Associados de maneira estável e trabalhando em núcleos, policiais corruptos recebiam até R$ 100 mil por mês para dar trânsito livre ao contrabando de cigarros nas cidades de fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai.
As informações constam no pedido de prisão preventiva feito pelo Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) ao juiz Alexandre Antunes da Silva, da Auditoria Militar.
Além de revelar o envolvimento de 31 policiais no esquema e indicar participação de outros agentes de segurança, ainda não identificados, o documento detalha a organização da quadrilha conhecida como “cigarreiros”.
Conforme o documento do Ministério Público Estadual, as investigações se iniciaram em 2017, após denúncias de militares que não concordavam com a corrupção dos colegas e que de tão frequente passou a ser de conhecimento geral nos municípios e a render “má fama” à corporação.
Investigadores descobriram que um “mensalão” era pago a militares conforme a posição que cada integrante ocupava dentro da organização criminosa e também de acordo com a patente de cada um deles.
Para desvendar como a quadrilha funcionava, além de gravações telefônicas, os sigilos bancário, fiscal e telemático (de meios de comunicação) dos envolvidos foram quebrados.
Por meio das interceptações, o Gaeco descobriu que, para facilitar o andamento do esquema, o grupo foi dividido em dois núcleos, sendo um da região de Jardim/Bela Vista/Bonito e outro de Dourados/Maracaju/Mundo Novo.
O primeiro, supostamente liderado pelos oficiais presos na operação, os tenentes-coronéis Admilson Cristaldo Barbosa e Luciano Espíndola da Silva e o major Oscar Leite Ribeiro, e o outro por demais militares “recrutados”.
“Foi possível constatar o estreito relacionamento entre os investigados e conhecidos contrabandistas de cigarros com atuação em Mato Grosso do Sul, podendo ser citados Kelvis Fernando Rodrigues, o Cabelo, Alcides Carlos Grejianim, o Polaco, Ângelo Guimarães Ballerini, o Alemão, entre outros”.
Ainda conforme a denúncia, a maior parte dos policiais começou a se envolver com o crime organizado em 2016, mas as investigações indicam contribuição dos militares com o contrabando desde 2015.
“Por esse motivo, já há alguns anos, o cigarro contrabandeado circula praticamente sem fiscalização da Polícia Militar pelas rodovias de Mato Grosso do Sul. As apreensões, salvo raras exceções, são pífias, ante a quantidade transportada”, afirmou o MPE, ao solicitar a prisão do grupo.
OSTENTAÇÃO
Ainda de acordo com trechos do pedido de prisão, o esquema, bastante rentável, fez com que o patrimônio de muitos dos investigados mais que triplicasse nos últimos anos.
Com tanto dinheiro nas mãos, o grupo passou a comprar viagens, veículos e imóveis de luxo. Ostentação que só confirmou dezenas de denúncias já investigadas pela Corregedoria da Polícia Militar.
Entre os casos que mais chamaram atenção dos investigadores está o do cabo Aparecido Cristiano Fialho. Com salário de R$ 4.497,53, ele teria acumulado patrimônio de R$ 7 milhões.
Para o Gaeco, as “organizações criminosas especializadas na atividade acabaram por penetrar na estrutura estatal, no caso, dentro das forças de segurança das mais variadas corporações, (policiais civis, militares e rodoviários federais), dando azo a uma estrutura paralela, formada por agentes corruptos de diversos níveis de atuação e de hierarquia”.