O Carnaval de rua em Campo Grande, realizado na Esplanada Ferroviária, poderá ter outro endereço a partir de 2019. Moradores e comerciantes da região denunciaram ao Ministério Público do Estado (MPMS) diversos problemas que ocorreram durante a folia este ano e conseguiram reunir 1,5 mil assinaturas de quem quer a festa saia da região.
Entre os problemas relatados por quem viu de perto o caos provocado nas principais ruas do centro está a violência, foram diversos roubos, furtos e brigas, além de uso de álcool e drogas livremente - especialmente por adolescentes. A saudade é de quando o único problema era a passagem dos trens no cruzamento das avenidas Afonso Pena e Calógeras. “O apito do trem era uma alegria, abençoado”, afirma a proprietária do Hotel Gaspar, aberto há 64 anos, Christian Gaspar Melim.
“A impressão que temos é que o Carnaval foi bem organizado apenas dentro da esplanada. Do portão para fora não pensaram na segurança das pessoas. O centro virou um banheiro a céu aberto, as pessoas faziam suas necessidades em qualquer lugar, não tinha banheiros químicos. Além disso, os ambulantes tomaram conta das ruas, não dava para entrar e sair de carro, só a pé. Mas as ruas não estavam oficialmente interditadas, foram as pessoas que fizeram isso”, explicou a empresária.
O ferroviário aposentado, Nênio Waldir Roas, morador da região há 30 anos, também se preocupou com a situação. “As pessoas só saiam da rua quando a polícia vinha tirar. E era a base de bomba mesmo, só assim para irem embora. Foram brigas diversas, crianças e adolescentes usando drogas na porta da casa da gente, e não podíamos fazer nada. A gente foi ameçado o tempo todo, mandavam a gente ir para dentro de casa”.
O Batalhão de Choque da Polícia Militar precisou agir para tirar os foliões da rua em todas as noites do Carnaval deste ano, mas em nenhum momento, de acordo com os moradores e comerciantes, a polícia ou a prefeitura agiu preventivamente para controlar os abusos dos ambulantes e tráfico de drogas. “Por ser um lugar menos visado, a orla ferroviária está sendo tomada por traficantes. A gente vê pessoas comprando, vindo buscar, todo dia, e não é de noite não, é na luz do dia”, afirma outro morador, que não será identificado na reportagem.
A Superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Estado, Maria Clara Scardini, explicou que a área da Esplanada onde aconteceu o Carnaval é tombada, porém foi feita fiscalização para garantir proteção do local. “Nós fizemos vistorias diárias, houveram pequenos problemas pontuais solucionados imadiatamente que poderiam causar problemas, como ligações elétricas. Temos que fiscalizar também o entorno, mas no Carnaval nos concentramos apenas no quadrilátero”. A área tombada abrange a Esplanada e ainda ruas do entorno, entre a Avenida Calógeras e Rua 14 de Julho e da Rua General Melo até a Avenida Mato Grosso.
A titular da 26ª Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Histórico e Cultural de Campo Grande, Luz Maria Pinheiro, abriu inquérito civil para apurar a ocorrência de danos à Esplanada Ferroviária que é patrimônio histórico e cultural tombado pelos três entes federativos (União, Estado e Município), justamente por conta dos grandes eventos no local. “Depois do Carnaval houve tentativa de manter as festas durante uns quatro fins de semana, felizmente conseguimos dispersar as pessoas, pedimos rondas da Guarda Municipal. Mas toda vez que tem evento na Esplanada a situação volta, porque a prefeitura libera e não tem um responsável, alguém que assuma e resolva a questão”, opina Christian.