A Prefeitura de Campo Grande deu início à revisão do Plano Diretor de Transporte e Mobilidade Urbana (PDTMU) da cidade. Conforme apurado pelo Correio do Estado, a prioridade do estudo será facilitar o acesso às áreas extremas da Capital.
Isso ocorre porque cada vez mais condomínios de luxo estão sendo construídos distantes do perímetro urbano, ainda que a cidade conte com diversos vazios urbanos.
De acordo com informações obtidas pelo Correio do Estado, o novo plano analisará quais os pontos de estrangulamento do transporte público e se há necessidade da implantação de novas linhas de ônibus e vias de acesso em áreas extremas da Capital que estão sendo ocupadas por novos empreendimentos imobiliários de luxo.
Isso porque esses locais necessitam da mão de obra de pessoas que, na maioria das vezes, residem muito distante do local.
Para o arquiteto, urbanista e professor universitário Ângelo Arruda, a medida não é eficiente, visto que o plano de mobilidade deve levar em consideração os interesses da população no geral, e não inverter as prioridades.
“Sempre tivemos uma discussão bem contraditória com a questão da mobilidade em Campo Grande, estamos tratando questões de urbanismo, e não de mobilidade, e isso a longo prazo será um problema", apontou.
"É necessário olhar para a cidade como um todo. Campo Grande precisa ocupar todos os vazios urbanos, que sabemos que são vários, para depois pensar em áreas extremas”, completou.
Arruda, que participou da elaboração do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental de Campo Grande (PDDUA), aponta que a medida vai contra as determinações do estudo.
“O maior interesse do plano de mobilidade e transporte é atender o seu povo, e não beneficiar loteamentos distantes da cidade. Campo Grande tem diversos empreendimentos que estão ocupando os extremos da cidade, o que é um equívoco e gasto desnecessário da verba pública", destacou.
"É claro que a mobilidade urbana é necessária em áreas mais extremas, mas respeitando as prioridades da população, não apenas focando em empreendimentos de luxo que visam atender uma parcela pequena da sociedade”, completou.
Em junho, a Câmara Municipal de Campo Grande aprovou projeto de lei do Executivo que altera a Lei de Ordenamento do Uso e da Ocupação do Solo. Com isso, a medida determina que empreendimentos com até 250 hectares devem ficar a pelo menos 3 km de distância do perímetro urbano da cidade.
A proposta ainda estabelece que empreendimentos com área superior deverão respeitar a distância mínima de 20 quilômetros do perímetro urbano.
“É necessário pegar os vazios que já existem, e não distanciar a urbanização. A meu ver, essa medida é para atender um segmento de alta renda”, apontou.
Como exemplo de empreendimento de luxo em áreas extremas da cidade, a construtora Plaenge é responsável pelo Riviera Home Club, sendo este um condomínio horizontal, próximo à BR-163.
Em razão de uma ação mitigadora, a empresa deverá implantar um novo viaduto, próximo à Uniderp Agrárias, em uma das entradas do Bairro Jardim Veraneio. Entretanto, a previsão de entrega do condomínio é janeiro de 2022, e, faltando quatro meses para a conclusão da obra, a intervenção na rodovia ainda não saiu do papel.
Segundo a prefeitura, ainda é necessário a aprovação do projeto de execução pela administração.
Sem a ponte, o fluxo de trânsito no local deve ser impactado e pode trazer insegurança para quem precisa trabalhar no empreendimento, já que o acesso é feito pela rodovia. A reportagem buscou saber a previsão de tempo para a execução da obra, mas não recebeu retorno.
NOVO PLANO
Em publicação no Diário Oficial de Campo Grande (Diogrande), o município abriu seleção para empresa de consultoria em serviço técnico especializado para a revisão do plano de mobilidade.
Ademais, o novo projeto deverá discutir a mobilidade urbana levando em consideração novos empreendimentos abertos em áreas extremas da cidade.
Segundo o titular da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), Rudi Fiorese, a empresa responsável pelo estudo técnico deverá realizar um diagnóstico quanto às alterações necessárias a serem feitas, sendo esse um projeto recente.
“A Prefeitura de Campo Grande contratou uma empresa para fazer a revisão no plano de mobilidade, outras secretarias estão envolvidas e indicando os responsáveis para discutir a proposta. Tudo ainda é muito recente, já assinamos o contrato e teremos reuniões para discutir sobre o assunto”, apontou.
Conforme apurado, a Agência Municipal de Transportes e Trânsito (Agetran), a Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano (Planurb) e a secretaria municipal de obras estarão à frente do projeto para discutir melhorias para a Capital.
CORREDORES
Atualmente, estão em execução na cidade as obras dos corredores de transporte, que já estão previstos no Plano Diretor de Transporte e Mobilidade Urbana, contudo, as intervenções se arrastam há 9 anos, já que foram propostas em 2012.
Como exemplo, a implantação do Corredor Sudoeste e a primeira via do Corredor Norte do transporte coletivo devem ser finalizadas apenas no ano que vem, após quase uma década.
As obras fazem parte de um conjunto de reestruturação do transporte público da Capital, o investimento corresponde à implantação de quase 69 quilômetros e promete reduzir em até 20% o tempo de viagem dos ônibus, tanto centro/bairro quanto bairro/centro.
O projeto prevê que os ônibus vão circular em faixa exclusiva e terão trânsito livre, com semáforos funcionando de forma sincronizada nos cruzamentos onde haverá estações de pré-embarque.