Cidades

ACREDITAR E DEDICAÇÃO

Estudante das Moreninhas conta como alcançou o sonho de cursar Medicina

Ériky Fernandes apoiou-se na música e no suporte de professores e pais

Redação

21/01/2017 - 11h00

Estudantes de Medicina, conforme pesquisas realizadas em diferentes estados, têm a renda familiar acima de 10 salários mínimos, ou R$ 9.370, os pais têm ensino superior, os alunos estudaram o ensino fundamental e o médio em escola particulares, são brancos e, em geral, precisaram de três a mais anos de preparação para serem aprovados.

Ériky Fernandes Guimarães Silva, 17 anos, tem perfil bem diferente. Ele mora nas Moreninhas 2, em Campo Grande, a família dele ainda não chegou ao patamar dos 10 salários mínimos e não teria condições de aguardar anos de cursinho e outras preparações para entrar em medicina.

Tudo bem mais difícil, mas não impossível para quem acreditou em um sonho e decidiu abrir mão de muita coisa para estudar 12 horas por dia e encontrar alguns professores, um cursinho gratuito e a fé dos pais para se agarrar e seguir em frente.

O aluno da Escola Estadual Waldemir Barros da Silva, nas Moreninhas, reuniu o apoio que tinha na instituição, às vídeo-aulas que passou à assistir e o acompanhamento prestado no cursinho gratuito do Instituto Luther King (ILK) para obter a aprovação em uma das 60 vagas oferecidas em medicina na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

"Estava no sistema de cotas, e renda, escola pública e pardo. Na primeira fase a disputa era 14 por vaga, fiquei em primeiro lugar. Parece pouco, mas como sempre têm pessoas que estão tentando há anos, o nível é bem alto.Aí, na segunda fase, ficou 5 por vagas. Fiquei em terceiro das cinco vagas", explica o novo universitário de medicina.

Descobrir a aprovação foi motivo de alegria na casa dele. "Sai pulando, dançando e gritando para avisar minha mãe no quarto dela. Meus pais ficaram muito felizes, meu pai estava trabalhando e liguei para ele. Alguns professores do Instituto Luther King me ligaram emocionados. Meus amigos também. Foi um dia que fiquei extremamente feliz, e que vi o número de pessoas que acreditavam em mim", recorda.

NEM TUDO RESOLVIDO

Mas como nem tudo são só maravilhas, Ériky conta que tem pela frente mais uma dificuldade. Desta vez, não exatamente de estudos. "Meu pai, ao mesmo tempo que ficou feliz, também está preocupado sobre como eles irão me manter em Toledo."

A distância entre Campo Grande e a cidade paranaense onde fica o campus da UFPR é de quase 600 quilômetros. E com a mudança de Ériky, isso significa que os pais teriam que manter uma segunda casa. Situação difícil de garantir com a renda apertada.

"Prevejo uma mudança bem complicada. A renda em casa é baixa. O ILK ajuda os alunos que passam para fora por 1 ano. Então, esse primeiro ano pode até ser tranquilo. Mas, depois vai ser complicado, já vou tentar correr atrás de algumas bolsas esse ano para me manter. Meu pai disse que provavelmente vai ter que vender o carro para me ajudar. Mas não posso perder essa oportunidade, então apesar das dificuldades, espero muito conseguir concluir o curso", almeja.

SÓ O COMEÇO DO ESFORÇO

Quando entrou no ensino médio, Ériky não tinha definido exatamente o que iria fazer na universidade. Surgiram as opções jornalismo, letras, história, engenharia ambiental, engenharia mecatrônica, cinema e medicina.

Ele só foi descobrir mais tarde o que realmente queria ao assistir um comercial do Médico sem Fronteiras. Ele se maravilhou pelo trabalho desempenhado e assumiu para si que entraria em medicina para ainda atuar na ONG.

A entidade foi fundada em 1971, na França, por jovens médicos e jornalistas que atuavam como voluntários no fim dos anos 1960 na Nigéria, socorrendo vítimas da guerra civil naquele país. Em 1999 a organização recebeu o Nobel da Paz.

