Mato Grosso do Sul é influenciado pelas bacias dos rios Paraná, nas regiões leste e sul, e Paraguai, nos lados norte e oeste do Estado. O Paraná nasce do encontro dos rios Grande e Paranaíba e é o segundo mais extenso do Brasil, com 4 mil quilômetros. Por sua vez, o Paraguai começa na Chapada dos Parecis, em Mato Grosso, e tem 2,6 mil quilômetros de extensão, sexto maior do País.
A arqueóloga e coordenadora do Museu de Arqueologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Emília Kashimoto, expõe que os diferentes ecossistemas do Estado são fatores importantes na construção da relação do sul-mato-grossense com a natureza.
“Mato Grosso do Sul tem três biomas: o Cerrado, o Pantanal e a Floresta. Não por acaso, as sociedades pré-coloniais tinham uma profunda relação com os alimentos, os animais, com tudo aquilo que era daquele ambiente. Os povos do Cerrado são diferentes dos povos da Floresta, que são diferentes dos povos do Pantanal. Tanto hoje quanto no passado indígena, como também no passado pré-colonial”.
Hoje, poucos dias de folga já bastam para o sul-mato-grossense lotar pesqueiros, hotéis-fazendas, cachoeiras, balneários. A professora e historiadora Alisolete Antônia Weingartner destaca que, “embora a gente more no Cerrado, temos essa ligação com a água. Com a natureza. A gente quer respirar, quer um ar limpo. É uma outra peculiaridade da nossa cultura”.
Não é à toa que as principais atrações turísticas de Mato Grosso do Sul estão diretamente ligadas ao meio ambiente. É o caso da cidade de Bonito, premiada como melhor destino de ecoturismo do Brasil por diversas vezes. Entre os principais pontos estão os rios Formoso e Sucuri, de águas cristalinas, além das enigmáticas Gruta do Lago Azul e Caverna do Abismo Anhumas.
O Pantanal, maior planície inundável do mundo, não fica atrás no quesito beleza natural. Passeios fluviais e pescarias nos rios que compõem o bioma se aliam a atrativos históricos, como o Forte Coimbra, em Corumbá, construído às margens do Rio Paraguai e palco de batalhas durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870).
PANTANEIRO
Para o professor da UFMS e doutor em Geografia, Antônio Firmino de Oliveira Neto, a natureza ajuda a construir pelo menos duas frentes distintas de identidade
do Estado.
“O [povo] do Pantanal tem uma cultura específica, ditada pelas águas. O subir e o descer das águas impôs ao longo dos séculos uma cultura própria do povo pantaneiro. Já o povo do Cerrado é uma mistura.
Tradicionalmente, [a área] foi ocupada pelo gado. Então, tem uma cultura do gado muito forte, mas de cinquenta anos para cá isso tem sido dividido também pela cultura do agronegócio, que impôs uma forma diferente de agir e de se postar diante do mundo”.
Segundo Oliveira Neto, o homem pantaneiro é forjado a partir do isolamento. “Quando as águas sobem, ficam ilhas, que a gente chama de colinas, que é onde ficam as sedes das fazendas. As pessoas passam às vezes meses assim, onde a comunicação é muito difícil. A natureza é fundamental nisso”.
O professor aponta ainda que a harmonia com a natureza e a noção de preservação ambiental do sul-mato-grossense foram herdadas do pantaneiro. “O regime de águas impôs ao pantaneiro um trabalho diferenciado com o gado, de mudar o gado na época certa. Senão, a água vem e mata o gado. Ele aprendeu a lidar com a natureza do Pantanal, e isso fez com que, de certa forma, o Pantanal fosse preservado”.