Duas mulheres que perderam os filhos para a violência. O ano que se inicia será de esperança para Marisilva Moreira da Silva, 45 anos, e Lucila Valdonado Souza, 47 anos. Elas são mães dos adolescentes Wesner Moreira da Silva, 16 anos, e Lessandro Valdonado Souza, 13 anos, ambos assassinados.
Wesner morreu em três de fevereiro de 2017, depois de ter uma mangueira de ar introduzida no ânus. Os acusados pela agressão - a que chamam de "brincadeira" - Thiago Giovani Demarco Sena, 20 anos, e Willian Henrique Larrea, 31 anos, respondem ao processo em liberdade.
Lessandro foi assassinado em agosto de 2016, depois de ter flagrado a cunhada, Talita Regina de Souza, traindo o irmão dele com um traficante rival no Danúbio Azul. Também teriam participado do crime Jean Marlon Dias Domingues e Luis Alves Martins Filho, o Nando, apontado como o responsávl pela morte de outras 14 pessoas. Os três estão presos, porém, negam o crime e ainda não foram julgados.
Marisilva Moreira da silva, 45 anos - mãe de Wesner Moreira da Silva, morto aos 16 anos
"Dia três foi o começo dessa tragédia que eles fizeram. Tiraram a vida de um menino inocente, que só queria trabalhar. Quando o pai dele saiu do INSS, ele falou: a senhora não se preocupa não, mãe, eu vou trabalhar pra ajudar. Desde os 14 anos ele queria trabalhar, tirou a carteira de trabalho dele, tudo. E as pessoas não pegavam ele, porque ele era de menor. Mas ele sempre fez curso, porque quando ele entrasse num serviço, já tinha computação, essas coisas que exigem do jovem hoje em dia. Então, ele fez o curso, nós pagamos pra ele. E ele falava sempre: mãe, eu quero trabalhar pra senhora não se preocupar. Ele falava de engajar no quartel, porque o menino aqui do lado é engajado e ganha R$ 2 mil e para ele era o máximo.Ele falava: Eu vou trabalhar e aí senhora não vai mais precisar ficar comprando tudo picadinho. Porque ele ia no mercado comigo e via como era difícil. As vezes ele pedia uma coisa, uma Nutella, e eu dizia que não dava aquele dia. Ele falava: não tem problema, mãe, eu nem quero agora, quando a senhora tiver dinheiro, a senhora compra. Então, ele via a nossa dificuldade, no dia a dia. E essa doença que surgiu na vida do pai dele.Na segunda-feira, assim que ele chegou lá no serviço, os dois fizeram uma bala de massinha, colocou suco dentro, fechou bem fechadinho e colocou dentro da geladeira. Quando ele chegou a tarde, ele me contou, e o Willian dando risada. Eles fizeram uma bala lá e colocaram o suco e ele achou que era bala, ele falou que estava com fome, sabe como é menino, né? ele desembrulhou e colocou na boca a primeira, a segunda ele já sentiu. Chegou aqui e falou: eu estou com muita dor no estômago. Aí eu falei com o Willian, falei pra ele: você nunca mexa com o Wesner, porque eu sou muito boa, mas mexeu com meus filhos, com meus tesouros que Deus me deu, eu viro uma fera. Ai ele disse que não ia brincar mais com o Wesner não.Porque o Wesner levava os filhos dele (Willian) para escola, levou dois anos, com aquele maior cuidado, sabe? Eu falava para ele: filho dos outros a preocupação é dobrada. Toda vez ele passava lá e levava o menino, todo dia, todo dia. Aqui era assim, tudo que acontecia, eles vinham aqui em casa. Aí a gente levava para o hospital o menino, porque graças a Deus a gente sempre teve um carrinho. Vinham aqui correndo pra socorrer o filho dele.Um dia antes (do crime) ele(Wesner) falou: mãe, não esquece de me acordar amanhã seis horas, que o homem vai passar aqui e me pegar. Eu falei: tá bom. Eu acordei cedo, 6 horas, estava com muita dor de cabeça naquele dia, tomei dipirona e acabei adormecendo e não vi ele. Todos dias eu acordo, abençoou ele, e ele vai pro trabalho. Mas ai eu deitei e dormi de novo, e sonhei. Foi um sonho. Eu pegava o celular e via duas serpentes, atrás de mim, elas subiam e desciam, sempre se mexendo. Aí eu continuei andando, tinha uma ponte, uma água bem clarinha passando, do outro lado eu via ele e falava: porque ele não passa pro lado de cá? Quando eu olhei