Cidades

ALERTA

Associação pede restrição da pesca no Pantanal durante seca

Com redução dos peixes, categoria pede que turistas pratiquem o pesque e solte

O nível do Rio Paraguai segue uma tendência de redução de seu calado que pode gerar impacto futuro em setores econômicos que dependem dele para geração de renda, emprego e tributos. 

O setor do turismo em torno do rio, por exemplo, ligou o alerta vermelho, e por conta a isso a Associação Corumbaense das Empresas de Turismo (Acert) defende que o governo do Estado precisa implantar de forma urgente a cota zero, ou restrição, para a pesca esportiva e amadora no Rio Paraguai.

O Pantanal vive uma das piores secas de sua história, com uma média de chuva 40% menor que no mesmo período dos anos anteriores. 

Em Corumbá, onde se concentra uma das maiores frotas de barcos-hotéis do Brasil, as empresas que atuam na área já identificaram que a pescaria de milhares de turistas pode ser comprometida com a redução do volume do Rio Paraguai.

O problema ainda está sendo remediado, porém, quem atua no mercado prevê que medidas precisam ser tomadas para evitar o colapso. Conforme apurado pelo Correio do Estado, a questão da cota zero é polêmica em Mato Grosso do Sul, por isso nunca foi implantada.

Antes do começo da temporada de pesca neste ano, houve discussão política para tentar zerar a cota no Estado. Contudo, o governador Reinaldo Azambuja (PSDB) manteve decreto nº 15.166, de fevereiro de 2019, que permite a pesca de até 5 kg de peixe por armadores certificados, o que corresponde a uma espécie de peixe e cinco piranhas. 

Os profissionais podem pescar até 400 kg por mês.

Desde 2020, o Estado mantém o sistema de pesque e solte para os peixes considerados nativos, como o pacu, pintado, cachara, jaú, piraputanga, entre outros. 

A pesca do dourado segue proibida, conforme Lei 5.231, de janeiro de 2019 até 2024. 

Um exemplar ainda pode ser levado pelo pescador amador ou esportivo devidamente certificado.

Um dos sinais de que há menos peixes no Rio Paraguai foi notado pelas empresas ligadas à Acert, de Corumbá. 

Se antes era possível o turista pescar a cota de 5 kg com uma viagem de 100 quilômetros pelo rio, neste ano os barcos-hotéis estão viajando até 300 km para garantir que a cota seja alcançada.

“A falta das tradicionais chuvas já está gerando baixos níveis hidrológicos com relação à navegação no Rio Paraguai, em outros locais também pode causar perda da conexão de rios, lagoas e baías, dificultando o aporte de nutrientes e, além disso, deixa os peixes mais vulneráveis aos predadores, podendo concentrar-se nos locais mais profundos e onde há maior disponibilidade de alimento”, conforme explica a bióloga e coordenadora da Unidade de Recursos Pesqueiros (Unpesq), Fânia Lopes.  

A temporada de pesca vai até outubro, e a associação informou que há previsão de que em setembro algumas embarcações não conseguirão mais chegar à Serra do Amolar, que fica na região norte do Pantanal, a cerca de 120 km de Corumbá, por falta de nível para os barcos navegarem.

“Essa situação de seca é atípica para nós. Estamos sofrendo uma estiagem que nunca tivemos. Viemos de uma grande cheia de 40 anos. Vamos sentir a partir de agora quais vão ser as consequências e qual vai ser o período. Há previsão de que ainda abaixe mais um metro do que está hoje", reconhece Luiz Martins presidente da Acert e dono de empresa de barco-hotel e de rede hoteleira em Corumbá.

"A nossa produção de pescado vai diminuir porque as lagoas vão ser reduzidas. Nós temos medo de perder o investimento que as empresas fizeram por conta da redução de peixes”, completa.

Ainda, o diretor-presidente da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul, Bruno Wendling, destaca que a situação caminha dentro da normalidade, sendo o esperado para a estação.

