Fundada no século passado, em 1917, a Santa Casa de Misericórdia de Campo Grande, localizada inicialmente na Avenida Mato Grosso, teve sete figuras importantes para a construção do hospital, que foi erguido para atender as necessidades da população local, que até então era de oito mil moradores, mas que não parava de crescer.
Prestes a completar 100 anos de fundação, o maior hospital de Mato Grosso do Sul coleciona em todos estes anos histórias interessantes e que, com o passar dos tempos, acabou caindo no esquecimento.
Em agosto de 1917, sete homens influentes e de alto poder aquisitivo resolveram se unir e formaram uma comissão com o objetivo de angariar fundos, na época chamado de “esmola”, para construir o primeiro hospital da Capital.
Eduardo Santos Pereira, Augusto Silva, Otaviano de Mello, Bernardo Franco Baís, Benjamin Corrêa da Costa, Enoch Vieira de Almeida e o capitão médico Eusébio Teixeira montaram um livro onde cada pessoa assinava o nome e a quantia a ser doada.
A lista de doadores era encabeça pelos seguintes dizeres: “Lista destinada à inscrição das pessoas que contribuem, dando uma esmola, para a criação da Santa Casa de misericórdia de Campo Grande, refúgio, em breve tempo, dos doentes pobres e desvalidos”.
Ao todo foram coletadas 178 assinaturas. As doações variam de 5$000 (cinco mil réis) a 500$000 (quinhentos mil réis) e totalizaram 27.080$000 (vinte e sete contos e oitenta mil réis). Em 3 de junho de 1919, grupo de líderes se uniram e formaram a “Sociedade Beneficente de Campo Grande”, que passaria a ser mantenedora do hospital, sendo Eusébio Teixeira presidente e Bernardo Franco Baís, vice. Objetivo era dar continuidade ao trabalho de arrecadação de verbas junto à população, que havia sido iniciado em 1917 pelos precursores da ideia.
Com 750 leitos, em 1976, novo prédio do hospital começa a ser construídoEm 1976, com Arthur D´Avila a frente da diretoria da Sociedade Beneficente de Campo Grande, alta demanda de pacientes fez com que um grupo de pessoas pensassem em ampliar a unidade. Porém, a ideia do presidente era de construir novo bloco com 700 leitos. Após a ideia ter sido aprovada pelos demais integrantes, D´Avila encomenda no escritório de arquitetura de Celso Costa, Eudes Costa, Miguel Pozo e Eduardo Fachini, o projeto arquitetônico com 750 leitos com alas de enfermarias de três leitos e apartamentos, além de radiologia, laboratórios, bancos de sangue e demais serviços.
Na época, a Caixa Econômica Federal (CEF) concedeu o maior financiamento da época ao Fundo de Apoio Social, no valor de 147 milhões de cruzeiros. Em 6 de julho de 1977, 18 meses depois, o contrato foi assinado. O montante deveria ser pago em 15 anos, com término em 1992, porém, foi liquidado dois anos antes, em 6 de julho de 1990, na gestão de Renato Alves Ribeiro.
O grande prédio de 33 mil metros quadrados erguido pela construtora local Construmat Ltda foi chamado de “Catedral do Humanismo”.
Aos 76 anos, Heitor Rodrigues Freire, diretor secretário da Santa Casa é um dos arquivos vivos na história da construção do maior hospital do Estado. “Essa é uma construção de gigantes. Fomos construindo tijolo a tijolo”, destaca Freire, que há 23 anos é associado da mantenedora e coleciona inúmeras histórias desde a fundação até os dias de hoje.
VISITA ILUSTRE
Albert Sabin, médico e pesquisador avaliou a Santa Casa como hospital mais bonito do BrasilEm 31 de julho de 1980, com a obra em fase de acabamento, D´Avila recebe o renomado médico Albert Sabin - pesquisador médico, sendo mais conhecido por ter desenvolvido a vacina oral, a famosa "gotinha" para a poliomielite -, que, de passagem pela região, quis conhecer o hospital. Durante a visita, a esposa de Sabin, a brasileira Heloisa Dushee Abrantes, se dirige a D´Avila e diz: Albert está dizendo que seu hospital é mais bonito que os do Rio de Janeiro. E ele responde: “Dona Heloisa, agradeça ao professor o elogio e que ele leve a certeza que não contaremos nada aos cariocas”, fazendo os presentes caírem na risada.
Ao visualizar a imponência externa da obra, pela Rua 13 de Maio, o pesquisador refaz o comentário, que é traduzido mais uma vez pela esposa: “Dr. D´Avila, Albert está dizendo que o seu hospital é, de fato, o mais bonito dentre todos que ele conheceu no Brasil”. O comentário vazou e foi matéria nos diversos veículos de comunicação da época.
No dia 7 de outubro daquele ano, sem festa, sem placa ou qualquer tipo de comemoração, apenas com a missa do Arcebispo Don Antonio Barbosa, as novas instalações começaram a ser ocupadas pelos 400 pacientes do antigo pavilhão. Na ocasião, aquele era o quarto maior hospital do País.
Em 12 de fevereiro de 1981, o então governador de Mato Grosso do Sul, Pedro Pedrossian, na presença do presidente do Brasil, João Batista Figueiredo, inaugurou a unidade com uma placa em homenagem.
João Batista Figueiredo, inaugurou a unidade com uma placa em homenagemEm 1990 a Santa Casa passou por grave crise financeira durante a gestão de Félix Balaniuc, onde o endividamento da unidade superou os três bilhões de cruzeiros. Com hospital lotado e farmácias e dispensas vazias, além da cobrança de fornecedores, foi decidido que os pacientes deveriam ter alta e o local ser evacuado, exceto casos graves e UTI.
Naquela noite, Pedrossian comunicou que no dia seguinte entregaria ao hospital cheque no valor de três bilhões de cruzeiros.
DIFICULDADES
Atualmente o maior hospital do Estado enfrenta constantes crises financeiras por causa da briga entre Estado e município quanto ao valor de repasses que sempre é insuficiente para arcar com as despesas da unidade que atende não só a Capital, mas também dezenas de outros municípios.
Incontáveis vezes cirurgias eletivas tiveram que ser interrompidas para que o hospital não ficasse sem estoque de materiais. O caso se arrasta por anos e não há perspectiva que o impasse termine.
Para o atual presidente, Esacheu Nascimento, a trajetória do hospital é vista como vitoriosa. “A Santa Casa é a expressão maior do espírito de solidariedade do Campo Grandense. Ela surge em 1917 dentro das lojas maçônicas, da igreja e da comunidade que se organiza com almoço e jantares para construir o primeiro hospital, na Avenida Mato Grosso. De lá pra cá a trajetória é vitoriosa, pois foi o hospital que a comunidade de Campo Grande teve para atender toda a demanda da saúde. Imagina quantas gerações desde aquela época até hoje já foram atendidas”, avalia Nascimento, que atua em seu primeiro mandato à frente da direção local.