Em ascensão, o número de internados por Covid-19 em Mato Grosso do Sul ultrapassa os mil casos há quatro dias. Conforme especialistas, este é um indicativo do terceiro pico de contágio e propagação da doença previsto para acontecer em junho.
Nesta sexta-feira, o Estado alcançou a maior média móvel de casos em 21 dias, 1.119. Desde o dia 10 de maio, os dados apontam mais de mil confirmações da doença diariamente.
Para se ter uma ideia da gravidade da situação, o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, referência no atendimento a pacientes com o coronavírus, opera há três dias acima de sua capacidade máxima de internação.
“Estamos com 130 pacientes críticos aqui no hospital, e temos capacidade técnica para atender até 125 pessoas. Existem pacientes intubados e com cateter de oxigênio em UPAs [Unidades de Pronto Atendimento] e não temos como recebê-los”, afirmou a diretora-presidente do Regional, Rosana Leite de Melo.
Retaguarda do Regional, a Santa Casa de Campo Grande informou que na sexta estava com 100% das unidades de terapia intensiva (UTIs) ocupadas.
Na área vermelha, apesar de a capacidade máxima ser de seis internados, 12 pacientes ocupavam a ala, dos quais quatro estavam intubados.
A área verde, feita para atender sete enfermos, contava com 30 hospitalizados.
Com 100% de ocupação, o cenário de superlotação se repetia no Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian. No Hospital da Unimed, de 40 leitos de UTI Covid-19, 33 estavam ocupados.
Dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES) confirmaram a superlotação nas quatro macrorregiões de MS. Em Campo Grande, a taxa de ocupação global de leitos do Sistema Único de Saúde (SUS) era de 87% nesta sexta-feira.
índices de internados superaram os 92%. Em Corumbá, 96% das vagas destinadas ao tratamento de coronavírus estavam em uso.
Conforme o último boletim epidemiológico divulgado pela Pasta, 1.042 sul-mato-grossenses estavam hospitalizados até esta sexta. Destes, 564 estavam em leitos clínicos e 373 em leitos de UTI.
Segundo o infectologista e pesquisador Julio Croda, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a dinâmica de contágio do vírus indica uma piora dos casos e de internações para o próximo mês. “Só para os políticos que não dá para prever e justificar a falta de medidas e preparação [para o enfrentamento da doeça]”, reiterou.
O pesquisador ponderou que após o pico de internações ser atingido em Mato Grosso do Sul, em 14 de abril, com 1.338 casos confirmados hospitalizados, junho já deve começar com a tendência de elevação, que pode ultrapassar o pico de internações.
Croda explicou que em relação às mortes, esse crescimento de internações será refletido entre duas a três semanas.
“As medidas restritivas e a vacinação ainda são insuficientes para frear o contágio”.
Um dos caminhos apontados pelo médico para diminuir a incidência da doença e, como consequência, o crescimento de internações e mortes, seria a adoção de restrições semelhantes às adotadas por Araraquara (SP).
A cidade foi a primeira do estado de São Paulo a proibir a circulação de pessoas por 10 dias.
Nesse período, houve o fechamento inclusive de serviços essenciais, como supermercados e postos de gasolina.
O transporte público foi suspenso e as forças de segurança foram às ruas em blitze para manter a população em casa.
Como resultado, após 30 dias da medida, Araraquara registrou a redução 57,5% de casos de Covid-19, além da diminuição de 39% na média semanal de mortes.
FILA DE ESPERA
Dados da SES apontam que 116 pessoas estavam na fila de espera por uma vaga de UTI na sexta-feira.
Dessas, 78 eram da macrorregião de Campo Grande, dos quais 72 só da própria Capital.
A central de regulação de vagas de Dourados possui 21 pacientes na fila de espera. Em relação aos demais 77 municípios de Mato Grosso do Sul, 17 pacientes aguardam a disponibilidade de um leito crítico pela Central de Regulação do Estado (CORE), sendo quatro só de Três Lagoas.
Com o agravamento da pandemia, o colapso no sistema de saúde funciona hoje com uma extensa fila de espera por leitos de UTI que só avança com a disponibilidade de vagas nas redes hospitalares e que não dependem mais de altas, e, sim, de mortes.
Apenas nos primeiros 14 dias de maio, 690 pessoas perderam a vida para a doença em MS. Até o momento, 6.163 sul-mato-grossenses morreram em decorrência da Covid-19.