Tomar banho, lavar a louça, realizar a limpeza de casa ou do pequeno negócio e cozinhar: para tudo isso é preciso utilizar água, porém, este recurso não está disponível o dia inteiro para quem depende do abastecimento que vem da Bacia do Rio Paraguai.
Nesta semana, por exemplo, no Bairro Popular Velha, em Corumbá, o fornecimento de água não está regular desde a segunda-feira.
O nível do rio vem baixando desde o ano passado e como ele é a principal fonte de captação de abastecimento para o município de 110 mil habitantes, essa condição de seca impacta diretamente o bombeamento da água para bairros que ficam na chamada parte alta da cidade.
Quem vive abaixo do trilho do trem em Corumbá costuma ter o fornecimento satisfatório mesmo na época de estiagem. Atravessada essa “muralha” do trilho, a realidade é outra.
O problema começa no Bairro Popular Velha e segue em níveis mais críticos para outras localidades até chegar no Nova Corumbá, que é a parte mais alta da cidade.
Detalhe, entre os bairros mais populosos da Capital do Pantanal, três deles estão localizados na parte alta.
São os casos do Cristo Redentor (em torno de 10 mil moradores), do Nova Corumbá (cerca de 7,9 mil moradores) e do Popular Velha (6,9 mil moradores). O Centro é onde há mais moradores, em torno de 18,4 mil, e por lá não há falta de abastecimento de água, como ocorre nas outras localidades.
A diarista Luciene Silva Gomes, 51 anos, mora há 30 anos na Alameda Oriental, no Popular Velha, e reconhece que não poder contar com o abastecimento de água é situação corriqueira para o período de seca.
“Não dá para cozinhar, tem vezes que a gente fica esperando até de madrugada. Tem hora que dá raiva. Nesta semana, a água começou a faltar na segunda e continua [faltando], e olha que hoje é quinta. Tenho uma caixa de 500 litros, mas como fica sem [água] por vários dias, nem sempre dá conta de encher”, explica Luciene.
Preocupação
O prefeito Marcelo Iunes (Podemos) aponta que a redução do nível do Rio Paraguai é uma preocupação para o fornecimento de água. Ele defende que a Sanesul, empresa concessionária que renovou contrato com Corumbá por mais 30 anos em maio de 2019, está agindo para contornar o problema.
“A Sanesul tem a obrigação de fornecer a água e realizar o tratamento do esgoto. A prefeitura tenta ajudar no que é necessário. Eu sei que o rio baixou, mas a Sanesul já está com planejamento para atuar nesse sentido. A prefeitura tem ligação direta com a concessionária e, quando sabemos que falta em algum lugar, entramos em contato direto com eles”, defende.
A estatal, por sua vez, divulgou que está acompanhando a situação de seca nas bacias do Rio Paraguai e do Rio Paraná e reconhece a situação atípica que já vem sendo registrada desde 2020.
Em nota, a empresa informa que realiza investimento há três anos para aumentar sua capacidade de produção de água nos 68 municípios em que atua em Mato Grosso do Sul e está com 39 projetos de novos poços em andamento ou já concluídos.
“Todos os municípios atendidos pela Sanesul são monitorados. Em Corumbá, a empresa tem ações preventivas, como instalação de um novo conjunto de captação no sistema da ponte, disponibilização de um sistema de captação flutuante no rio, investimento em ações de combate às perdas de água tratada e implantação de bombeamentos intermediários na rede de distribuição de água, em especial nas partes mais altas da cidade, para que esses bairros não sofram com baixa pressão ou falta de água”, informa a estatal.
A reportagem entrou em contato para apurar a situação de abastecimento de Dourados e Três Lagoas, mas não obtivemos resposta até o fechamento desta edição.
Dicas
Consumo consciente
- EVITE Mantenha a torneira fechada durante atividades como escovar os dentes e tome banhos curtos;
- LIMPEZA Use a vassoura para limpar a calçada ou as áreas comuns – uma mangueira ligada por 15 minutos gasta 280 litros de água;
- VAZAMENTOS Preste atenção e conserte eventuais vazamentos em sua casa.
ALTERNATIVAS
Pelo terceiro ano consecutivo, a chuva não ocorreu da maneira esperada e não há sinais de melhora significativa nos valores de nível de água em decorrência da crise hídrica.
Como alternativa para evitar o desabastecimento de água em Campo Grande, nove poços de captação deverão ser entregues em setembro e devem garantir o acréscimo de 1,7 milhão de litros por hora de água produzida para a cidade.
A concessionária responsavel pelo serviço, Águas Guariroba, informou que serão investidos R$ 50 milhões na execução dos nove poços. As obras estão sendo realizadas nos bairros Taveirópolis, Universitário, Nova Lima, Lageado, Parque dos Poderes, Caiobá, Coophavilla II e São Conrado.
Conforme o diretor-executivo da concessionária, Gabriel Buim, cinco poços já foram concluídos para captar água do Aquífero Guarani e um aguarda apenas a instalação elétrica para iniciar a execução.
Contudo, os poços, uma vez perfurados e passado o período da estiagem, ficarão em espera e serão usados de acordo com a demanda, caso haja um rompimento de adutora ou alguma falha mecânica.
“Os nossos investimentos são para evitar vazão de água, tudo para que se tenha uma contingência, não apenas pela estiagem, [já que] Campo Grande está em expansão. Cinco poços já estão aptos para operar, os outros estão sendo finalizados ainda neste mês”, destaca.
De acordo com a Águas Guariroba, atualmente, 40% da água da Capital vêm do Córrego Guariroba, outros 40% vêm de aproximadamente 160 poços, que não sofrem com o baixo índice de chuva, visto que a recarga é proveniente do Aquífero Guarani.
Em razão disso, mesmo com a falta de chuva, esses mananciais não sofrem vazão e não afetam o abastecimento da Capital. Buim afirmou ao Correio do Estado que os poços terão profundidade entre 400 metros e 600 metros, com o uso inclusive de equipamentos utilizados na captação de petróleo.
“Os poços ficam a pelo menos 400 metros de profundidade e serão monitorados durante todo o dia para sabermos o nível dos poços, sendo que eles funcionarão em período de estiagem e para aumentar a capacidade produtiva”, apontou.
Com isso, as intervenções dos poços têm como objetivo impedir que neste ano haja racionamento de água, de acordo com a empresa responsável pelo serviço de água e esgoto em Campo Grande.