"Na época tinha medo de dizer que queria fazer medicina, porque sabia que era super concorrido, e meus pais não tinham condições de pagar um cursinho, nunca tinha visto alguém pobre e de escola pública passar", conta.

Em 2015, ele entrou no Instituto Luther King para fazer cursinho. A entidade não cobra dos alunos e faz uma avaliação socioeconômica dos estudantes. A preparação começou a ficar mais séria e a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que o estudante tirou naquele ano o encheu de esperança, porque não estava tão distante do que era exigido para cursar medicina na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

"Em 2016, já encarava como um sonho não impossível, pouco possível, mas não impossível. Ficava com muito medo, porque via o pessoal tentando há 5, 6 anos, e eu não tinha condições de ficar todo esse tempo em cursinho. No ILK a gente pode ficar até dois anos e era minha última chance. Meus pais não poderiam pagar um cursinho e se eu tivesse que trabalhar para pagar isso, minhas chances cairiam", revela.

A rotina de estudos, ano passado, começava às 7h. Ériky usou um dinheiro que tinha guardado para assinar dois canais de estudo. A mãe dele ajudou assinando outros. Ele fazia lista de exercícios, lia material que recebia e durante a noite fazia o cursinho no Instituto Luther King. O dia só terminava depois das 22h, quando pegava o ônibus para voltar para casa.

É PRECISO VÁRIOS ESFORÇOS

Para o agora universitário do curso de medicina, obter a vaga foi resultado de uma junção de esforços. "Meus pais trabalham duro para sustentar eu e meus dois irmãos. E apesar do salário baixo, nunca precisei trabalhar. Muitos alunos não podem se dedicar só aos estudos, conheço várias pessoas que querem medicina e se tivessem a mesma oportunidade que eu tive de estudar em casa, também teriam passado."

Ériky contou que na Escola Estadual Waldemir Barros da Silva o apoio ao estudante é grande. Já no ILK, onde fez cursinho, ele desenvolveu a característica de acreditar mais em seus sonhos.

"Nem todo mundo tem a sorte de estudar em uma escola pública que se preocupa tanto com os alunos como é o caso da E.E Waldemir Barros. Devo muito também ao criador do Instituto Luther King, Dr. Aleixo Paraguaçu, que é uma das minhas maiores inspirações de solidariedade. Sem o instituto não teria nem a ousadia de sonhar em passar em medicina."

Para ele, o contato com o cursinho social o ajudou a se preocupar mais com causas sociais. Também encontrar mais gente determinada para se espelhar e inspirar.

"É triste ter poucos lugares como o ILK, porque é a única chance de jovens como eu, que não têm condições de pagar cursinho e gastar com apostilas, enfrentar o Enem e demais vestibulares."

MÚSICA INSPIRADORA

Algo que Ériky destaca sobre o ano que passou estudando é que ele passava um bom tempo no transporte público. Para sair das Moreninhas e ir para o Centro, onde fica o Instituto Luther King, ele aproveitava para ouvir músicas que o ajudavam a sonhar no que queria alcançar.

Ele elencou os músicos Criolo, Emicida, Racionais, Marechal e Trilha Sonora do Gueto. "Agradeço muito ao rap, que sempre na ida para o ILK, no ônibus, me motivavam. Ouvia as músicas e pensava que queria quebrar um pouco esse história que medicina é para branco e elite."

"Torço pra que um dia ( e sei que esse dia vai demorar) que a desigualdade seja bem menor e não precisemos nem de cota. Mas, atualmente, posso dizer que é quase impossível pessoas com as mesmas condições sociais que eu passarem na ampla concorrência. Não é questão de estudar mais. A concorrência é enorme e com pessoas que pagam cursinhos de R$ 2 mil, com plantões de dúvidas o dia inteiro, com inúmeras apostilas durante o ano, não é fácil competir", completa.

OUÇA ALGUMAS MÚSICAS QUE AJUDAM ÉRIKY

CRIOLO

EMICIDA

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MARECHAL

TRILHA SONORA DO GUETO

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