Cidades

Marcos Trad

‘Campo Grande está machucada, nós vamos tratá-la e vou devolvê-la sadia’

Trad diz que a atenção estará voltada para o clamor popular

Redação

18/12/2016 - 05h00

A posse como prefeito ocorrerá apenas no próximo dia 1º, mas Marcos Trad e sua equipe de transição já estão, segundo ele, inteirados dos muitos problemas que Campo Grande vive, principalmente os mais visíveis. Nesta entrevista ao Correio do Estado, ele fala sobre o perfil do secretariado, das prioridades no ano novo, de finanças (as necessárias e aquelas que formam um rombo), da herança de dívidas, de uma cidade  machucada e do que está por  vir.

CORREIO PERGUNTA 
 Prefeito, o senhor está prestes a assumir a direção da maior cidade de MS. Quais serão suas primeiras providências?
MARCOS TRAD - Nada Já estou tomando medidas antes mesmo de assumir. Primeiro, na formação de uma equipe técnica, absolutamente qualificada, preparada e suprapartidária. São pessoas específicas dos assuntos e que vieram para ajudar Campo Grande. Não vieram pelo salário, pelo glamour ou por vaidade, mas, sim, porque entenderam o momento pelo qual a cidade passa e a importância de tudo o que eles aprenderam nas áreas específicas deles. Eles irão contribuir com a nossa cidade.

Quais serão suas prioridades? 
As prioridades não podem ser minhas, mas sim da cidade. E a partir do momento em que você ouve a população tende a acertar mais do que errar. Em qualquer pesquisa realizada sobre a insatisfação do cidadão no serviço público, eles apontam como ineficientes  saúde, segurança pública, educação e transporte coletivo. Infraestrutura e mobilidade urbana só passaram a ser citados nestes últimos quatro anos, em razão dos esttragos nas ruas e dos buracos que se multiplicam a cada dia dentro de Campo Grande. Esta não era uma preocupação do campo-grandense, mas passou a ser preocupação de todos nós. Então, nossa atenção vai ser para o clamor popular, que são saúde, educação, segurança e infraestrutura.

Qual é o orçamento do município em 2017 e quanto dele já está comprometido?
De 2017 a previsão ainda tem variáveis, porque a própria administração, já conhecedora do assunto, apontou alguns meses atrás que seria de R$ 3,5 bilhões. Mais recentemente, eles falam em R$ 3,1 bilhões, ou seja, há uma diferença aí substancial de quase meio bilhão de reais.  Então, se eles que estão dentro da gestão não estão ainda seguros e não estão seguros de uma diferença tão latifundiária, eu espero que seja o maior possível para que a gente possa, pelo menos, atenuar o sofrimento de todos nós.

E num ano difícil para a área econômica, como pretende resolver a equação falta de verba com necessidade de pagamentos e investimentos?
O problema econômico é mundial e teve reflexo nacional, que atingiu os estados e, agora, os municípios. O que nós podemos começar a modificar  é pacificando o lado político, o lado administrativo. Ou seja, crise econômica é ruim, mas crise econômica aliada com crise político-administrativa como nós tivemos em quatro anos é um desastre. E o que nós vimos? Poderes brigando entre si, entidades não-governamentais com entidades governamentais se desentendendo. Vice-prefeito querendo cargo do prefeito;  prefeito não cumprindo, segundo a Câmara Municipal, com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Tribunal de Justiça, ora tira o prefeito, ora recoloca o prefeito; vice-prefeito que toma posse sob o manto da lei, de repente a própria lei o manda para a cadeia. Ou seja, a primeira coisa que temos que organizar é a estrutura de nossa cidade. Não há como três poderes puxarem cada um para um lado porque a corda vai arrebentar sempre para o cidadão, nós somos sempre o lado fraco desta história toda. E o lado fraco gerou isso, demissão de quase 34 mil funcionários dentro de Campo Grande, diminuição considerável da renda per capita das famílias, aumento da violência, justamente porque o estresse é tão grande, o desemprego é tão grande, os problemas deste Estado são tão grandes, que as pessoas passam a não ter uma vida com paz.  O ser humano deixou de ser feliz em nossa cidade. 

