Cidades

batalha pelo estudo

Esforço inspirador transforma vida de pessoas simples na Capital

Há 4 anos, gari deixou para trás profissão para cursar Biologia na UFGD

Redação

23/12/2016 - 19h06

Há dois meses, Walkíria Aparecida Benites, 41 anos, concluiu o curso superior com dois diplomas: o da graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e o de “guerreira”, confeccionado pelos colegas. Eles escolheram o apelido para expressar sua trajetória de determinação e perseverança. No dia 24 de fevereiro de 2012, Walkíria despediu-se do trabalho de gari em Campo Grande para iniciar a realização de um sonho, ingressando na universidade. 

Depois do desafio da aprovação na universidade, surgiram muitos outros obstáculos no   caminho até concluir todas as disciplinas, provas e estágios.

O primeiro foi chegar em uma cidade nova, onde não conhecia ninguém e sem dinheiro para custear as despesas pessoais. “Tinha medo de passar necessidade, mas muitas pessoas boas me ajudaram. Só tenho a agradecer, pois sei que sem ajuda não teria conseguido. Sou muito grata a todos”. 

Inicialmente, no primeiro ano, ela contou com bolsa viabilizada pelo Instituto Luther King, local onde fez o curso preparatório gratuitamente ainda na época em que precisava conciliar os estudos com a árdua tarefa de varrer ruas. Depois, conseguiu a bolsa permanência, pelo Governo Federal, e alimentação.

“Tem bastante gasto. Além da comida, tem aluguel, água, luz, ônibus todos os dias até a universidade (em Dourados estudante paga meia passagem) e os materiais, xerox e algum livro”, elenca. 

As aulas eram em período integral, o que acaba dificultando arrumar emprego. Walkíria fazia limpeza em uma empresa três vezes na semana para complementar a renda. Às terças e quintas-feiras, trabalhava das 17h às 20h, além dos sábados pela manhã. Nas demais noites, ela fazia estágio em escolas públicas da cidade.

“Tive que me esforçar bastante, mas consegui concluir o curso sem reprovações. Só não terminei antes porque não fiz todas as matérias. Não daria tempo por causa do trabalho e estágio”.  
     
EXEMPLO 

Quando concluiu o Ensino Médio, Walkíria passou a trabalhar como diarista, babá e gari. Iniciou o cursinho preparatório para o vestibular depois de 12 anos sem estudar. Agora, não quer parar mais. “Deixei muito tempo passar. Não tinha ambição. Hoje percebi que posso ir longe, conquistar muito mais”, contou. 

Os planos incluem a preparação para o mestrado em Estudo de Ciências, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande. “Tenho que fazer curso para aprender outro idioma e estudar bastante. Por isso, vou tentar a seleção em 2018. Antes, nem sabia como funcionava nada disso. Achava que doutor era só o médico, Aprendi muito na universidade”.

Orgulhosa, ela conta como está conversando melhor, interagindo com as pessoas. “Notou a diferença daquela vez que me entrevistou?”, questiona, sobre a reportagem feita em 2012. Outra conquista é perceber que se tornou exemplo para os sobrinhos. “Eles falam que querem estudar, formar, como eu fiz”.

Walkiria tem outros quatro irmãos que residem em Campo Grande. É a única que concluiu ensino superior.

Marcelina, mãe de Walkíria, fala do esforço da filha. Foto: Álvaro Rezende/Correio do Estado

“É um sonho realizado. Acompanhei todo esforço dela, as dificuldades. No começo até ligava chorando, com saudades e por achar tudo bastante complicado. Mas, ela enfrentou”, conta a mãe de Walkíria, Marcelina Benitez, 75 anos, que não vê a hora da filha caçula voltar a morar com ela. A pretensão é retornar a Capital na metade do ano que vem, depois de receber oficialmente o diploma em Dourados.

Até mesmo para os colegas de sala, a trajetória de Walkíria tornou-se modelo. Quando ela começou os estudos, sua história já tinha sido mostrada em reportagens. “Eles me apelidaram de guerreira e me deram o diploma com esse nome. Fico feliz porque sei de todo esforço que tive e fico honrada de estar inspirando outras pessoas. Fiz amigos para a vida toda, adorei os professores e quero, um dia, ser como eles”. 

Para manter o foco nos estudos e até evitar gastos, Walkíria procurava não ir a festas. “Nem quis arrumar namorado, pois sei que ia atrapalhar minhas metas”. O sentimento é de satisfação ao saber que atingiu o objetivo nos estudos. “Tenho, hoje, algo que ninguém me tira: conhecimento”. 

CURSOS GRATUITOS 

Quem deseja voltar a estudar, conta com opções gratuitas ou de baixo custo de cursos preparatórios para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), cuja nota é utilizada para ingresso na maior parte das instituições de ensino superior.

O Instituto Luther King, onde Walkíria estudou, abre inscrições em janeiro. É preciso estar cursando o 3º ano ou já ter concluído o Ensino Médio em escola pública; ter renda per capita de até um salário mínimo e meio, além do Número de Identificação Social. O curso aconteceu das 19h às 22h. 

A Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) também oferece cursinho preparatório para o Enem. As inscrições devem abrir em janeiro. Serão oferecidas 210 vagas, sendo metade destinadas exclusivamente a alunos de escolas públicas.

A prioridade será para quem já concluiu Ensino Médio e as remanescentes serão oferecidas para quem está no 3º ano.  A previsão, segundo o coordenador pedagógico Antônio Borges Pereira, é contar com três turmas à noite e ainda está em estudo outra no período da tarde. Os alunos precisam pagar taxa de R$ 300 de matrícula. O edital será publicado no site: http://proenem.sites.ufms.br/.  

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