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Atriz denuncia assédio em testes após estupro: 'Todos são mercadoria'

Atriz denuncia assédio em testes após estupro: 'Todos são mercadoria'

Redação

08/04/2018 - 03h00

Todos são mercadorias em filas intermináveis de teste, sem nenhum valor humano. Mandam colocar silicone para o figurino 'assentar' melhor, ou dizem, na sua cara, que você é muito alta, muito gorda ou bizarra demais. O assédio já começa aí".

O relato é da atriz e produtora paranaense Sheylli Caleffi, de 35 anos. Ela se tornou conhecida após gravar um vídeo para o canal do Dr. Dráuzio Varella no YouTube, onde falava sobre estupro. Após ser vítima, ela se tornou ativista e combate todas as formas de abuso contra as mulheres.

De acordo com ela, no meio artístico, o assédio vai muito além de elogios inoportunos, propostas de encontros e constrangimentos. Ele se estende, também, ao excesso de cobranças feitas no que se refere à beleza, principalmente na área da propaganda.

"É difícil mudar esse cenário. As pessoas querem poder e dinheiro. Nossa sociedade dá isso a homens brancos e héteros. Eles não questionam e seguem como uma manada. Ou a gente vira uma montanha no caminho dessa manada, ou vão continuar passando por cima de nós", diz.

Sheylli toma cuidado para não generalizar quando se refere às áreas artísticas. "Não é o mesmo mundo dos atores famosos, onde há muito mais dinheiro envolvido. A realidade no teatro é diferente, e as mulheres recebem reconhecimento. Trabalhar em propaganda, moda e música é muito mais difícil", diz.

A atriz se considera uma sobrevivente, já que suportou a dor da violência sexual em duas ocasiões. A primeira ocorreu na infância, quando nem pensava em seguir carreira artística. O outro ataque ocorreu há menos de um ano. "Denunciei o segundo estupro e, apesar dos esforços, há descaso e lentidão na solução por parte da polícia", desabafa.

Após passar pela experiência traumatizante do estupro, ela passou a utilizar as redes sociais para falar abertamente sobre o assunto, tendo, inclusive, criado um canal no YouTube com mensagens para ajudar vítimas de violência.

A atriz acredita que falar abertamente a respeito do assédio e dos abusos causa um impacto positivo na vida de quem já passou por isso. “Para nós, sobreviventes, muda tudo. Somos ouvidas e confiamos nas histórias umas das outras”.

No cinema

A necessidade de falar sobre o abuso fez com que outra profissional da área, a diretora de cinema santista Iasmin Alvarez, também tomasse uma atitude. Ela produziu o documentário ‘Vá Como se seu Namorado Não Fosse Gostar’, enquanto cursava o último ano da faculdade.

O filme fala sobre assédio, e surgiu quando a diretora começou a ouvir histórias de abusos nas rodas de amigas. “Já tolerei tanta coisa, e vi tanta gente tolerar tanta coisa. Muitas amigas minhas têm histórias em comum. Por que a gente não reparou nisso antes?”, conta Iasmin.

Ela lembra que, durante a produção do documentário, ocorreu um caso de assédio no próprio ambiente acadêmico, envolvendo um professor e uma colega de classe. Segundo Iasmin, demorou um ano para que a denúncia fosse feita, principalmente pelo medo de exposição que sua colega sentia. O encaminhamento da denúncia aconteceu graças a uma mobilização das demais estudantes. O professor ainda dá aula, mas em outra cidade.

Posteriormente, Iasmin organizou o projeto ‘Mostra das Minas’, que faz sessões de cinema com filmes produzidos por mulheres. A iniciativa busca dar voz a essas produções e discutir o protagonismo feminino no mercado audiovisual. A diretora explica que o tema do assédio é recorrente. "Com a 'Mostra das Minas', a gente recebe muita produção que trata desse assunto. Sempre há episódios de assédio", explica.

Contra padrões

Para o diretor de teatro santista Júnior Brassalotti, o essencial nos casos de assédio é observar como a sociedade se porta frente a uma denúncia. Ele já foi vítima de assédio, presenciou muitas situações assim, e diz existir uma “romantização” em torno da classe artística, vista como “intocável”. “É o contrário. Uma classe que reflete sobre o ser humano, sobre si mesma, que tem como obrigação pensar e formatar um futuro diferente, também possui extremas contradições”, afirma.

Trabalhando com teatro desde 1994, o diretor critica a cobrança por um padrão de beleza, especialmente na formação, e utiliza como exemplo relatos que ouviu durante sua carreira, especialmente feitos por mulheres em ambientes como o do balé, que possuem como referência o tipo físico de outros países, diferente do brasileiro. Brassalotti ressalta que é importante a classe artística parar de reproduzir o senso comum de que existe um “padrão”, quando se trata de arte.

Brassalotti acredita na informação como peça-chave para acabar com essa realidade, e define essa caminhada por mais igualdade no mercado como “trabalho de formiga”. Para o diretor, se colocar no lugar do outro é essencial para criar empatia.

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