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Centrista Emmanuel Macron vence eleições na França

Centrista Emmanuel Macron <br>vence eleições na França

Redação

07/05/2017 - 14h52

O centrista Emmanuel Macron, 39, foi eleito presidente da França neste domingo com 65,1% dos votos, segundo estimativas de boca de urna, que ainda serão confirmadas durante as próximas horas.

Representando o movimento independente Em Frente!, ele governará pelos próximos cinco anos a sétima maior economia do mundo e um dos cinco países com direito o veto no Conselho de Segurança da ONU.
Macron disputava as eleições, com impacto no restante da União Europeia, contra a ultranacionalista Marine Le Pen, da Frente Nacional, que recebeu 34,9%.

Em seu discurso de derrota, Le Pen focou na eleição legislativa de junho. "Estarei à frente desse combate. Mais do que nunca precisamos de vocês", disse. Ela voltou a ressaltar o que chamou de recomposição entre "patriotas e globalistas", ressaltando as forças tradicionais da política francesa que apoiaram Macron. Le Pen disse que telefonou para o presidente para parabenizá-lo e desejar-lhe sucesso.

O impacto imediato do resultado será o reforço do projeto de integração europeu, do qual Macron é entusiasta. Le Pen defendia erguer barreiras protecionistas, retirar a França do bloco econômico e possivelmente retomar o franco como moeda, em vez do euro.

A eleição de Macron, comemorada por militantes diante do Museu do Louvre, marca ademais transformações históricas no país.

Esta foi a primeira vez em que os dois principais partidos franceses -socialistas e republicanos- não concorreram no segundo turno. É também a primeira vitória de um candidato sem a estrutura de uma sigla tradicional.

Ele será o presidente mais jovem desde a eleição em 1848 de Luís Napoleão, sobrinho de Napoleão, aos 40.

O movimento Em Frente!, de Macron, foi fundado há um ano nos moldes de uma start-up, assentado em uma rede de 260 mil militantes, parte deles inexperientes.

A uma população desencantada com a atual divisão entre direita e esquerda, buscou se vender como alguém além dessa divisão. Acena ora com o afrouxamento das leis trabalhistas, que deverá ter dura oposição dos influentes sindicatos, ora com medidas de proteção social, tema caro aos franceses.

BIOGRAFIA

Com porte de galã e autor de um romance épico inédito -"Babilônia, Babilônia"-, Macron personifica uma versão bastante específica da renovação política. Ele é até certo ponto um candidato contrário ao establishment, mas simultaneamente representa esse mesmo sistema.

Ex-filiado ao Partido Socialista, o novo presidente foi, afinal, ministro da Economia do impopular governo de François Hollande, tendo abandonado o barco só em agosto do ano passado.

O presidente eleito dificilmente poderá se apresentar como mais um entre a população. Ele outrora trabalhou para o banco Rothschild, em que recebeu 2,8 milhões de euros (equivalente a R$ 10 milhões) de 2008 a 2012.

Macron foi formado, também, em uma instituição que é símbolo da elite: a ENA (Escola Nacional de Administração), por onde passaram os presidentes Jacques Chirac e François Hollande e os principais nomes da administração da França, quer seja à esquerda ou à direita.

Ele será acompanhado nos próximos cinco anos no Palácio do Eliseu por sua mulher, Brigitte Trogneux.
O casamento é alvo de interesse já há algum tempo. Brigitte é 24 anos mais velha do que ele, e ambos se conheceram quando ela era professora em sua escola.

FISSURAS

A eleições deste ano evidenciaram diversas fissuras na sociedade francesa, ampliadas pela lupa com que foram vistas pelo mundo.

A candidatura de Marine Le Pen, representando um partido populista com histórico de retórica antissemita, assustava a liderança europeia após a eleição do republicano Donald Trump nos EUA e a decisão do Reino Unido de deixar a UE, conhecida como "brexit".

A divisão dos eleitores entre ambos os candidatos é sinal de uma série de temas sobre os quais discordam.
Macron e Le Pen têm, por exemplo, visão distintas da União Europeia: ele a favor e ela contra. Eles também enxergam a imigração de maneiras diferentes: ele quer uma sociedade mais multicultural, enquanto ela quer interromper o fluxo e expulsar migrantes condenados e suspeitos de radicalização.

Há também distinções mais estruturais, como a tendência, comprovada por pesquisas, de que o eleitorado de Macron tenha uma expectativa mais otimista em relação ao futuro, em comparação com o de Le Pen.

A base de Macron é descrita por analistas como a dos "vencedores da globalização", aqueles que se beneficiaram da integração à economia mundial. Le Pen representa, por outro lado, as periferias e pequenas cidades onde o fechamento de fábricas destruiu empregos. O desemprego na França está hoje em cerca de 10%.

FUTURO

Recém-eleito, Macron ainda não pode relaxar na cadeira de presidente. Ele enfrenta já em junho as eleições legislativas que darão o tom geral de seu governo. Sem a maioria dos legisladores, será complicado aprovar as reformas que propõe.

Será determinante, agora, quanto apoio virá dos tradicionais Partido Socialista e Republicanos, que ele derrotou já no primeiro turno.

As duas siglas se uniram em torno da candidatura dele contra Le Pen neste domingo, apoiando publicamente o candidato, mas não especificamente por concordar com sua plataforma.

A adesão à campanha de Macron foi vista como maneira de impedir Le Pen de chegar até a Presidência.
Não é a primeira vez em que o establishment francês lança mão dessa estratégia.

Em 2002, quando o pai de Le Pen concorreu ao cargo, formou-se também a chamada "frente republicana" para freá-lo. Assim, o conservador Jacques Chirac venceu com 82% dos votos contra Jean-Marie Le Pen, pai de Marine.

O resultado superior da candidata da FN neste ano mostra que, apesar da derrota, o partido ultradireitista avança em sua estratégia de se "normalizar" aos olhos do eleitorado francês, afastando membros mais radicais.

Seu potencial de se tornar a principal voz crítica à globalização do país e se cacifar para um desempenho melhor no pleito de 2022 aumentará à medida em que o governo Macron não dirimir o desemprego e o lento crescimento de sua economia.

Estudioso da Frente Nacional, o cientista político Stéphane Wahnich, da Universidade Paris-Est Créteil, diz que o crescimento da base de votos dela sinaliza a progressiva vontade do eleitorado de revirar a política.

Ele argumenta que Le Pen ainda esbarra na história de seu partido e em sua falta de credibilidade econômica, mas que há potencial para o surgimento de outro candidato antissistema e populista, pois o conceito está se tornando cada vez mais "respeitável" para a população. "O problema de Marine Le Pen é se chamar Le Pen."

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