Pesquisadores do Hospital das Cínicas da Universidade de São Paulo (USP) estão desenvolvendo um programa que identifica insuficiência respiratória pela voz. O mecanismo servirá para ajudar a tratar a tempo as vítimas silenciosas da Covid-19, que muitas vezes já estão com os pulmões comprometidos, mas não sabem porque não apresentam qualquer sinal externo. Quando passam mal e procuram ajuda, é tarde demais.
Foi o que quase aconteceu com o Guarda Municipal Reinaldo Marques de Matos, em Campo Grande. Ele é sobrinho de uma das primeiras pacientes que morreram com novo coronavírus na cidade, testou positivo, tinha febre, mas sem qualquer sinal de que os pulmões estavam afetados.
Ele procurou o Proncor porque a temperatura não baixava, mesmo com os antipiréticos e o médico pediu radiografia. Foi quando a pneumonia foi identificada.
Não estava sentindo nada. Mesmo assim, pediram internação de três dias. Fiz a radiografia. O médico disse que estava com princípio de pneumonia. Fizeram uma gasometria e a oxigenação do meu sangue não estava normal, bem abaixo. Entendemos que a Covid estava tentando tomar conta do pulmão e fui para a UTI por cinco dias, sem intubação, mas com oxigênio”.
Sabe-se até o momento graças às pesquisas científicas que o vírus impede que o sangue circule corretamente pelos alvéolos pulmonares.
Anna Shafferman, professora da Faculdade de Medicina da USP, afirma que a doença tem progressão lenta. Os pacientes evoluem para a piora do quadro clínico após o sétimo dia de infecção e entre o oitavo e o 11º ocorre um agravamento súbito.
Isso acontece porque a doença atinge o órgão de um modo mais intersticial, entre o alvéolo e capilar.
Normalmente, os pacientes com Covid têm saturação entre 85% e 87%, o que é muito baixa. Ao Correio do Estado, Reinaldo contou que o momento em que a ficha caiu foi quando teve de fazer um exame. “Tinha que ficar dez segundos sem respirar. Eu quase não consegui e não tenho problemas com fôlego. Depois que me recuperei, ainda no quarto do hospital, prendi novamente o ar e fiquei até mais que dez segundos, então, de fato, era o coronavírus”.
Hoje ele recomenda a todos os que por ventura vierem a ter sintomas da Covid que procurem ajuda o mais rápido possível. “Graças a Deus eu tive o que chamo de antecipação de todas as dores porque fui medicado antes e tive uma boa recuperação”, completa.
FALA
O programa desenvolvido na USP funciona no computador. Os testes podem ser feitos até por telefone. O projeto foi batizado de Spira (Sistema de Detecção Precoce de Insuficiência Respiratória).
Serão analisadas as quantidades de pausas, padrões de respiração, alterações na frequência, etc. Manifestações invisíveis de que o sistema respiratório não vai bem.
O software será “treinado” com arquivos de áudio com vozes de falantes da Língua Portuguesa de todas as regiões do Brasil reunidos ao longo dos últimos 50 anos. Depois, será adaptado para classificar os pacientes com menos amostras de vozes.
Pesquisadores também estão recebendo arquivos de voz no site do projeto. Mais de sete mil voluntários já acessaram a plataforma. Apenas uma frase já é suficiente.