Piadas com atrasados do Enem pode configurar linchamento virtual. Especialista alertam que linha que separa a brincadeira da ofensa é tênue e, de acordo com professora da Unesp, Luciene Regina Paulino Tognetta, que atua na prevenção do bullying, em entrevista ao G1, a profissional alega que até aqueles que apenas compartilharam publicações agressivas podem responder na Justiça pelo crime.
Em Campo Grande tiveram poucos atrasados inscritos para o exame e apenas alguns quase ficaram para fora dos locais de prova. Porém, brincadeira de Youtuber chamou atenção.
Logo após o relógio marcar meio-dia (horário de MS) e os portões da Uniderp, um dos locais de prova, se fecharem, o lojista Gabriel Batista, de 25 anos, surgiu vestido de árabe fingindo ser um candidato atrasado. “Me deixa entrar! Alá [Deus para os árabes] vai castigar vocês! Vou explodir vocês!”, gritava o Youtuber enquanto se pendurava no portão e fingia que tinha explosivos em uma mochila.
Conhecido na internet como ‘Biel 44k’, o canal de Gabriel faz pegadinhas e desafios. “Meus seguidores me desafiaram a fazer isso, fingir ser um atrasado. Devo fazer de novo no domingo que vem, na segunda prova. Ainda não sei aonde e o que farei, mas vai rolar”, disse.
Porém, a brincadeira não foi aprovada e nas redes sociais leitores estão criticando a atitude do youtuber. “Não teve graça. Devia usar seu tempo, energia e “criatividade” fazendo algo de útil”, declarou uma das leitoras.
De acordo com a professora, especialista em prevenção do bullying, em entrevista ao G1, ela explica que é necessário entender que a brincadeira pode passar a ser desrespeito com o outro, já que não temos como saber se a outra pessoa também está achando graça do acontecido. A especialista apela para que pessoas se coloquem no lugar da vítima para saber se gostariam de estar naquela situação.
Quando as agressões virtuais partem de colegas e conhecidos da vítima, os especialistas consideram isso uma prática de cyberbullying. Já quando as agressões vêm de desconhecidos, muitas vezes com perfis anônimos, o caso é conhecido como linchamento virtual. “Potencialmente é muito mais prejudicial porque não tenho como me defender de pessoas que desconheço”, explicou Tognetta.
Segundo ela, como a vida virtual oferece o anonimato, as pessoas podem achar que estão em uma posição superior e que não serão pegas cometendo a agressão. “Mas é mentira, porque se houver processo, se houver rastreamento, todas as pessoas que compartilharam podem ser punidas também. E as pessoas não têm a dimensão do quanto isso é perigoso”, alertou.