da segunda vez, tinha um buraco enorme e uma passagem pequenininha. Eu pensava: se ele passar por ali, ele vai cair. Foi quando eu escutei as palmas.Ele (Thiago Giovanni Demarco Sena ) falou que eu tinha que ir urgente na Santa Casa, porque tinha acontecido alguma coisa com Wesner. Na hora eu comecei a chorar e perguntei o que tinha acontecido. Ele disse que era só na Santa Casa. Todo o tempo eu chorando, e ele não falava nada. Na Santa Casa o willian veio falar comigo e eu disse que não, mas nisso eu pensei que eles tinham quebrado uma perna, ou um braço, ou por alguma coisa que eles fizeram Wesner passou mal. Na minha cabeça de mãe era isso.Aí eles (médicos) me chamaram, pediram pra eu chamar a pessoa que estava me acompanhando. E falou: "a senhora sabe o que aconteceu com seu filho?" eu disse que não. Ele disse: "seu filho chegou aqui todo inchado, todo cheio de ar. Eu não dou nada pela vida do seu filho". Foi na hora que eu passei mal.Naquela hora ali eu não tinha força pra nada. Eu não tinha cabeça para chamar a polícia, a minha força era só pra ele, pra ele ficar bem. Eu fui ter a coragem de ver ele a noite, numa situação muito triste porque o menino saiu pra trabalhar e aquele dois fizeram essa maldade com ele.Estava todo inchado. Não passa pela minha cabeça tanta ruindade, eu quero ficar frente a frente a eles para perguntar o que o Wesner fez pra eles, porque o Wesner só fez bondade. Estava trabalhando, porque ele trabalhava, chegava cansado.Eu cheguei perto dele, pedi força a Deus porque a situação é muito triste, você ver seu filho cheio de aparelho. Ele sentiu, ele chorou. Eu disse a ele: meu filho, você é um guerreiro, você vai sair dessa.Eu pedi pra Deus pra trocar de lugar com ele. Falei senhor, ele jovem, eu já vivi muito tempo, troca, senhor, troca eu por ele. É muito doloroso. Aí ele foi melhorando, muita oração, foi melhorando, logo ele conseguiu sair (do CTI). Era assim, nós chegavamos lá, ele estava bem, quando chegava a noite estava no CTI, na ala vermelha. Ele ficou sete dias sem tomar água, sem comer. As pessoas chegavam com fruta, comida, e ele ficava só olhando, mas ele não reclamava. A gente via que ele queria comer, fazer as coisas, mas não reclamava, só me olhava e falava: "mãe, canta para mim". E eu cantava.Aí o médico falou assim: "hoje ele vai ter que tomar um líquido azul". Até que o médico falou, nós vamos liberar a água e uma sopinha e ele falou: "eu vou tomar um oceano de água e uma panela de sopa". Eu cheguei lá, comprei a água. Nossa, ele tomou, tomou, e falou: "ah, que delícia!" Pra mim ele renasceu de novo. Quando ele foi me contar (sobre a agressão), perguntou se eu estava forte. Falou: "mãe, nós tinha acabado de levar o carro. Nós comemos e eu sentei lá no meu cantinho e fiquei lá, aí o Willian chegou com aquele pano molhado e deu uma lapada. Eu falei: pode parar e levantei. Falei já que você está com brincadeira, paga uma coca pra mim. Ele falou que: eu vou pagar uma coca para você. Quando eu olhei para ele, ele estava transtornado, aí eu corri, mas ele me pegou e me colocou nas costas. Eu pedia socorro, socorro. Ai foi quando ele levou até o outro, travou ele, baixou as calças dele e introduziu a mangueira". Ele falou que lutou muito, sabe o que é lutar? O menino estava enorme, todo inchado, igual um balão. Você imagina, um menino sentir isso. Uma pessoa tão cruel, a maldade, como ela é grande. Um menino que só queria trabalhar, cuidar da familia, tinha sonho, o pai dele prometeu que ia tirar a carteira dele. Porque ele falava que era triste o pai dele voltar da quimioterapia dirigindo. O que ele queria era só isso e sonho, ele tinha muito sonho. Queria trabalhar, ter seu próprio dinheirinho.Esse Willian conheceu o Wesner desde pequeno. E o Wesner era um menino que falava do sonho dele, contava, dava conselho para os amigos de negócio de droga, de não mexer com as coisas dos outros, não fazer mal para os outros, era um menino amigo. Ele falou: "mãe, a senhora vai vai denunciar eles, eu quero ver