Com prejuízos a longo prazo, a alfabetização é o maior desafio na retomada das aulas presenciais, de acordo com a secretária municipal de Educação de Campo Grande, Elza Fernandes.
O início das aulas escalonadas na Rede Municipal de Ensino (Reme), que ocorreu nesta segunda-feira, tem como foco avaliações diagnósticas e planos de recuperação da aprendizagem.
“Vamos avaliar os níveis de leitura e de escrita dos alunos, principalmente os que se enquadram na fase de alfabetização. Depois de um ano e quatro meses em casa, sabemos como a presença física do professor faz toda a diferença e vamos retornar com esse foco”, disse Fernandes.
A secretária pontuou ainda que nesta semana serão trabalhados pontos que englobam a saúde emocional das crianças durante a readaptação ao ambiente escolar regido pelos protocolos de biossegurança.
Na Escola Municipal Nicolau Fragelli, o advogado Renan Matsuede, 34 anos, relatou que o filho Daniel, de 6 anos, ainda não sabe ler e escrever, e que por conta dessa dificuldade optou pelo retorno à escola.
“Foi difícil conciliar a escola de forma remota durante esse último ano, meu filho está no primeiro ano e não tinha muita paciência para acompanhar os vídeos da escola ou nossas explicações”, salientou.
Para Daniel, o primeiro dia de aula foi de aprendizado sobre a Covid-19, além de momentos de diversão. “Nós brincamos, conversamos sobre a pandemia, escrevemos o nosso nome. Achei bem legal, me diverti bastante e foi a primeira vez que eu conheci a minha escola”, relatou.
A aposentada Helena Maria da Silva, 66 anos, descreveu à reportagem a animação das netas ao retornarem para a escola.
“Estão sem dormir há dias, uma delas nunca tinha estudado em um colégio antes da pandemia e nem mesmo conhecia os amiguinhos”, afirmou. Ana Clara, de 6 anos, comemorou a volta presencial das aulas e a oportunidade de poder “matar a saudade” da professora, que conhecia apenas por vídeo.
“Hoje foi muito legal, brincamos e pude conhecer os meus colegas”, contou. Helena ressalta ainda que as crianças já frequentam o reforço escolar no contraturno, duas vezes por semana.
Retorno
Alunos da Reme retornaram para o ensino presencial ontem depois de um ano e quatro meses no ensino remoto. Para que as medidas de biossegurança fossem respeitadas, as escolas tiveram de adaptar a rotina.
Na unidade Nicolau Fragelli, as crianças receberam um passaporte com informações pessoais, como nome e série, para conseguirem transitar pela escola.
Além disso, a saída foi adiantada em uma hora, das 11h para as 10h.
Dessa forma, o recreio foi suspenso, a duração das aulas foi diminuída em 5 minutos cada e a merenda foi servida nas salas de aula.
Uma cartilha com os cuidados de biossegurança também foi distribuída e ensinada para as crianças.
PLANEJAMENTO
Para a pedagoga Kátia Araújo, os professores neste momento devem usar muitos recursos lúdicos para que os alunos das séries iniciais possam se enquadrar na nova rotina de aprendizado.
“É interessante que os assuntos em sala de aula sejam trabalhados por meio de músicas, jogos e ferramentas que tornem o ambiente escolar interessante novamente”, afirmou.
Ressaltou ainda que a “idade preconizada para o processo de alfabetização é de cinco a sete anos, sendo concluído até o 3º ano do Fundamental, que compreende as crianças de oito a nove anos”.
Kátia ponderou que as atividades diagnósticas serão importantes para detectar o que, de fato, ficou defasado no aprendizado.
“Teremos de contar com professores de reforço, haja vista que muitas crianças terão dificuldades. Será necessário buscar ainda uma nova metodologia de ensino atrelada ao recorrente cenário de pandemia”, ressaltou.
Para o presidente do Sindicato Campo-Grandense dos Profissionais da Educação Pública (ACP-MS), Lucílio Nobre, será necessário muito investimento no setor para que os danos educacionais sejam reparados.
“Apesar do distanciamento necessário, acredito que o conteúdo será melhor administrado em sala de aula. Essa é a nossa expectativa para que a médio e longo prazo possamos recuperar esse prejuízo na educação pela falta da presença física do professor, como era de praxe”, reiterou.
A secretária de Educação explicou que, neste momento, não há como estimar a volta integral de todos os estudantes às instituições de ensino.
“Estamos voltando agora e devemos nos próximos meses observar como o coronavírus vai se comportar na cidade e se teremos casos nas escolas. Sabemos que grande parte das crianças são assintomáticas, e, com casos confirmados, a unidade escolar será fechada”, garantiu Elza.