Cidades

TRANSPORTE

Oferta de vans escolares caiu pela metade com pandemia em Campo Grande

De acordo com sindicato, profissionais venderam ou adaptaram veículo para sobreviver

Beatriz Magalhães

08/07/2021 - 08h31

Parados há mais de um ano, de cada 10 motoristas que fazem o transporte escolar em Campo Grande, seis não voltarão ao trabalho quando as aulas presenciais forem totalmente retomadas na Capital, de acordo com o Sindicato dos Transportadores Escolares de Mato Grosso do Sul (Sinte-MS).

A categoria está sem trabalhar desde que as aulas presenciais foram paralisadas por conta da pandemia de Covid-19, em março de 2020. 

Na ocasião, Campo Grande contava com aproximadamente 246 transportadores escolares, atualmente, a Capital conta com 120 motoristas.

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Conforme o Sinte-MS, mais de 30% tiveram de devolver seu veículo por não conseguir manter os gastos, outros 50% passaram a desenvolver outros tipos de serviço e 20% estão na ativa realizando o transporte de alunos de escolas particulares.

Como alternativa diante da pandemia e da paralisação das aulas na Capital, em agosto do ano passado, a Prefeitura de Campo Grande liberou empresas do ramo para fazerem viagens para o comércio. 

A categoria ficou autorizada a realizar entregas para supermercados, restaurantes, entre outros serviços, para minimizar os impactos da crise sanitária.

Em razão do agravamento da pandemia, a normativa foi estendida até 31 de dezembro de 2021.

De acordo com o presidente do sindicato, Rodrigo Aranda Armoa, muitos motoristas do transporte escolar enfrentam dificuldades neste período para obter renda, porque, com muitas escolas fechadas, há baixa demanda de alunos, e com isso tiveram de buscar novas atividades no mercado de trabalho.

“Muitos colegas estão no mercado livre de entregas, seja em supermercados ou conveniência, seja em outros tipos de serviços. Mesmo com a volta das aulas presenciais, a maioria não vai para o que estão fazendo. Muitos pais estão optando por levar pessoalmente os filhos, a procura é bem menor. Atualmente, estou transportando quatro crianças. No mesmo período do ano passado, a média era de 35 alunos”, alegou ao Correio do Estado.

As aulas presenciais nas escolas públicas de Mato Grosso do Sul, tanto municipais quanto estaduais, serão retomadas no segundo semestre deste ano letivo, após um ano e meio sendo realizadas de forma remota.  

Mesmo com o retorno das aulas presenciais nos próximos dias, Rodrigo Aranda Armoa destacou que ainda não acredita na retomada plena do setor, visto que muitos profissionais não vão abandonar o que estão fazendo para transportar poucos alunos.

“Alguns motoristas estão atendendo as escolas particulares, seguindo todas as medidas necessárias para a segurança dos alunos, porém, no retorno de escolas públicas já foi anunciado o formato escalonado. Muitos estão analisando se realmente compensa retornar. Alguns colegas acabaram migrando para aplicativos, ainda não acreditamos no retorno pleno antes de 2022”.

Em Campo Grande, as aulas presenciais foram retomadas de forma presencial nas escolas particulares, desde o fim do ano passado, contudo a entidade afirma que, apesar da volta gradativa, não há demanda para o serviço.

Ainda de acordo com Armoa, outro fator que impacta na retomada dos serviços são os excessivos aumentos do combustível, por isso muitos pais acabam optando por levar o filho até a escola.

“São muitos custos para pouco retorno, temos diversas obrigações, como curso veicular, taxas, alvará, gasolina que disparou, em um momento delicado de incertezas. Fica difícil com esses aumentos excessivos fazer o repasse para os pais. Se fecharmos o contrato, não temos tanta margem para mudanças”, alegou Armoa.  

ALTERNATIVA

Durante duas décadas, o transporte escolar de crianças foi a fonte de renda do casal Erandi Ramos, 49 anos, e Auria Siqueira Da Rosa, 45 anos, em Campo Grande, mas, com a chegada da pandemia, a van escolar passou a transportar alimentos, mercadorias e realizar corridas em aplicativos de viagens para sobreviver sem as aulas. 

Para atender aos clientes, o casal mudou toda a estrutura do veículo.

“Com a pandemia, eu e a minha esposa ficamos sem renda total e foi do nada, ninguém contava com a pandemia. Tive de procurar alternativas, por isso tirei os bancos, fiz algumas adequações e passei a entregar mercadorias pela cidade”, explica Erandi.

Há mais de um ano sem a principal fonte de venda, Erandi passou a buscar novas atividades no mercado de trabalho. 

O motorista ressalta que os contratos de transporte fechados com pais de crianças foram cancelados com a interrupção das aulas presenciais.

“Chegou um momento em que os pais que tínhamos fechado contrato para transportar os filhos também não tinham mais condição de pagar e as aulas foram suspensas. A gente fica triste com a situação, mas tenho de sustentar a casa, pagar minha van e tenho filho pequeno. As contas não param de chegar”, apontou.  

Erandi frisa que a maioria dos clientes é de escolas públicas. 

“Ainda não acredito no retorno pleno do transporte escolar neste ano, eu tenho uma van de 16 lugares e tenho de me adaptar às normas de segurança. Antes da pandemia, sempre andava com as vans cheias, hoje, tem o distanciamento, uso de máscara e outras medidas. As particulares já voltaram, mas a minha clientela é toda em escolas municipais e estaduais e tem o ensino híbrido, não adianta retornar com uns gatos pingados”, destacou. 

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