gente tem que desenvolver isso. Tanto a extensão quanto a área de especialização, com cursos de capacitação, formação de gestores e assim por diante. Nossa proposta é, dentro da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura fazer um resdesenho para criar uma Escola de Extensão, uma escola de especialização. Temos que interferir no crescimento da comunidade.
O Hospital Universitário (HU), ligado à UFMS, está deficitário. O senhor acha que os estudantes de Medicina estão sendo bem preparados nesta conjuntura do HU?
O HU é da UFMS, está vinculado a ela, e o que aconteceu em 2013 foi a questão da gestão, que passou para uma empresa pública, a Ebserh - Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. A gestão administrativa e financeira não é mais hoje vinculada com o orçamento da UFMS. Este orçamento de 2017, de R$ 677 milhões, é para custeio da universidade. Nós estamos fazendo uma gestão compartilhada com o HU, tem muitas ações que nossos jovens, nossos estudantes têm que utilizar o HU, as residências médicas todas são feitas neste hospital. Mas o diagnóstico relatado é que nossos alunos não estão saindo com as condições ideais de formação profissional porque muitas vezes faltam alguns investimentos nos laboratórios, na clínica, para que eles consigam ter uma formação completa. Mas eu já disse que a liderança do reitor é importantíssima dentro do contexto estadual, regional. Eu vou liderar junto com a nossa presidente , com a prefeitura e com o novo gestor que entrará em janeiro. Temos relação muito boa com o secretário de Estado da Saúde, o Nelson Tavares, professor da UFMS; junto com o Estado, com o município, e junto com a superintendente e a reitoria vamos fazer a vinculação, via Ministério Nacional, para haver mais investimentos na questão de infraestrutura do hospital, para adequar o custeio de coisas básicas. A área de saúde é um desafio nacional, mas enfrrentaremos com muita coragem e muita liderança para conseguir que o HU retome o seu papel de prestação de serviço na área de saúde de MS.
A UFMS está se preparando para uma eventual ocupação no campus Campo Grande pelos estudantes contra a reforma do ensino e a PEC dos Gastos?
No fundo é um movimento nacional, existem várias universidades com ocupações. A UFMS tem um campus em Três Lagoas que está com ocupação. Esta questão desta liberdade de expressão, esta liberdade de se manifestar, de mobilizações é muito importante, é legítimo. O que temos que tomar cuidado é que a gente não pode proibir das pessoas se manifestarem, é um espaço público, é um bem público. A riqueza disso quem financia é a sociedade e, então, temos que ter esta coragem, eu como reitor - de cuidar, zelar pelo patrimônio da universidade e das pessoas que queiram estudar, pesquisar. Hoje eu compelto cinco dias de gestão. Tem movimentos de ocupação e o que a gente quer fazer é dialogar, conversar com estes movimentos e ver os limites que a gente pode, de alguma forma, ajudar para defender este patrimônio riquíssimo que é a nossa UFMS.