Manifestações organizadas por representantes de setores econômicos de Mato Grosso do Sul podem gerar piora no número de mortes e casos de Covid-19 em duas semanas.
Mesmo com recorde de óbitos em Mato Grosso do Sul, grupos que tinham em seu bojo, além de comerciantes e trabalhadores autônomos, pessoas filiadas a partidos políticos realizaram carreata ontem, como protesto contra as medidas de restrição decretadas pela prefeitura no dia 22.
Para o infectologista da Fiocruz Julio Croda, organizar uma carreata contra as medidas restritivas em um momento de crise no sistema de Saúde é um ato antiético e injusto com a população.
“No pior momento da pandemia, ainda existe um grupo político que organiza uma carreata contra as medidas restritivas. Precisamos evoluir como sociedade”, comentou.
Croda explica que, como os efeitos das ações da população não são imediatos, o reflexo da carreata ocorrerá nos próximos 14 dias, com possível piora no número de casos, mortes e internações.
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Segundo Croda, o ideal seria negociar ações compensatórias para o setor, como corte de impostos, financiamentos e pacotes de apoio com compromisso de manter os empregos. “Se todos nós fizermos nossa parte, sairemos mais rápido e fortes dessa crise”, declarou.
O grupo de manifestantes foi recebido pelo prefeito Marcos Trad (PSD) e, mais tarde, na governadoria, pelo secretário de Governo e Gestão Estratégica, Sergio Murilo. O encontro com o prefeito gerou aglomeração entre os manifestantes e alguns dos presentes estavam sem máscara.
O secretário de Estado de Saúde, Geraldo Resende, afirmou que as medidas de restrição tiveram pouca aderência e a taxa de contágio está aumentando. “O vírus está circulando muito rápido, recorde de óbitos e internações. O resultado levantado pelos sites nos coloca na penúltima colocação de todas os estados brasileiros em isolamento, nosso isolamento é medíocre”.
Resende ressalta que as manifestações realizadas na quinta-feira não causarão interferências no decreto estadual, que entra em vigor hoje.
“Nos fortalece cada vez mais, que venham de onde vierem, não ganharão nosso recuo, precisamos fazer isso, vamos continuar com o nosso caminho. Eles receberão nossa resposta quando precisarem de um leito e forem bem atendidos, nossas ações salvam vidas”.
RECORDE DE MORTES
Mato Grosso do Sul registrou ontem recorde de mortes, foram 60 novos óbitos e 1.256 casos confirmados no boletim epidemiológico. Além do recorde do dia, março é o mês com maior acúmulo de mortes em toda a pandemia: antes mesmo de o mês acabar, já foram notificadas 616 óbitos.
O segundo maior número de registros acumulados em um mês ocorreu em dezembro, com 587 mortes.
Ao todo, o Estado já tem 3.975 óbitos por Covid-19 e 206.968 confirmações. Em isolamento domiciliar encontram-se 12.712 doentes, recuperados somam 189.163 ao longo de toda a pandemia.
Ontem, enquanto o protesto ocorria nas ruas do Centro de Campo Grande, 106 pessoas aguardavam por leitos nas suas casas ou em postos de saúde.
O procurador-geral do município, Alexandre Ávalo, disse ao Correio do Estado que as medidas restritivas serão mantidas até o domingo e ainda está em estudo sua possível prorrogação ou a adoção das medidas do decreto estadual, que permite atividades não essenciais durante o dia.
Sem faturar, empresários e autônomos cobram soluções dos governantes
Com portas fechadas e restrições ao atendimento presencial, empresários e comerciantes pedem medidas concretas para amenizar os impactos causados pelo isolamento, como o retorno de linhas de crédito, com flexibilização e maior carência, suspensão de impostos e renegociação de dívidas para o enfrentamento da crise.
Ontem os comerciantes de Campo Grande organizaram um protesto massivo, com presença de milhares de automóveis, que se estendeu por bairros nobres e pela região central da cidade. A concentração do grupo foi na entrada do Parque das Nações Indígenas da Rua Antônio Maria Coelho, a poucos metros dos hospitais Unimed e Cassems.
As buzinas de alguns participantes nas imediações destes hospitais, que atendem pacientes com Covid-19 em suas unidades de terapia intensiva (UTIs), geraram reclamações.
Sobre a falta de apoio governamental para que os comerciantes cumpram as medidas de isolamento – boa parte deles, com baixo capital de giro e caixa, deixam de faturar –, o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Campo Grande, Adelaido Vila, relatou que empresários que pegaram financiamentos no ano passado enfrentam dificuldades em quitar as dívidas que fizeram em razão da nova onda da Covid-19.
“A má administração do sistema de Saúde fez com que chegássemos nessa situação. Não está fácil pagar o recurso que pegamos, não voltamos para a normalidade, estamos sem nenhuma previsão de gerar recursos para vencermos a crise. Os bancos precisam entender que os scores não estão positivos”, destacou.
Segundo o levantamento Financiamento dos Pequenos Negócios no Brasil, realizado pelo Sebrae, o volume de linhas de crédito passou de R$ 65 bilhões, no segundo trimestre de 2019, para R$ 87 bilhões, no mesmo período de 2020, e neste ano a demanda deve aumentar.