Depois de dois dias de restrições, prefeituras de Mato Grosso do Sul, como a de Campo Grande, decidiram não cumprir as determinações do governo do Estado, que colocou 43 municípios na bandeira de cinza do Programa de Saúde e Segurança na Economia (Prosseguir), com risco extremo para contágio da Covid-19.
Em uma “guerra” de decretos, a Capital fez publicação em que se colocou na bandeira vermelha, em que a ameaça da doença permanece alta.
Contrariando as recomendações do governo estadual, a medida permite a reabertura do comércio, bares e restaurantes na Capital, além da flexibilização do toque de recolher de 20h para as 21h até 24 de junho, mas isso causou confusão entre lojistas e empresários.
O presidente da Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG), Renato Paniago, ponderou que a atitude da Prefeitura de Campo Grande é extremamente importante para o setor, que já está há um ano e meio prejudicado com as restrições impostas pela pandemia.
“Não temos mais condições de ficar com as portas fechadas. E ficar limitando o papel das empresas não deveria ser função do Estado. Alguns empresários até anteciparam férias de seus funcionários para os próximos dias, como ficam agora? Com tantas mudanças, não vamos aguentar por muito tempo”, afirmou.
A reportagem entrou em contato com as assessorias dos shoppings Campo Grande e Norte Sul Plaza.
O primeiro informou que deve abrir hoje, mas alerta para possíveis mudanças, já o segundo não havia definido se haverá reabertura das lojas.
De acordo com Paniago, as empresas que atuam conforme os protocolos de biossegurança não devem ser penalizadas e prejudicadas pelo crescimento de contágio da Covid-19, que, em sua visão, ocorre em outros setores.
“Não é no comércio que as pessoas ficam doentes, e as empresas não suportam mais restrições”, salientou.
Esta é a segunda interferência da Capital após o novo mapa do Prosseguir ser divulgado na quinta-feira (10).
Em conjunto com a Associação dos Municípios de Mato Grosso do Sul (Assomasul), Campo Grande conseguiu postergar o início do decreto restritivo em 48 horas, com início no domingo (13), após o Dia dos Namorados.
Por ora, o novo decreto de classificação que foi publicado na tarde de ontem no Diário Oficial de Campo Grande (Diogrande) impõe o fim da lei seca, além da retomada de 70% de lotação no transporte público.
No documento, o município justificou sua flexibilização a partir dos dados de vacinação contra o coronavírus, em que 37% da população está vacinada com a primeira dose, além da ampliação dos leitos em unidades de terapia intensiva (UTI), de 116 para 352 vagas.
Ao Correio do Estado, o secretário estadual de Saúde, Geraldo Resende, não quis tecer comentários sobre a manobra de flexibilização de Campo Grande, mas afirmou que, em sua visão, o município vai quebrar o compromisso de enfrentamento da doença firmado entre as 79 cidades de MS.
Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES), 97 pacientes da Capital estão na fila de espera por um leito hospitalar. A macrorregião de Campo Grande opera com uma taxa de ocupação em leitos de UTI de 107%, maior porcentual no Estado.
Em seguida, a macrorregião de Dourados conta com 104%. Três Lagoas e Corumbá possuem 100% de suas vagas ocupadas.
“O que devemos fazer é ajudar a população, e não atrapalhar. Eu lastimo que a Capital vá contra as medidas que estamos tomando para salvar vidas. Campo Grande é a maior cidade do Estado, tem o maior número de infectados de Mato Grosso do Sul e deveria ser um espelho para a população”, frisou o secretário.
RUPTURA
De acordo com o titular da SES, Geraldo Resende, se Campo Grande optar por descartar as recomendações do Prosseguir, o Estado tomará medidas punitivas.
“Não sabemos o que pode acontecer se Campo Grande realmente romper com o Programa Prosseguir. O Estado tomará medidas para resolver a situação com o município”, assegurou o secretário.
Além de Campo Grande, Dourados e Ponta Porã não cumpriram a determinação feita pelo governo do Estado.
No caso de Dourados, o parecer técnico alega que a cidade acabou de sair de um lockdown de duas semanas, com medidas ainda mais restritivas que as do governo.
Já Ponta Porã reclama do fato de manter todos os comerciantes fechados, enquanto em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, todos os comerciantes continuam abertos e, por serem cidades gêmeas, as pessoas apenas atravessam a rua e continuam o consumo no país vizinho.