“A situação de seca é o ciclo natural do Pantanal, a pesca está a todo vapor, não há nenhum prejuízo para a região. Com a falta de chuva, muda as espécies dos peixes e com isso temos um pouco de dificuldade em relação aos locais de pesca natural por conta do período, mas esse é o ciclo natural das águas”, destacou.

Em uma região que engloba Cáceres (MT), Corumbá, Porto da Manga e Porto Murtinho, há mais de 100 barcos-hotéis funcionando no período de março a outubro. 

Só em Corumbá, entre agosto e outubro deste ano, há pouco mais de 7 mil turistas que já fecharam pacotes com mais de 30 empresas de barcos-hotéis e que desembarcaram na Capital do Pantanal para realizar o turismo de pesca esportiva.

O setor movimenta em torno de R$ 100 milhões anuais e responde por até mil empregos diretos e indiretos, conforme o estudo “O Turismo de Pesca em Corumbá, na Fronteira Oeste do Brasil”, publicado na edição especializada Revista Iberoamericana de Turismo.

“Hoje, as empresas de Corumbá estão incentivando os turistas a não pegarem o peixe. Posso dizer que 80% das empresas não estão mais deixando as pessoas pegarem. A pessoa pode até pegar um peixe e comer no barranco ou no barco. Sugerimos que eles pesquem, fotografem, mas não levem", afirma o presidente da Acert.

"O Estado não pode ver toda essa estrutura que temos como algo que não traz benefícios para as cidades. Já tentamos fazer o ecoturismo com os barcos-hotéis para substituir a pesca, mas não deu certo. A pesca é um esporte que atrai mais atenção”, completa.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

ESTOQUE

A falta de chuvas expressivas há mais de 50 dias tem influenciado no estoque de peixe e até na densidade de jacarés na região.

Fânia Lopes esclarece que quando o clima fica muito quente e seco, os jacarés passam por estado de estivação, sendo esse um tipo de “hibernação”, em que consomem a energia corporal acumulada.

“Para quem observa uma grande concentração de jacarés localizados em um só espaço, dá a sensação de existirem muitos ou que aumentou a quantidade deles. O que acontece é que os mesmos ficam mais visíveis e ficam agrupados em locais secos e/ou próximos à água, onde há maior disponibilidade de alimento”, disse a pesquisadora.

“Os peixes ficam limitados aos canais e calhas principais dos rios e continuam sofrendo também a pressão da pesca, sendo mais um fator agravante para a manutenção sustentável dos estoques”, destacou.

IMPACTOS  

De acordo com os dados mais recentes da Marinha do Brasil, o nível do rio no 6º Distrito Naval, em Ladário, está em 0,83 m, o que representa em 1,19 metro abaixo do nível da régua. Essa redução do nível está secando lagoas e outras áreas que tradicionalmente servem para reduto de alimento para os peixes.

O biólogo José Milton London, acrescenta que a falta de chuva causa prejuízo para quem vive da piscicultura e causa a diminuição da área útil de vida dos peixes da região.

“O Pantanal é regido pela inundação, sendo ela fundamental porque auxilia na reprodução de peixe, esse é o pulso normal do Pantanal. Estamos observando a situação de seca na região que já é recorrente", destacou o biólogo.

"No ano passado, tivemos o mesmo cenário hídrico por conta da estiagem e das queimadas, o diferencial é que neste ano a cota do rio está muito abaixo da média histórica. O que impacta diretamente na fauna aquática do rio e reduz os ambientes de reprodução dos peixes, além de afetar até mesmo a vida da população”, completou.

O especialista defende a modalidade de cota zero para garantir a sobrevida de diversas espécies de peixes, sendo também essencial para o pescador profissional que vive nas barrancas dos rios.

“As medidas restritivas de pesca já auxiliariam nos impactos da seca extrema registrada na região, além de garantir a segurança alimentar dos pescadores, mas medidas complementares devem ser adotadas para que a situação não se agrave ainda mais”, afirmou.

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