Eles vivem da compaixão humana. Geralmente embriagados, exalando álcool e sempre em grupos, os moradores em situação de rua viraram alvo da Prefeitura de Campo Grande na batalha pelo fim da esmola. A ação começou ontem com invetimento de R$ 40 mil do Ministério do Desenvolvimento Social em divulgação maciça com panfletos, outdoor, cartazes e paineis publicitários pela cidade.
O objetivo é que as 350 pessoas que moram na rua da Capital percam a facilidade de viver de doações e passem a integrar as políticas públicas de assistencialismo, sendo reinseridas na sociedade. A experiência desta administração não tem conseguido sucesso nas tentativas de atuação neste sentido.
Segundo o diretor-presidente da Funsat, Cleiton Franco, 119 pessoas foram reinseridas na sociedade, mas por pouco tempo. “Elas ficam dois meses no máximo fora das ruas, mas desistem. Depois nunca voltam para tentar novamente. Tinha que ter uma clínica para elas permanecerem. Tudo vem muito fácil na rua e fica muito cômodo. O governo tem dado condições, mas eles têm que querer”.
A situação também esbarra no judiciário. Na última semana, por exemplo, um morador de rua foi flagrado por câmeras de segurança destruindo parte do Peg-Fácil na avenida Afonso Pena. Ele já havia sido preso outras vezes dias antes do incidente.
“Falta integração do poderes, entre segurança pública e o judiciário. Hoje fazemos nosso trabalho, mas quando entregamos para a Justiça esse cidadão volta para a rua, em liberdade. Acho que ações conjuntas como esta vão estar diminuindo a criminalidade a médio e longo prazo”, disse o representante do 1º Batalhão de Polícia Militar da área central, responsável pela comunicação social, 1º Tenente Thiago Mônaco Marques.
O prefeito Marcos Trad (PSD) afirmou que muitos desses moradores recebem mais que um salário mínimo nas ruas e por isso não tem vontade de sair desta situação. “É natural do ser humano ter misericórdia e dar para essa pessoa uma esmola. Mas será que isso é fazer o bem? Seria muito melhor você pegar essa pessoa, acolher e dar uma qualidade de vida a ela. Mas será que ela quer isso?”, reflete.
A alternativa que o município está oferecendo é o convencimento. “Estamos oferecendo a noção exata que o que ele está fazendo aqui é um prazer momentâneo e vai acabar rapidamento. Nada impede que ele peça esmola aqui e vá praticar o furto à noite. Mas não posso obrigar ninguém a sair daqui para ir ao acolhimento. Não temos ordem judicial para isso”.
Quanto aos casos recorrentes de crimes envolvendo esse tipo de pessoa, Trad disse que a prisão é a exceção e a regra é a liberdade. “Nós vivemos em um Estado democrático de direito que o magistrado não pode segregar a liberdade de qualquer cidadão, desde aquele que cometa o pior dos delitos, àquele que furta um chiclete. A lei é para todos e com certeza absoluta o magistrado não viu elementos suficientes para segregá-lo e afastá-lo da sociedade, portanto eu confio no poder judicionário”
REALIDADE
A reportagem encontrou um grupo de moradores de rua em frente a Igreja Santo Antônio, no Centro da Capital. Bem arrumados, mas com forte cheiro etílico os homens compartilhavam um litro de pinga entre eles. A história de todos era a mesma, ninguém ali “combinava” mais com a família.
Usuários de alcóol e drogas ele afirmam que a família deles é a rua. “A gente ganha bem aqui. Em 15 dias conseguimos juntar R$ 2,5 mil cuidando de carros. Mas a gente toma muita pinga e fuma muito”, disse Nivaldo que não quis entregar o nome completo. Vindo de Maracaju, no interior do Estado, o homem bastante debilitado e com a boca toda inchada com sinais de espancamento afirma estar nesta situação há 28 anos.
“Essa campanha não vai dar certo. Se a Prefeitura tirar a gente da daqui, vai levar para onde? A casa do prefeito? Para o Cetremi nós não vamos”, disse bastante revoltado. O parceiro de rua dele, Luciano Ribeiro Gomes, 38 anos, está na mesma situação desde quando tia oito anos. Ele afirma que não há ajuda do poder público, só das pessoas que se compadecem com a situação deles. “A gente não passa fome não. Se duvidar como melhor que você. Todo dia tem café da manhã, almoço, lanche e janta. Tem dia que como feijoada, dobradia e churrasco. A gente escolhe o que vai comer”.
Para João, 50 anos, se as pessoas pararem de dar dinheiro para ele e seus companheiros a violência na cidade com certeza vai aumentar. “É melhor pedir ou roubar? Se a gente não conseguir mais dinheiro vamos ter que roubar mesmo”. Guilherme, o jovem de 24 anos que integra o grupo completa. “Aí vou meter o louco”. O Comitê Pop Rua que trabalha com o acolhimento dessas pessoas vai emitir uma nota pública com relação a campanha da esmola.