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Seca e queimadas aumentam em 50% a procura por atendimento médico

Em Corumbá, ar seco e incêndios no Pantanal resultaram no crescimento dos problemas respiratórios

Gabrielle Tavares

04/08/2021 - 08h00

A falta de chuvas expressivas há mais de 50 dias no principal rio do Pantanal, o Paraguai, e o crescimento no número de focos de incêndio na região têm resultado em um aumento de 50% na demanda por atendimento por problemas respiratórios nas Unidades de Saúde de Corumbá, segundo a Secretaria Municipal de Saúde do município.  

Quando chega o mês de julho, Edmir José Duarte, 70 anos, sabe que, em alguns dias, vai acordar com dificuldade para respirar. 

Com problemas respiratórios graves, como enfisema pulmonar, fibrose cística pulmonar e asma, além de arritmia cardíaca, os meses de inverno são sempre mais preocupantes para ele e a família.

 

 

Edmir fumou por 50 anos e há 10 anos abandonou de vez o cigarro, porém, os danos para a saúde ficaram e no período seco eles se tornam mais graves. 

Ainda mais porque o aposentado mora em Corumbá, distante 420 km da Capital, e justamente quando o tempo fica mais seco e a umidade do ar chega a ser registrada abaixo dos 20% aparecem as queimadas no Pantanal.

“É sempre um período mais perigoso, e a gente fica muito atento aos sintomas que ele tem. O dia que tem fumaça da queimada na cidade, ele acorda com chiado no peito, a gente nota como é difícil para ele respirar. O que ameniza muito essa situação é que ele toma muita água", explica a sobrinha de Edmir, Sheila Duarte.

"Além disso, a gente já criou uma rotina muito definida para usar o nebulizador, e o umidificador de ar fica ligado, algumas vezes, praticamente o dia inteiro”. 

O idoso vive com ela há praticamente dois anos.

Piora

A tendência é de que a situação se intensifique neste mês, visto que, historicamente, agosto é o mês mais crítico em relação às condições de tempo seco no Estado.

Em 2020, quando a fumaça de queimadas no Pantanal começou a ser registrada ainda em fevereiro, a demanda nas Unidades de Saúde de Corumbá por conta de problemas respiratórios cresceu 30%. 

A situação talvez não foi pior porque, com a pandemia da Covid-19 em alta, havia menos circulação de pessoas nas ruas. Houve períodos do ano passado em que a cidade chegou a ficar embaixo de uma densa fumaça, que parecia névoa, mas era resquício das queimadas.

Conforme a Secretaria Municipal de Saúde de Corumbá, em julho, somente nas duas primeiras semanas do mês, houve registro de fumaça densa na cidade, porém, o problema era mais perceptível durante a noite. 

Ainda assim, a procura por atendimento no pronto-socorro da Santa Casa local e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Guatós por quem apresentava sintomas respiratórios cresceu desde o mês passado.

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“O que podemos afirmar é que a procura de asmáticos aumentou muito na emergência, porém, o número de consultas que temos se manteve. Podemos dizer que houve aumento de 50% [de procura] dos sintomáticos respiratórios", descreve o secretário municipal de Saúde, Rogério Leite.

"Isso se formos levar em conta que tivemos uma diminuição nos diagnósticos de Covid-19. Mesmo com essa redução [da suspeita de pacientes com o novo coronavírus], a procura nas unidades por sintomáticos [respiratórios] continua grande”.

Quando há esse aumento, isso significa que o SUS precisa dar conta de fornecer medicamentos inalatórios, também conhecidos como bombinhas, e o uso de corticoide endovenoso. 

Na rede pública de Corumbá, essa demanda está pressionada, como sugeriu Rogério Leite, mas o secretário não indicou que há falta. 

“Temos feito todo o trabalho para atendimento dos pacientes”, afirma.

Em Ladário, município ao lado de Corumbá, a situação é semelhante. Porém, lá não existe atendimento médico de urgência. Toda essa demanda é encaminhada para a Capital do Pantanal. 

“Aumenta a demanda por alguns medicamentos. É algo que acontece todo ano. Ataca muito as pessoas que têm alergia, vem também o resfriado e a coriza", afirma a secretária municipal de Saúde de Ladário, Josiane Braga.

"Este ano, graças a Deus, não está sendo tão crítico com a queimada. A gente nota uma demanda de 10% a 20% em consultas nos PSFs [Postos de Saúde da Família]”.

CHUVA ÁCIDA  

Pelo segundo ano consecutivo, a cheia do Rio Paraguai não ocorreu e, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), este cenário deve se manter até outubro. 

Há mais de 50 dias sem chuvas significativas, a cota do Rio Paraguai em Corumbá, Ladário e região se encontra abaixo da normalidade.  

De acordo com o professor Widinei Alves Fernandes, doutor em Geofísica Espacial pelo Inpe, o retorno das chuvas deve preocupar, visto que elas serão mais ácidas do que o normal.

 Segundo ele, a precipitação carrega os diversos componentes químicos e poluentes resultantes das queimadas e do período de estiagem na região do Pantanal.

“Toda chuva é um pouco ácida, mas essas primeiras após um longo período de estiagem e queimadas tendem a ser ainda mais. Enquanto a água tem um pH de 7, a água da chuva tem um pH de 5,6, justamente por causa da interação do dióxido de carbono, isso em condições normais", explica.

"Agora no período de queimadas, nós temos na atmosfera óxido de nitrogênio e óxido de enxofre. Esses óxidos reagem para formar uma precipitação ácida”, disse.

Em junho, o total de focos ativos detectados pelo satélite de referência do Inpe chegou a 98, enquanto em julho o número disparou e fechou em 508. 

O especialista explica que as fuligens decorrentes das queimadas também podem voltar à terra junto das primeiras chuvas, favorecendo o aumento de doenças respiratórias.  

“É todo um conjunto, a baixa umidade favorece o aumento de queimadas, que prejudicam a saúde humana. 

Neste período de estiagem prolongada, temos queimadas que emitem poluentes que são prejudiciais à população, o que faz com que aumente a demanda dos hospitais. Parte dessa fumaça acaba chegando na cidade com retorno das chuvas”, aponta Fernandes.

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