A reciclagem de material de construção civil em Campo Grande passou a ser feita também por presos, depois de parceria entre a Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen) e a empresa Progremix Resilix.
Hoje são 30 internos do regime semiaberto que trabalham na recicladora, que fica na saída para Cuiabá (MT). Na Capital, 1,3 mil tonelada de lixo é produzida diariamente na cidade e em torno de 34,2% são de origem da construção civil.
Os presos recebem salário mínimo e redução de um dia para cada três trabalhados, conforme estabelece a Lei de Execução Penal. Os beneficiados ficam o dia todo trabalhando e no final da tarde voltam para o Centro Penal Agroindustrial da Gameleira, em Campo Grande.
Os restos de obras servem para fabricação de telhas, blocos de cimentos, entre outros materiais. "É possível fazer praticamente todos os pré-moldados necessários na construção civil", contou o empresário Geneci Borges Alves.
Restos de madeira também passarão a ser utilizados para geração de energia elétrica. O processo consiste em triturar o material e o pó vai funcionar como combustível.
“Já estamos adquirindo o equipamento que transformará esse material em energia. Nossa meta é tornar essa geração suficiente para abastecer a nossa firma e ainda vendermos energia para a companhia elétrica", revelou o empresário do setor.
A Progemix e a Agepen tiveram parceria em anos anteriores, mas o contrato foi rompido quando veio a crise econômica. Depois de remodelação e melhora do cenário, o convênio voltou a ser firmado em março de 2017.
TRABALHO VALORIZADO
“Sempre foi muito positivo utilizar a mão de obra carcerária, já tive detento que até chegou a ocupar o posto de gerência. São ótimos funcionários, não tenho do que reclamar, quero ter o maior número possível”, contou Geneci Borges Alves.
A Agepen divulgou que os detentos selecionados para o trabalho avaliando como positivo a oportunidade de reinserção na sociedade.
Wander Barrios: "Vejo que o trabalho abre portas". Foto: Divulgação/Agepen“Trabalho aqui o dia inteiro, quando volto para o presídio para dormir estou cansado e não tenho tempo de pensar besteiras. Estou sendo motivo de orgulho para a minha família, que pode ficar tranquila também sabendo que não estou fazendo nada de errado”, desabafou Anderson dos Santos Rondon, de 32 anos.
“Vejo que o trabalho abre portas e a fé muda a forma da gente enxergar o mundo”, opinou Wander Robert Barrios, de 25 anos, que cumpre pena desde 2012.
Um técnico de segurança no trabalho acompanha diretamente a atividade dos detentos. Como exigência, a empresa precisa garantir que nenhum apenado deixe o local sem autorização. "O acesso é monitorado por câmeras e o controle de entrada e saídas é rigoroso”, explicou Osvaldo Lopes, profissional da área de segurança do trabalho.
INSERIDOS
O técnico detalhou que os presos são tratados como funcionários e não há nenhum tipo de caracterização por cumprirem pena. Todos desempenham atividades nos setores designados e também realizam outras ações na empresa.
“Também oramos, cantamos, lemos e falamos sobre trechos da Bíblia. É muito especial e eles gostam muito”, disse Lopes.
Máquina do processo de reciclagem. Foto: Divulgação/AgepenCENTENAS DE PARCERIAS
A Agepen divulgou que mantém 172 convênios com instituições, empresas no Estado e conselhos da comunidade, em 18 municípios.
Somente com empresas e instituições, os contratos somam 145 parcerias. Há mais 27 convênios com os conselhos da comunidade.
“Hoje, 38% da população carcerária trabalha. Em se tratando do semiaberto, esse percentual é ainda mais significativo, com 70% dos custodiados inseridos no labor”, afirmou o diretor-presidente da agência, Aud de Oliveira Chaves.
A Diretoria de Assistência Penitenciária (DAP), que pertence à Divisão do Trabalho dentro da Agepen, é o setor que administra essas parcerias.
“A nossa meta é continuarmos ampliando as parcerias para inserção desses apenados no mercado de trabalho, o que expande as possibilidades de reinserção social e a não reincidência no crime, que é o nosso objetivo principal”, projetou Chaves.
Uma outra estatística apresentada é que em 10 anos, o sistema penitenciário estadual ampliou em 117% o total de detentos exercendo algum tipo de trabalho. Nesse período, o aumento da população carcerária foi de 65%.