A loja grande, de paredes vermelhas e Blindex na fachada, chama a atenção de quem passa pela rua onde o principal prédio é o Complexo Penitenciário de Mato Grosso do Sul. A menos de cinquenta metros de quatro penitenciárias, incluindo presídio de Segurança Máxima de Campo Grande, onde cumprem pena pouco mais de 4,9 mil presos, Dirceu fez a vida. Junto com a esposa, terminou de criar dois dos três filhos e agora aguarda tranquilo a aposentadoria. Nesse meio tempo, abriu o primeiro comércio da região.
“Quando eu cheguei aqui [pela] primeira vez, era literalmente só mato. Não tinha nenhuma casa e era malfalado por causa do presídio, mas eu sabia que o bairro cresceria. Aí, tive a ideia de crescer junto com ele. Peguei os filhos e esposa, saí lá do centro e abri uma portinha aqui”, relembra José Dirceu Vilalba, 65 anos.
Em 18 anos, a loja do comerciante, que antes tinha pouco mais de três metros quadrados, hoje está com 7 por 11 metros e vende de tudo um pouco. “Desde roupa à perfumaria, utilidades. No fim do mês, dá pra pagar as contas”, diz.
Natural de Bela Vista, Dirceu conta que jamais pensou em deixar o bairro, nem mesmo em razão dos problemas de segurança, pelo qual a região é conhecida. “Tem muita gente que pensa que só quem mora aqui é parente de preso, que aqui tem muito crime. Falam mal do bairro. Mas eu não tenho o que falar, nunca fui assaltado, tenho segurança 24h por causa da guarita do presídio, conheço todo mundo, sou muito feliz aqui. Sei que temos problemas, mas todo lugar tem. Eu só saio daqui se for para viver de paletó de baixo da terra”, brinca.
CRESCIMENTO
Assim como Dirceu, outras milhares de pessoas escolheram o Noroeste para viver nos últimos anos. Entre os bairros da Capital, a região teve a maior taxa média geométrica de crescimento anual de população, entre 2007 e 2010, de 10%.
Com área de 773,49 hectares, o bairro tem 13.167 moradores, conforme o último censo demográfico, de 2010, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Porém, os investimentos em infraestrutura não acompanharam esse crescimento. O bairro não tem o mínimo de infraestrutura. O asfalto está apenas nas ruas onde há circulação de transporte coletivo, enquanto a maioria das ruas estão em péssimas condições.
Apesar do grande número de crianças e de adolescentes, a região tem duas escolas municipais e apenas um Centro de Educação Infantil. Uma esperança está na Praça da Juventude, uma obra que está parada há mais de cinco anos. A área está reservada como espaço de convivência comunitária para atividades culturais e, agora, há perspectiva de que seja retomada, conforme anunciou a prefeitura no mês passado.
“Isso é realmente algo que precisamos muito. Não tem lugar para nenhum tipo de diversão aqui, e as famílias são muito carentes, precisam. Acho que seria uma grande conquista”, considera um morador.
CARÊNCIA
Com paredes de madeira cobertas com lona, o espaço pequeno, com pouco mais de dois metros quadrados, abriga uma cama, fogão, geladeira, televisão e armários improvisados, onde a mãe de família coloca roupas e objetos de cozinha. À tarde, as duas crianças tiram uma soneca na cama, mas à noite, quatro dividem a cama.
Há quatro anos, a dona de casa Fernanda Braga Cabral, de 25 anos, mora com os dois filhos pequenos e o marido, numa espécie de favela que fica dentro do Noroeste. “Decidimos vir para cá por falta de opção mesmo. Não estávamos conseguindo pagar aluguel e a gente não tinha pra onde ir com as crianças. Meu marido soube que aqui tinha uma invasão, então montamos o nosso barraco”, conta.
A história da família não é a única no bairro. Apesar do crescimento expressivo e rápido, a região é uma das mais carentes da Capital. Pelo menos 44% dos moradores do Noroeste não têm renda mensal.
Na casa de Fernanda, só o marido trabalha para sustentar a família. Mas a dona de casa não reclama da vida, muito menos do bairro. A esperança está em receber uma casa por meio da prefeitura ali perto, onde estão construindo um novo loteamento. “Aqui tem muita gente boa, o que você precisa, você tem. Sempre tem alguém para ajudar”, finaliza.