Cidades

ESTUDO

Pesquisa mostra que robôs aumentam polarização dos debates nas redes sociais

Resultado aponta que processo de disputa política nos próximos anos pode estar ameaçado

Redação

03/09/2017 - 14h00
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Uma pesquisa da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DAPP/FGV) mostra que robôs – perfis automatizados nas mídias sociais – estão influenciando os debates políticos na web e aumentando a polarização das discussões. O estudo denominado Robôs, Redes Sociais e Política no Brasil, publicado no final de agosto, aponta ainda que o processo de disputa política nos próximos anos pode estar ameaçado.

Os robôs, ou bots, são perfis falsos presentes em mídias sociais como o Facebook e o Twitter que são capazes de distribuir, em escala industrial, mensagens pré-programadas. Na disputa política, esse tipo de instrumento pode ser contratado em empresas especializadas para que um candidato, ou uma proposta, receba milhares de mensagens de apoio, inflando artificialmente sua aceitação popular, e influenciando assim a percepção das pessoas.

“Elemento flagrante é o 'inchamento' de movimentos políticos que são, na realidade, de dimensão bastante inferior. Somados, esses riscos e outros representados pelos robôs, são mais do que o suficiente para jogar luz sobre uma ameaça real à qualidade do debate público no Brasil e, consequentemente, do processo político e social definidor dos próximos anos”, destaca a pesquisa.

O estudo aponta que perfis comandados por robôs chegaram a ser responsáveis por mais de 10% das interações no Twitter nas eleições presidenciais de 2014. Durante protestos pelo impeachment da então presidenta da República Dilma Rousseff, as ações dessas contas falsas foram responsáveis por 20% das interações dos apoiadores dela, que usavam significativamente esse tipo de mecanismo. Um outro exemplo analisado mostra que quase 20% das interações no debate entre os usuários favoráveis a Aécio Neves no segundo turno das eleições de 2014 foram motivadas por robôs.

No entanto, segundo a pesquisa, não é possível afirmar que os grupos políticos ou candidatos beneficiados pelas mensagens sejam, de fato, seus mentores. "Ao identificarmos robôs operando para um campo, porém não queremos dizer que os atores políticos e públicos ali situados sejam responsáveis diretos pelos robôs a seu favor. Diversos grupos de interesse podem estar fazendo uso desse tipo de recurso de disseminação de informações".

Para o pesquisador da DAPP/FGV Amaro Grassi, ainda não é possível afirmar que a ação dos perfis falsos seria decisiva em uma eleição. No entanto, o uso desse tipo de ferramenta pode aumentar artificialmente a impressão de que determinada candidatura ou programa político possui mais apoio popular do que realmente tem.

“Qual que é o objetivo desse tipo de ação? É inflar um determinado posicionamento por interesses que podem ser os mais diversos. Pode ser um interesse por um assunto específico, pode ser o interesse por um um partido ou por uma narrativa”, explica.

Grassi ressalta que a ação dos robôs, por sua natureza, acaba degradando os debates políticos, transformando as discussões na web em embates extremados, sem espaço para a construção de consensos. “Por definição, não vai ser uma mensagem aberta ao diálogo, porque ela é uma mensagem propagada por um robô. Então, isso naturalmente se encaixa no contexto de mensagens que são mensagens de propaganda, mensagens mais afirmativas, que são de posicionamentos mais rígidos”.

"Em termos de impacto, o que a gente consegue perceber com bastante clareza é que eles favorecem a polarização. O tipo de mensagem que eles [robôs] difundem acaba favorecendo posições mais radiciais, e dificultando um debate mais sereno em torno das questões que estão colocadas em cada momento".

A pesquisa destaca ainda que a identificação dos "mentores" dos robôs passou a ter uma importância ainda maior, já que os perfis falsos, cada vez mais, conseguem replicar o padrão humano com mais precisão. Dessa forma, um usuário comum das redes sociais tende a ter mais dificuldade em saber se está lendo ou compartilhando um conteúdo artificial, ou escrito por uma pessoa de verdade. “Isso tem de ser incorporado no repertório de controle dos órgãos responsáveis pela eleição, pelos tribunais regionais e pelo Tribunal Superior Eleitoral. Tem que estar atentos a esse tipo de ação, pode ter uma interferência decisiva no processo eleitoral”, ressalta o pesquisador.

O estudo chama atenção também para o fato de que há robôs que operam no exterior e disseminam mensagens em território nacional. “Isso inclusive enseja a reflexão de manipulação não só interna, mas também para além dos campos políticos nacionais, sugerindo a hipótese da possibilidade de até mesmo outros atores, estranhos ao quadro nacional, operarem nas redes esses mecanismos”, alerta.

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