eles presos, que eles paguem o que fizeram comigo". Eu falei: a prioridade da mãe é você, depois que você tiver em casa, com certeza eu vou correr atrás.Eu movo céus e terras, eu vou mesmo, eu vou lutar até o fim, enquanto eu não vejo eles presos, pagando o que eles fizeram, eu vou lutar. Que chegue logo esse dia, porque eu tenho que perguntar porque fizeram isso com ele, o que foi que o Wesner fez para eles. Por que? porque era um menino muito bom, meu companheiro, honesto, chegava aqui gritando. Ele falava que ia cuidar de nós quando a gente não tivesse mais forças pra trabalhar. "Eu vou carregar vocês, eu vou cuidar de vocês".Desde primeiro dia, eu não ando, Deus me carrega. Eu falo pra todo mundo, ora por mim, porque eu não tenho forças. A minha força vem do senhor e de oração. Quando eu estou muito triste, eu oro. Eu só falo isso, é maldade. Acaba a família, acaba o seu sonho. Porque a gente sonha que (o filho) vai se formar, estudar, se casar, ter seu filho, ter sua familia, você conhecer seus netos... eu não vou poder. Eles tiraram isso de nós.Eu espero que Deus me dê essa força e à nossa família também, à cada um de nossos amigos. Eu sinto que ele está vivo, que ele está lutando e eu estou lutando por ele, porque eu tenho certeza que ele faria o mesmo. Ele pediu para mim essa justiça e eu como mãe, com Deus na frente, eu espero justiça.
Lucila Valdonado Souza, 47 anos - mãe de Lessandro Valdonado Souza, morto aos 13 anos
Ele estudava, jogava bola, fazia coisas normais, de criança. Não saía para lugar nenhum, queria ser polícia. Era o mais novo de quatro filhos homens. Tinha treze anos, era um guri, não tinha envolvimento com nada. No dia ( que desapareceu), ele foi para escola, era uma segunda-feira, dia primeiro de agosto. Já tinha sumido outros meninos aqui, sumia e sumiu. Ninguém achava mais. A esperança era de que voltassem um dia, mas nunca voltavam.
Ele chegou da escola, era umas cinco e meia da tarde, tomou banho e saiu com a roupa do corpo. Depois daquilo eu nunca mais vi meu filho. Deu umas nove horas da noite e eu comecei a ficar preocupada, que o máximo que ele podia chegar aqui em casa era nove horas. Eu perguntava: cadê o Lessandro?
E eu ficava pensando: se ele entrou no carro, ele entrou com alguém que confiava muito, porque eu sempre instruí ele. Mas a minha esperança era de que ele voltasse com ela (Talita Regina de Souza - a cunhada) Ela sempre chegava tarde, depois das duas horas da manhã. Mas naquele dia ela chegou cedo, era uma dez horas. E isso é o mais estranho.
Ela chegou procurando alguma, acho que estava disfarçando. Eu perguntei se ela tinha visto ele por aí. Ela disse que não. A gente ficou desesperado, procuramos em tudo quanto é canto, colamos cartaz nos postes, depois arrancaram. Ninguém tinha visto nada e quando falavam que viam ele por ai, quando eu ia ver, era mentira. Passei três meses sem notícia do meu filho. Até que a polícia falou que foi minha ex-nora (que o matou), o Lessandro tinha visto ela com outro homem, e pediu pra aquele Nando fazer isso.
Eu fiquei bem triste, porque ela era de dentro de casa. Chegou aqui grávida e nós recebemos ela, cuidamos dela, demos o maior apoio. Eu levei ela no médico, cuidei das crianças, eu ia no médico com ela. Morava com nós, jamais passou pela minha cabeça que ela teria capacidade de fazer isto. Eu não imaginava que ele estava morto.
Mas um dia antes dele desaparecer, eles (Lessandro e cunhada) tiveram uma discussão muito séria aqui na sala de casa. Ele olhou para ela e disse: eu vou contar, eu vou contar o que eu sei. Eu perguntei várias vezes: Oh, lessandro, o que é que você sabe? e ele disse: não, não é nada não. Várias vezes ele falava isso aí.
Não dá pra acreditar. Eu espero que eles fiquem presos, porque ela está falando que não foi ela, que tem advogado.Tenho dois netos, de 4 e 5 anos, que são filhos dela e hoje eu que cuido deles. Mas o que eu quero é justiça. Porque se esse cara tivesse solto, teria matada mais uns dez aqui, isso não pode acontecer.
