Na 17ª semana de vida na barriga da mãe, a menina que ainda não tem nome será a caçula de cinco filhos e a primeira a nascer no Brasil. De família venezuelana, ela chega para dividir o que os pais só conseguiram do lado de cá da fronteira: casa, comida e trabalho.
A mãe, Beatriz Ramirez, e o pai, Miguel Malave, são venezuelanos, cada um de uma cidade, e se conheceram nas ruas de Boa Vista, estado de Roraima. A capital os recebeu em janeiro de 2018. Ele chegou a Campo Grande em maio, ela, dois meses depois, com a missão de trabalhar para buscar os filhos que ficaram com a avó no país de origem.
Brayner é o mais velho, tem 13 anos, e verbaliza a saudade que sente. Pede para voltar à Venezuela, na ingenuidade de quem não entende o que se passa no país. Depois dele, vem Davi, 9 anos; Wilmely, de “siete” – como ela mesmo responde em espanhol –, e Mia Antonela, 3 aninhos. Tímidos para a reportagem, eles conversam entre si só na língua materna e, durante o tempo em que estivemos lá, ouvimos a pequena brincar de contar até “diez”.
A escola, eles vão passar a frequentar agora. Os meninos só chegaram em dezembro, depois que Beatriz foi buscá-los para fazerem de Campo Grande o lar da família. Na bagagem, veio também a “harina”, a farinha para fazer “arepa”, comida típica venezuelana. Com protocolo de refugiados, Beatriz é ajudante de serviços gerais em uma padaria, e Miguel, auxiliar de pizzaiolo. Os dois com carteira de trabalho assinada.
“De profissão? Eu faço de tudo, eu sou barbeiro, trabalho com barbearia”, conta Miguel, 20 anos. A vinda deles para o Brasil e, depois, para Campo Grande, com o programa de interiorização para acolhimento de refugiados, foi para fugir da fome. “Pela situação... Não tem jeito lá, não tem trabalho, não tem nada”, desabafa Miguel. A esposa completa: “A preocupação maior é que não tem comida, não tem o que comer na Venezuela”, reforça Beatriz, 29 anos.
PROJETO - Eles são parte do projeto MS Acolhe, da organização humanitária Fraternidade sem Fronteiras. No programa, eles recebem casa, comida e todo o suporte para recomeçar a vida aqui, com a ajuda de uma tutora fraterna que zela pela família e a acompanha nesses primeiros passos. “O que eu mais gostei daqui, sinceramente, foi o interesse na gente. Em que país você vai e te perguntam se você comeu ou não, se tem roupa, se não tem? Nós temos ajuda aqui, temos pessoas como a Lívia”, aponta Beatriz para a tutora fraterna.
O acolhimento deu a eles uma casa mobiliada, com dois quartos, sala, cozinha e banheiro, na rua que reflete o semblante deles: Rua do Sorriso. Ansiosas, as crianças, que só ficam em casa, mal esperam para o início das aulas. Como a Venezuela não dá o histórico escolar, os pequenos vão ter de passar por um teste de nivelamento de matemática para serem colocados nas turmas.
De Campo Grande, o casal esperava o que vive hoje: estabilidade, casa e trabalho. Como mãe, Beatriz queria uma vida melhor para os filhos e, ao lado do marido, um futuro para todos. “Um salário aqui dá para fazer mercado. Lá você tem que trabalhar todo o mês para pegar um frango e acabou”, compara Miguel. E se a família optasse por comprar itens básicos de higiene, como escova de dentes e sabonete, a comida ficava para o próximo mês. Todos eles têm um triste relato de terem passado fome e se alimentado com manga. A fruta, lá, dá briga entre vizinhos. “Quem tem um mato de manga, é para aquela pessoa, ninguém pode tocar”, explica Beatriz.
O “portunhol” sai aos poucos, mas a compreensão da língua portuguesa é perfeita. De todas as dificuldades que eles trazem na memória, aprender um novo idioma é a menor delas. “De que comida brasileira gostamos? Qualquer comida a gente vai gostar, porque lá não tem”. A frase de Miguel tem o peso de quem já sentiu o aperto da fome, mas vê com esperança o novo horizonte.
A gratidão vem em primeiro plano. Miguel diz que funciona assim: “Lembrar e agradecer”. Como passos subsequentes de quem se recorda do passado e agradece pelo presente. A saudade segue no coração. “Todo o dia a gente pensa que, se melhorar, dá para voltar para matar as saudades, mas só por isso. Porque a gente saiu para começar do zero, e aqui a gente tem casa e trabalho. Voltar seria começar do zero de novo”.
PEDIDOS DE REFÚGIO - A crise na Venezuela está mais perto dos sul-mato-grossenses do que podemos imaginar. Em meio à disputa de poder envolvendo o presidente Nicolás Maduro – cujo mandato é questionado por quase todos os países das Américas – e o Juan Guaidó, líder da oposição e reconhecido como mandatário venezuelano por quase todas as nações sul-americanas, estão os incontáveis cidadãos do país vizinho que buscam reconstruir a vida no Brasil. Em Mato Grosso do Sul, há quase uma centena deles que tentam entrar por meios legais e muitos outros vivendo na clandestinidade.
Nos últimos três anos, quando a crise na Venezuela se agravou, o número de cidadãos daquele país que pediram refúgio na Polícia Federal de Mato Grosso do Sul quadruplicou. O total de vistos temporários mais que triplicou.
Números da Superintendência da PF em Mato Grosso do Sul mostram que em 2017, ano em que Nicolás Maduro conseguiu uma controversa aprovação da nova Constituição do país, cinco pessoas pediram refúgio no Estado. Os pedidos de visto de residência temporária foram dez neste mesmo ano.
Em 2018, ano em que Maduro foi reeleito em uma eleição questionada por quase todos os países ligados à Organização dos Estados Americanos (OEA) e quando o efeito dos embargos econômicos ao país sul-americano agravaram a crise econômica, o total de solicitações de refúgio chegou a 22, e a solicitação de vistos de residência temporária, a 38. Neste ano, a PF recebeu, por enquanto, um pedido de refúgio.
Conforme a Polícia Federal, nenhum dos pedidos de refúgio solicitados por venezuelanos foi concedido pelo Conselho Nacional de Refugiados (Conare). Aliás, nos últimos três anos, somente pedido de um boliviano foi validado pelo órgão ligado ao Ministério da Justiça. O refúgio só pode ser concedido para cidadãos cujos direitos humanos tenham sido gravemente violados. Isso ocorre quando a liberdade ou a integridade física correm sério risco em seu país de origem.