No dia 14 de março de 2020, foi confirmado o primeiro caso de Covid-19 em Mato Grosso do Sul. Um ano depois, a pandemia segue sem controle e o Estado enfrenta o seu pior momento, com 821 pessoas internadas – recorde desde o início da pandemia –, 192.430 infectados, 3.563 mortes e uma vacinação que caminha a passos lentos.
Os primeiros casos de coronavírus em Mato Grosso do Sul foram em Campo Grande. No dia 14 de março, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) publicou boletim epidemiológico com confirmação dos dois primeiros casos de Mato Grosso do Sul, uma mulher de 23 anos, que foi contagiada após contato com um caso positivo no Rio de Janeiro, e um homem de 31 anos, que retornou de uma viagem a Londres.
Uma semana depois, a SES notificou o primeiro caso de Covid-19 no interior do Estado, uma mulher que havia retornado de uma viagem para a Europa. No mesmo período, a Capital já estava com oito confirmações do vírus. Em um mês, os casos chegaram a 115 confirmações, quatro mortes e 15 internações no Estado. No último boletim, divulgado nesta sexta-feira, o Estado teve 1.104 novos casos e 26 mortes e já soma 192.430 confirmações de Covid-19 desde o início da pandemia
Hospitais para tratamento de Covid-19 enfrentam um caos de internações, com recorde diário de pacientes pelo quinto dia consecutivo. Nesta sexta-feira, havia 821 pessoas internadas, sendo 452 em leitos clínicos (299 públicos; 153 privados) e 369 em leitos de unidades de terapia intensiva (266 públicos; 103 privados).
De acordo com o sistema Mais Saúde, o Estado está com taxa de ocupação de leitos de unidades de terapia intensiva (UTIs) de 98,54%. Na macrorregião de Dourados a taxa de ocupação é de 92%, Três Lagoas, 96%, e Corumbá, 62%. Na Capital, a situação está muito pior, com 106,70% de ocupação dos leitos para Covid-19 e 92% dos leitos de UTI gerais.
“Nós temos em MS um aumento expressivo do número de casos e mortes. É um número que nos incomoda, com um índice tão expressivo de óbitos, de famílias que estão sendo dilaceradas. A progressão média da doença é assustadora”, declarou o secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende.
De acordo com a infectologista Mariana Croda, a situação está muito grave, com uma alta pressão no sistema de saúde do Estado. “Nós estamos em colapso nas quatro regiões simultaneamente, e agora a gente tem toda essa pressão em cima dos serviços de saúde”, explicou.
A infectologista afirma que haverá uma piora nos próximos dias, pois o Estado ainda não atingiu o pico da terceira onda da pandemia. Croda detalha que só será possível conter a doença quando toda a população for vacinada.
“Exatamente porque não podemos esperar conscientização. É inadmissível nesse período a gente ter boates abertas, como a gente viu nessa semana, durante o período noturno com uma grande aglomeração de pessoas que não estavam usando máscaras”, concluiu a infectologista.
Primeiros casos
Um dos primeiros infectados pelo coronavírus que viu a doença evoluir para um caso grave, Cristiano de Lima explica que não imaginava que um ano depois a pandemia estivesse nesse ponto. “Eu acreditava que tudo isso teria passado, mas vemos que esse vírus é persistente e muita gente ainda vai pegar”, frisou.
Cristiano sentiu os primeiros sintomas após retornar de uma viagem a São Paulo. Após 10 dias, começou a ter sintomas e fez exames na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Coronel Antonino, no dia 12 de março.
“Recebi o resultado após quase 10 dias com sintomas fortes de gripe, febre e o pulmão já com 98% comprometido. Fui internado por 60 dias e quase morri depois de três paradas cardíacas”, declarou Lima. Ao todo, ele ficou internado 49 dias na UTI do Hospital Proncor. Já o primeiro caso que ganhou repercussão em Campo Grande foi da jovem Thayany Aguiar da Silva, que realizou coleta de exame na UPA Leblon no dia 12 de março. Uma semana antes, a jovem fez uma viagem com o namorado e passou uma temporada no Rio de Janeiro. Assintomática, Thayany chegou a ir em uma festa na casa de shows sertanejos Valley Pub.
Após o diagnóstico positivo do namorado, Thayany realizou o exame que comprovou a infecção pelo coronavírus. Ela chegou a ficar isolada em casa, com quarto e banheiro separados dos pais e do irmão. A jovem não precisou de ajuda médica e teve apenas sintomas leves.
RESTRIÇÕES
Ao longo do último ano, Mato Grosso do Sul impôs e afrouxou diversas vezes as restrições para conter o avanço do novo coronavírus. Entre as medidas que foram adotadas, está a mudança do ensino presencial para o remoto, que atingiu escolas estaduais e municipais em 2020 e 2021. As instituições privadas conseguiram autorização para retornar com as aulas, com base em medidas de biossegurança, mas, mesmo assim, algumas tiveram de fechar as portas temporariamente após casos de coronavírus em alunos e professores.
Uma das restrições mais polêmicas é a instituição de um toque de recolher, em que a população é proibida de circular a não ser para ir a serviços essenciais, como farmácias e atendimentos médicos. Atualmente, o toque de recolher vigente é das 23h às 5h, mas a partir deste domingo (14) o horário mudará, das 20h às 5h, e terá vigência de 14 dias, ou seja, até 27 de março. No decreto, o governo instituiu ainda outras medidas, como horário de funcionamento especial nos fins de semana para os serviços que não foram classificados como de natureza essencial. Para esses estabelecimentos, fica permitido o funcionamento somente das 5h às 16h aos sábados e domingos.
Durante o período, poderão funcionar somente serviços de saúde, transporte e alimentação por meio de delivery, farmácias e drogarias, funerárias, postos de gasolinas e indústrias.
Com a restrição de circulação e a abertura de estabelecimentos, os shoppings da Capital alteraram o horário de funcionamento para se adequarem à medida. No Shopping Campo Grande, de segunda a sexta-feira, as lojas atenderão das 10h às 20h, e nos fins de semana, das 10h às 16h. A praça de alimentação funcionará normalmente até o horário permitido por lei.
No Shopping Bosque dos Ipês, de segunda a sexta-feira, o horário de funcionamento será das 11h às 20h, enquanto nos fins de semana será das 11h às 16h. Por fim, no Norte Sul Plaza, lojas e praça de alimentação funcionarão das 10h às 20h de segunda a sexta-feira, e das 10h às 16h aos sábados e domingos.
As polícias Civil e Militar, além do Corpo de Bombeiros, vão auxiliar na fiscalização do toque de recolher.
NOVA CEPA
A SES confirmou infecção pela nova variante do coronavírus em um paciente de Mato Grosso do Sul no dia 3 deste mês. A P.1 é uma variante de atenção (VOC, sigla em inglês para Variant of Concern) que está em circulação comunitária no estado do Amazonas e oeste do estado do Pará.
De acordo com a SES, o paciente contraiu a doença em Manaus, por isso é tratado como um caso em isolamento. A infecção, junto a outras três, estava em análise na Fiocruz, mas não existem outras confirmações de casos da P.1 no Estado.
No entanto, a alta de casos e mortes por Covid-19 que ocorreu em novembro do ano passado em Mato Grosso do Sul pode ter relação com a nova variante da doença. O secretário de Saúde de Campo Grande, José Mauro de Castro Filho, afirmou ao Correio do Estado que diversas amostras foram encaminhadas para investigação na Capital em razão de características diferenciadas, que levaram a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) a suspeitar que a mutação do vírus seja a responsável pelo crescimento apresentado no fim de 2020.