Especialistas alertam: é preciso ter critério para fazer testagem em massa da população como quer o Ministério da Saúde.
Em reunião no Senado, o ministro interino general Eduardo Pazuello e o secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo Correia de Medeiros, afirmaram que 24% da população deve fazer o exame, o que resultaria em mais de 50 milhões de brasileiros.
Ainda não foram divulgadas datas ou procedimentos que serão adotados.
A dupla de gestores anunciou apenas que 12% dos habitantes fariam os chamados testes rápidos (que identificam quando a pessoa já teve o vírus e criou anticorpos) e outros 12% o RT-PCR (que identifica DNA ou RNA de vírus ainda ativos no corpo).
Medeiros disse aos parlamentares que as informações sobre o programa devem ser divulgadas em breve, mas garantiu que a chefia pediu para que a ação fosse agilizada para ser feita o quanto antes.
CAUTELA
A epidemiologista de Mato Grosso do Sul Márcia Dal Fabro disse ao Correio do Estado que a estratégia é válida, mas não pode ser feita aleatoriamente.
“Depende do que ele quer procurar. Se ele quer procurar pessoas que já tiveram a doença e já tem defesa, tem quer ser teste rápido com sorologia. Se quer pegar pessoas contaminadas no momento, tem que ser o RT-PCR”, afirma.
Também é necessário um levantamento para garantir que os kits sejam aplicados em uma amostra válida, que resulte em estatísticas válidas.
“Fica muito difícil fazer teste de triagem aleatório. Tem que ter critérios, tem que ser analisado entre os epidemiologistas, com os profissionais que lidam com a vigilância. Cada local tem sua realidade, estamos em período de transmissibilidade e tudo isso tem que ser avaliado”, pontua.
O epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Júlio Croda, afirma que o tipo de teste utilizado também tem que ser cuidadosamente escolhido diante dos objetivos da ação, pois cada um serve para apontar um tipo diferente de dados.
“Teste rápido não serve do ponto de vista de identificação e isolamento. Ele tem que ser usado em estudos epidemiológicos de prevalência, para entender quantos por dento da população já foi exposta ao vírus, não serve para diagnóstico individual. Tem que saber como serão aplicados. O teste RT-PCR é para pacientes com sintomas, podem ser leves ou graves, aí dá certo, a depender dos critérios. E mesmo nos inquéritos sorológicos, tem que fazer antes pesquisas de amostragem”, disse à equipe de reportagem.
Croda diz que para analisar com mais precisão a estratégia, é preciso dispor de mais detalhes sobre ele.
Pazuello disse que esses dados serão divulgados em breve. Diante dos senadores, garantiu que haverá transparência nos trabalhos do Ministério. Segundo ele, o número de leitos disponíveis nos hospitais públicos e privados em todo o Brasil, assim como os percentuais de ocupação e a fila de espera para atendimento e outros dados estariam disponíveis na página do Ministério da Saúde a partir ainda neste fim de semana.
Quanto aos dados oficiais, o Governo Federal chegou a modificar a forma de divulgação e revelar apenas os números referentes às últimas 24 horas, mas o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes interveio e mandou o órgão voltar a publicar os números gerais.