Diferente dos municípios do interior do Estado, Campo Grande hesita em adotar medidas mais restritivas no enfrentamento da Covid-19. Para se ter uma ideia da gravidade da pandemia, mesmo com 107% de ocupação dos leitos de unidades de terapia intensiva (UTIs), a Capital opera apenas de acordo com o preconizado pelo Programa de Saúde e Segurança da Economia (Prosseguir).
Classificado em bandeira vermelha, a circulação de pessoas na Capital está proibida das 21h às 5h, enquanto 124 pessoas esperam por um leito clínico ou de UTI. Com mais 535 casos positivos ontem e 14 mortes, Campo Grande segue líder no total de óbitos registrados (2.842), 41,4% de todos os falecimentos pela doença no Estado.
Em contrapartida, Dourados que possui 40 pacientes na fila de espera por uma vaga hospitalar opera em lockdown desde domingo (30). O município registrou ainda mais 188 novos casos e oito mortes em decorrência da Covid-19 ontem.
Para Julio Croda, infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), as medidas preconizadas pela Associação dos Municípios de Mato Grosso do Sul (Assomasul), com toque de recolher das 20h às 5h, lei seca e proibição de viagens intermunicipais, de quinta-feira, feriado de Corpus Christi, a domingo (6), não serão suficientes para conter o avanço da doença.
“Deveríamos ter um lockdown estadual. Todas as macrorregiões estão com mais de 100% de ocupação. Essa medida paliativa tem pouco impacto. Quanto mais restrições, menor será a transmissão do coronavírus e, como consequência, mais rápido teremos a redução dos casos”, pontuou.
O secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende, relatou que, por ora, não haverá um decreto estadual restritivo, diferente do que foi feito no pico da doença em março deste ano, entre os dias 28 a 4 de abril, quando a média móvel era de 1.084 casos e 30,3 mortes.
Na época, Campo Grande e algumas cidades do interior anteciparam feriados municipais entre os dias 22 e 27 de março, em um cenário menos grave do que o de hoje, com média móvel de 1.830 casos e 46,3 mortes diárias.
“Nós indicamos aos prefeitos seguirem o recomendado pelo Prosseguir. Já temos mais de 30 municípios com decretos estaduais, e queremos que essa autonomia continue em cada região”, salientou o secretário.
Conforme Resende, é de responsabilidade de cada gestor municipal decidir medidas no enfrentamento da pandemia de acordo com suas peculiaridades e condições de atendimento à saúde. “Já temos cidades com toque de recolher ao meio-dia [Porto Murtinho], cada uma está avançando à sua maneira, o que não pode acontecer é afrouxamento”.
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RAIOS X
Responsáveis por 47% dos casos confirmados de coronavírus no Estado, Campo Grande e Dourados têm seguido por caminhos distintos no enfrentamento da doença.
A segunda maior cidade do estado está há, pelo menos, uma semana se organizando com as maiores cidades de sua macrorregião para definir medidas que proíbam a mobilidade urbana e intermunicipal, e restrições que colaborem com o fim de aglomerações.
Na Capital, sem a possibilidade de abrir leitos, o silêncio predomina. A reportagem tentou contato com a prefeitura de Campo Grande, com o secretário municipal de Saúde, José Mauro Filho, e com o prefeito Marcos Trad (PSD), mas até o fechamento desta edição não obteve resposta.
Para Croda, a medida de Dourados em vigência até o dia 12 deste mês é a melhor opção no enfrentamento da pandemia. O prefeito de Dourados, Alan Guedes (PP), afirmou que a medida que salvará vidas terá fiscalização fortalecida pela Polícia Militar e Guarda Municipal.
Conforme o último boletim epidemiológico divulgado ontem pela Secretaria de Estado de Saúde (SES), 292.677 pessoas já foram contaminadas pela Covid-19 em Mato Grosso do Sul. No total, 6.867 pessoas morreram em decorrência da doença no Estado.
Com o maior número de toda a pandemia, 1.331 pacientes estão hospitalizados com a doença em MS, dos quais 762 estão em leitos clínicos e 569 em UTIs. Outros 266 sul-mato-grossenses estavam na fila de espera por uma vaga hospitalar.
Mato Grosso do Sul também é o estado brasileiro com o maior aumento da pandemia, 52%.
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ARTICULAÇÃO
Exemplo de medida restritiva, além de Dourados, é Porto Murtinho, que instituiu desde sábado o toque de recolher mais rígido do Estado, do meio-dia às 5h. A medida é válida até 8 de junho.
Em Nova Andradina, o toque de recolher tem início a partir das 16h.
Segundo o prefeito de Ponta Porã, Hélio Peluffo, o turismo não será bem-vindo neste feriadão. Com todos os leitos destinados à Covid-19 ocupados, Peluffo afirmou ser contra o fechamento completo da cidade, mas vai combater aglomerações.
Já em Batayporã, o toque de recolher começa às 17h e só serviços essenciais poderão funcionar após o horário.