Cidades

Drama generalizado

Sem faturar, empresários e autônomos cobram soluções dos governantes

Comerciantes promoveram carreata contra medidas restritivas e protestaram contra governantes; economistas sugerem linhas de crédito e retorno do auxílio

Gabrielle Tavares

26/03/2021 - 09h00

Com portas fechadas e restrições ao atendimento presencial, empresários e comerciantes pedem medidas concretas para amenizar os impactos causados pelo isolamento, como o retorno de linhas de crédito, com flexibilização e maior carência, suspensão de impostos e renegociação de dívidas para o enfrentamento da crise.  

Ontem os comerciantes de Campo Grande organizaram um protesto massivo, com presença de milhares de automóveis, que se estendeu por bairros nobres e pela região central da cidade. A concentração do grupo foi na entrada do Parque das Nações Indígenas da Rua Antônio Maria Coelho, a poucos metros dos hospitais Unimed e Cassems.  

As buzinas de alguns participantes nas imediações destes hospitais, que atendem pacientes com Covid-19 em suas unidades de terapia intensiva (UTIs), geraram reclamações.  

Sobre a falta de apoio governamental para que os comerciantes cumpram as medidas de isolamento – boa parte deles, com baixo capital de giro e caixa, deixam de faturar –, o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Campo Grande, Adelaido Vila, relatou que empresários que pegaram financiamentos no ano passado enfrentam dificuldades em quitar as dívidas que fizeram em razão da nova onda da Covid-19.

“A má administração do sistema de Saúde fez com que chegássemos nessa situação. Não está fácil pagar o recurso que pegamos, não voltamos para a normalidade, estamos sem nenhuma previsão de gerar recursos para vencermos a crise. Os bancos precisam entender que os scores não estão positivos”, destacou.

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Segundo o levantamento Financiamento dos Pequenos Negócios no Brasil, realizado pelo Sebrae, o volume de linhas de crédito passou de R$ 65 bilhões, no segundo trimestre de 2019, para R$ 87 bilhões, no mesmo período de 2020, e neste ano a demanda deve aumentar.  

O economista e pesquisador da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) professor doutor Mateus Abrita defende que as linhas de crédito são medidas necessárias de incentivo para que as empresas não fechem suas portas e agravem ainda mais a situação econômica, visto que as medidas de restrição também são necessárias por causa da situação que o País atravessa.  

“Fazer restrições sanitárias sem apoio econômico ou dar apoio econômico sem cuidados sanitários são dois equívocos. Agora não se pode repetir os erros do ano passado, no qual foi realizado um pacote de auxílio emergencial, mas não ocorreu uma contrapartida adequada de controle da pandemia. As políticas de restrição atrapalham a economia, negar os impactos não é uma opção”, destacou o especialista.  

O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em Mato Grosso do Sul (Abrasel-MS), Juliano Wertheimer, informou que entrou com um pedido no governo do Estado para novas medidas de incentivo, entre elas, o parcelamento de contas de água, luz, IPTU e outros impostos.  

“Apenas delivery não sustenta bares e restaurantes. Aguardamos medidas de incentivo eficazes, da maneira que está não dá para continuar”, relatou.

AUXÍLIO EMERGENCIAL  

Encerrado no ano passado com o fim do estado de calamidade pública, o auxílio emergencial deve voltar, mas com valores entre R$ 150 e R$ 250, e não R$ 600, como era em 2020. “Graças ao auxílio emergencial e à redução dos juros pelo BC [Banco Central], bem como outras medidas, o Brasil teve uma recessão menor”, explicou Abrita. 

Quase sem ar, centenas aguardam leitos e dezenas morrem; contágio ainda é alto 

Manifestações organizadas por representantes de setores econômicos de Mato Grosso do Sul podem gerar piora no número de mortes e casos de Covid-19 em duas semanas. 

Mesmo com recorde de óbitos em Mato Grosso do Sul, grupos que tinham em seu bojo, além de comerciantes e trabalhadores autônomos, pessoas filiadas a partidos políticos realizaram carreata ontem, como protesto contra as medidas de restrição decretadas pela prefeitura no dia 22.  

Para o infectologista da Fiocruz Julio Croda, organizar uma carreta contra as medidas restritivas em um momento de crise no sistema de Saúde é um ato antiético e injusto com a população. 

“No pior momento da pandemia, ainda existe um grupo político que organiza uma carreata contra as medidas restritivas. Precisamos evoluir como sociedade”, comentou.  

Croda explica que, como os efeitos das ações da população não são imediatos, o reflexo da carreata ocorrerá nos próximos 14 dias, com possível piora no número de casos, mortes e internações.

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