Sua equipe já avaliou detalhadamente os gastos da Prefeitura? E os contratos, serão ou já estão sendo reavaliados? 
Sempre é bom ouvir os mais experientes. Eu estive no Tribunal de Contas e os conselheiros e os próprios servidores que foram eleitos agora disseram para mim que nós teríamos muito trabalho. E nos foi sugerido  auditar alguns contratos, entre eles o das lâmpadas de LED.  E toda a orientação dada pelo Tribunal de Contas foi desobedecida pelo prefeito atual, o que pode gerar prejuízo para todos nós. Vamos levantar, sim, os contatos e auditar aqueles que entendemos que são duvidosos e que trouxeram prejuízos aos cidadãos de Campo Grande.  

Além do contrato sobre as lâmpadas de LED, de quais outros o senhor tem conhecimento?
Olhe, eu não vou apontar sem antes ter conhecimento profundo.  E não tomarei medidas de retaliação ou de vingança contra ex-prefeitos. Vou encaminhar para os órgãos de controle. Mas uma coisa eu sei:é é no plural, não é no singular.  

Foi apontado rombo de mais ou menos R$ 30 milhões nas finanças. Vocês já têm confirmação desta realidade?
Os números são extremamente desalentadores, mas não adianta ficar reclamando. Temos que enfrentar, criar mecanismos sem aumentar impostos. Ninguém suporta mais. Antes de ser prefeito , sou cidadão. E eu sei que o lapso temporal de minha permanência na prefeitura pode ser de até quatro anos. Por que pode ser? Porque hoje em dia o homem público tem que ter a noção exata de que muito embora a lei lhe fale que ele terá quatro anos, ele pode ser mandado embora para casa com seis meses, com oito meses. Os tempos são outros. Todo dia eu terei que mostrar que sou um bom gestor. Eu posso ficar até quatro anos, dependendo do meu comportamento moral e ético. Então, todos os números de 25, 30, 40 [nas finanças] nós teremos que enfrentar. Mas eles apontam, em média, o rombo da prefeitura hoje, em R$ 30 milhões/mês. 

O senhor mencionou o perfil de seu secretariado. Mas não teme que, por alguns terem trabalhado com gestores de partidos tão diferentes, possa haver algum conflito político-ideológico durante sua gestão?
Creio que não. Não existe mais homem público que diz “eu sou de tal partido e sigo o conteúdo programático daquele partido radicalmente”. Acabou isso aí. Homem público não é de partido, homem público não é de deputado, não é de senador, nem de governador, nem de prefeito. Homem público consciente, nos dias atuais, tem que ser bom para a cidade, para a administração.  Por isso acredito que não vamos ter problema nenhum. Eu dei o exemplo. Talvez eu seja o único prefeito que chamou para o primeiro escalão pessoas que não votaram em mim.

O senhor disse que não há verba para fazer novos Ceinfs. Como regularizar a falta de vagas?
Primeiro, precisamos terminar os que já existem, estão sendo aprontados, que receberam autorização do Governo Federal, são 17. E, a partir do momento em que forem sendo terminados, a gente reduz em média quase 3 mil crianças, colocando-as nas vagas destes Ceinfs. Não adianta começar a construir algo que você não terá como terminar. A pior coisa que tem é quando você inicia algo sem planejamento. Temos que saber quando teremos o valor para construir tal coisa, quando vai terminar a obra. Não podemos sair construindo coisas se o que já existe não funciona.  Campo Grande é a Capital que mais UPAs tem - temos 9 - para uma população de 930 mil pessoas. Curitiba tem 4 UPAs para uma população de quase 2 milhões de pessoas. Lá, a reclamação não é a saúde e só tem 4 UPAs. Aqui temos as UPAs mas não tem pelo menos paracetamol dentro delas. O que adianta se não está funcionando como deveria? Por que não pegar tudo isso, planejar, arrumar, ordenar, fazer cada um deles como se fosse um Hospital da Criança, onde a pessoa pobre entrar, sentar num sofá bom. Se a gente pode sentar por que eles também não podem? Por que eles não podem ser atendidos dignamente se pagam tão caro, talvez mais caro do que nós? 

O senhor pretende rever também este tipo de contrato?
Nós vamos rever. Podem ser poucos, mas quem entrar lá vai ser atendido com dignidade, respeito e bom atendimento. Equipar e transformar todas elas [UPAs] é o nosso desejo. Mas, o ser humano é imediatista, quem gosta de esperar? 

