Medicamentos de uso contínuo e aqueles indicados em caso de urgência, até os considerados mais “baratinhos”, estão em falta na Rede Pública de Saúde de Campo Grande. O problema ocorre há três meses e deve demorar pelo menos mais 15 dias, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), para que parte dos estoques sejam repostos. No total, 60 medicamentos da lista de 300 itens que deveriam estar disponíveis para os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) simplesmente não são encontrados nas farmácias das unidades de saúde da Capital.
Para os pacientes com doenças crônicas o desabastecimento representa verdadeiro drama. Em alguns casos, os doentes não conseguem comprar com recursos próprios os remédios que devem ser ministrados diariamente e, por isso, amargam dores e vivem em risco do quadro de saúde piorar.
A falta de alguns remédios já chega há quase três meses nas farmácias das unidades de saúde da Capital. Muitas pessoas relataram à reportagem do Correio do Estado que moram em regiões distantes da cidade e, mesmo assim, foram até o Centro de Especialidades Médicas (CEM) na esperança de encontrarem medicamentos que chegam a custar R$ 5 em farmácias particulares.
No topo da lista dos remédios em falta estão os de controle de diabetes e pressão, porém, até mesmo uma simples ranitidina – indicado para tratamento de úlcera no estômago – não pode ser encontrada em algumas unidades. O medicamento é vendido em farmácias particulares por R$ 10.
Tereza Ferreira, 79 anos, sofre de fortes dores no estômago e também tem problemas de colesterol e pressão alta. “Moro na Vila Carlota. No posto de lá não tem remédio, vim no CEM e também não tem. Perdi a viagem”, lamentou ela ao relatar que o agravante é a questão da receita. Com a demora, o pedido feito pelo médico de Tereza acabou vencendo (a receita vale apenaspor 30 dias), e agora ela terá de remarcar consulta para adquirir novo receituário e tentar pegar o remédio.
A cartela do medicamento para controle do colesterol, com 30 comprimidos, pode ser encontrado por até R$ 5 na rede particular. “Não tenho condições de pagar por isso, e não é só ele: tenho uma lista de medicamentos. Ainda bem que tenho ônibus de graça e então só perco o tempo mesmo”, observou. Porém, ela reclamou que passa mal todos os dias, com tontura, dor de cabeça e mal-estar. “Preciso do medicamento para viver bem”, disse.
Cícera Delmondes, 63 anos, também perdeu a viagem até o CEM, pois não encontrou o medicamento que precisa para o controle da diabetes, que na farmácia do posto está em falta há dois meses. Na rede particular o medicamento custa R$ 37,66. “Não tenho como comprar esse remédio. Estou passando mal todos os dias”.
A Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou que a regularização do estoque de medicamentos está prevista para ocorrer ainda na primeira quinzena de agosto. As justificativas para a falta dos remédios são de demora na entrega pelos fornecedores, problemas burocráticos na aquisição dos medicamentos e falta de matéria-prima necessária para fabricação pelos laboratórios
O processo licitatório é o principal responsável, de acordo com a Sesau, para o desabastecimento. Isso porque algumas empresas apresentam baixos preços, vencem, depois pedem reajuste e, por fim, não entregam os produtos.
Vacinas básicas e obrigatórias estão em falta
Mas o problema na saúde pública em Campo Grande não tem sido apenas os medicamentos que estão em falta. A reportagem do Correio do Estado denunciou, na semana passada, que vacinas obrigatórias também não podem ser encontradas em postos.
A justificativa do Ministério da Saúde é de que a falta é decorrente de falhas no processo de importação e armazenagem de doses. Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que a tetraviral – que imuniza contra sarampo, caxumba, rubéola e varicela – é analisada pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS).
Já a vacina DTP (a tríplice bacteriana, que imuniza contra difteria, tétano e coqueluche), que é adquirida via Fundo Rotatório para Aquisições de Imunobiológicos da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS), teve problema de variação de temperatura no transporte para o Brasil.
De acordo com declaração do prefeito da Capital, Marcos Trad (PSD), durante agenda ontem (31), “não estão fabricando determinadas espécies de vacinas. Outras, nós abrimos licitação e deu deserta”, justificou.
Sobre judicializar a questão, Marcos Trad disse que a causa foi apresentada para a promotora de Justiça Filomena Aparecida Depólito Fluminhan. “Nós estamos repondo as mais urgentes, estamos fazendo compra até mesmo com caráter de emergência. Mas hoje o estoque está em torno de 88%, e não mais 15% como era há dois anos e meio atrás”, reforçou o prefeito.