Quando os estúdios Marvel agendaram a estreia do filme 'Pantera Negra' para a primeira quinzena de fevereiro, a advogada Odete Cardozo, 39 anos, teve uma ideia: promover a conscientização social e racial entre crianças e jovens da comunidade quilombola da Tia Eva, no Jardim Seminário (região norte de Campo Grande), com o primeiro super-herói negro protagonista de um filme.
Uma oportunidade única, segundo Odete, para apresentar às crianças o simbolismo de ver um filme com a maioria do elenco negra, em um espaço caracterizado pelo convívio da elite branca.
"Durante o filme algumas das crianças me falavam, olha eles têm o mesmo cabelo que eu. Nosso objetivo era esse: mostrar que eles são sim representados no cinema e que eles podem frequentar todos os espaços", disse Odete.
Na ficção dos quadrinhos Marvel, Pantera Negra é o alter-ego de T'Challa, rei de Wakanda, uma avançada nação africana, soberana. O uniforme é usado para defender o país dos invasores estrangeiros, interessados na rica reserva de vibranium, metal mais valioso e raro daquele universo. O personagem foi criado em 1966, pela célebre dupla Stan Lee e Jack Kirby.
Na vida real, a Comunidade da Tia Eva existe desde 1905 e mantém viva a história de Eva Maria de Jesus, ex-escrava que se estabeleceu ao arredor da Igrejinha de São Benedito e atualmente é formada com 400 famílias, 100 delas descendentes diretos da fundadora.
LUTA
Inspirada na história de Eva, Odete idealizou a excursão. Junto com suas companheiras, inicialmente o plano era fazer com que cada uma adotasse uma criança. "Pensamos que não seria justo. E decidimos levar o máximo que conseguíssimos", explicou.
Então começou a peregrinação em busca da verba necessária. Em um mês, a comunidade realizou diversos eventos. O mais célebre foi a pastelada. Depois de receberem massa e ingredientes como doação, organizaram a venda de pastéis com o objetivo de arrecadar a quantia suficiente, cerca de R$ 3,5 mil.
"Ainda não conseguimos naquele dia obter todo o valor necessário. Mas ainda bem que tivemos ajuda e conseguimos cumprir com o objetivo", disse a advogada.
O sorriso e emoção no rosto dos 92 presentes na sessão da tarde desta quinta-feira (29), no Shopping Bosque dos Ipês, falaram por si só. Muitos nunca tinham entrado em um cinema. O dia inesquecível das crianças e adolescentes, de 3 a 17 anos, foi marcante para funcionários da rede de cinema e até frequentadores habituais. Uma adolescente, de aproximadamente 13 anos, parou para fotografar o grupo no local. Situação que para a jovem era diferente, porque comentou com a reportagem nunca ter visto tantas crianças negras no shopping.
O objetivo de integração racial fui cumprido. E festejado como toda boa ida ao shopping: com hambúrguer, outra novidade para alguns dos convidados de honra da tarde.
"O plano agora é repetir isso. Mas precisaremos de apoio. Vamos lutar sempre para dar a essas crianças o melhor, os detalhes pequenos de alegria que carregarão para o resto de suas vidas", disse Odete.
VEJA VÍDEOS