Como o senhor pretende trabalhar com a minoria de vereadores na Câmara? 
É outra coisa que eu nunca consegui entender esta coisa de minoria, maioria, base. Forma base quem tem receio de coisas erradas. Para que você forma um conjunto para te defender se você só vai fazer coisa certa? Os vereadores receberam um recado muito forte da população, como eu também recebi: “Olha, nós estamos enviando vocês para lá para ajudar a cidade; não é para ajudar uma ou duas pessoas ou partidos políticos”. Eu só vou mandar coisas positivas, que serão discutidas com eles antes. Não sei porque tenho que criar base. Nós temos que ser da cidade. Por isso que tenho certeza que não vou ter problema de relacionamento com nenhum dos vereadores, nunca tive.

Bernal deixará o salário de dezembro para ser pago em janeiro; deixará, ainda, a regularização do Hospital da Mulher nas Moreninhas, para o senhor resolver. Haverá recurso suficiente?
Nunca fugi dos problemas, aliás, quando eles aparecem fico feliz, porque é mais uma oportunidade de crescer na vida, de adquirir conhecimento, de ter sabedoria e vencer obstáculos. Vou enfrentar. Se tiver que deixar isso e mais outros, vou reordenar e vamos superar todos eles. A cidade vai se unir e nós faremos um trabalho coletivo, tenho certeza disso. Estive na Associação Comercial, vou lhe dar um exemplo. Lá eles reuniram, pela primeira vez, 30 empresários. Estes 30 empresários geram, de empregos diretos, quase 20 mil funcionários com carteira assinada e, indireto, quase 35 mil dentro de Campo Grande. E por que eu os reuini? Para lhes dizer o seguinte: o combate à dengue não é só um trabalho do prefeito, é um problema de todos vocês. “Ah, mas a gente já ajuda!”.  Mas como é feito? Não adianta este trabalho isolado. Ou a gente trabalha em conjunto ou não trabalha. Isso não é bom para Campo Grande, isso é bom para os cofres de vocês. Imagine você, que tem cem funcionários, 5 deles pegam dengue, chikungunya...Será preciso sunstitui-los, pagar a estes funcionários o tratamento médico, eles podem ficar lesionados, será preciso contratar outros para colocar no lugar, etc.... Então, veja, este problema não é só meu, este probelam interessa a todos vocês. E eles começaram a ver por esta ótica. E vamos começar a fazer um trabalho em conjunto para que a gente não vire mais notícia nacional.

O  Plano diretor e a discussão no afogadilho prejudica seu plano de gestão? 
Tudo que é feito no afogadilho prejudica. Aliás, o que você faz no mínimo e no máximo vai lhe ser prejudicial.  Beber água é bom? Mas beba 10 litros num dia para ver se não vai ficar doente! E o Plano Diretor, da maneira como ele foi, acho que a cautela recomenda a discutir mais isso com outras entidades de classe e chegar a um denominador comum. Porque não é um plano que vai exigir 12 meses, é um plano que vai exigir 10 anos. E nestes 10 anos não se poderá mudar de caminho, as regras são aquelas, ou seja, vão te engessar. E a cidade não pode ficar 10 anos diante de um Plano Diretor que não foi tão debatido e exaustivamente discutido. Tem que ter cautela. 

Alcides Bernal o apoiou no segundo turno. O que vai caber a ele neste “latifúndio”? Fica dentro ou fora da Prefeitura?
Poucas pessoas usaram a expressão correta do vocabulário como você: “teve apoio”. Há o apoio, que é diferente de aliança. Aliança é quando você faz algo locando a prefeitura e a prefeitura não é minha para eu locar absolutamente nada. Recebi apoio e o apoio foi diante de algumas condições, publicadas na imprensa. E eu as venho cumprindo, como, por exemplo, secretariado ficha limpa. Então, todos os itens pedidos foram para o bom andamento. Primeiro escalão: nenhuma pessoa envolvida em Lama Asfáltica, Coffee Break.... Com 15 dias de antecedência eu já estou apresentando a todos vocês os secretários. 

O senhor poderia me definir a Campo Grande que irá receber?
Eu estou recebendo uma missão de Deus e vou cumprir. Campo Grande, do jeito que está, machucada, nós vamos tratá-la e vou devolvê-la sadia e saudável para todos vocês.

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