A Prefeitura de Campo Grande deve implementar até o fim deste ano mais 40 leitos destinados ao atendimento de transtornos mentais ou problemas intelectuais decorrentes do uso de álcool e drogas, o que corresponde a 16% do recomendado pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).
Desde outubro de 2019, o órgão havia dado o prazo de dois meses para que a Capital implementasse 244 leitos para estas patologias.
Atualmente, a rede de saúde mental da Capital é composta por seis Centros de Atenção Psicossocial (Caps), um Caps Álcool e Droga (AD) e um Caps Infantojuvenil, o que de acordo com o médico psiquiatra Marcos Estevão é insuficiente para atender à demanda de Campo Grande.
“Toda ampliação é bem-vinda, mas é insuficiente para a realidade de Campo Grande. Os Caps não são hospitais, mas estão realizando o serviço como se fossem, por conta da falta de leitos. Temos legislações específicas que falam sobre os direitos do doente mental e até mesmo prioriza o tratamento ambulatorial, não é certo desassistir esses pacientes”, alegou o especialista.
Santa Casa
Conforme o secretário municipal de Saúde, José Mauro Filho, dos 40 leitos previstos, 20 vagas serão implementadas na Santa Casa de Campo Grande.
“Essa é uma linha que estamos ampliando, e nós contratualizamos com a Santa Casa para retornar com o atendimento na ala psiquiátrica. O novo contrato assinado agora é para a reabertura da especialidade com um aporte de mais R$ 1,5 milhão para a ala que foi desativada em 2017”, salientou.
Por ora, o município possui apenas um Caps AD, localizado no Bairro São Bento. A expectativa é de que até o fim do ano mais uma unidade nessa modalidade seja inaugurada com a oferta de mais 20 leitos para atendimento destes pacientes.
“Já alugamos o local para transferir o Caps Infantojuvenil que vai virar Álcool e Droga [AD]. Com isso, daremos continuidade a outros projetos de reforma nas Unidades de Pronto Atendimento [UPAs] e nos Centros Regionais de Saúde [CRSs]”, disse o secretário.
Com a média de 1,3 mil consultas ambulatoriais e de saúde mental e 2 mil atendimentos nos Caps por mês, a rede municipal de saúde mental possui 101 leitos para atendimentos de pacientes com problemas psiquiátricos ou usuários de álcool e drogas.
O município conta ainda com uma unidade de acolhimento e três residências terapêuticas, e, em todos os locais, o atendimento é feito 24 horas por dia.
De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde Pública (Sesau), a Capital também possui em sua rede de atendimento a pacientes dependentes de álcool e droga 12 leitos contratualizados no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul [HRMS].
Outras 27 vagas foram contratadas pela prefeitura no Hospital Nosso Lar para o cuidado de pessoas com transtornos psiquiátricos. Os atendimentos de pacientes com transtornos leves e moderados também são realizados nas 72 unidades básicas de saúde do município.
182 mortes por suicídio
De acordo com dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES), MS registrou 182 mortes decorrentes de suicídios neste ano. Conforme a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), o suicídio é precedido de sinais de alerta verbais ou comportamentais.
Algumas falas podem ser sobre querer morrer, sentir grande culpa ou vergonha ou se sentir um fardo para os outros.
PRAZO
Em setembro de 2019, o MPMS por meio da promotora Filomena Aparecida Depolito Fluminhan, titular da 32ª Promotoria de Justiça da Saúde Pública, recomendou que a Sesau ampliasse em 244 leitos os leitos hospitalares psiquiátricos para atender à demanda de pacientes da Capital, após dois anos, apenas 40 serão abertos.
De acordo com o titular da Sesau, José Mauro Filho, a pandemia de Covid-19 foi responsável pelo atraso na ampliação do atendimento a pacientes com transtorno mental ou com algum problema intelectual causado pelo uso de álcool e drogas.
O psiquiatra aponta que Campo Grande deveria ter uma quantidade muito maior de leitos hospitalares disponíveis para este público, visto que, a população permanece desamparada e não tem o atendimento adequado.
“Temos um prejuízo para o doente mental hoje na Capital, atualmente temos mais leitos privados do que públicos. O paciente ficou desassistido, com isso, aumentou o número de doentes mentais de rua e a população carcerária, que quando está em crise por falta de atendimento adequado, acaba indo para as ruas”, alegou.
Estevão reitera que a pandemia da Covid-19 e o isolamento social fez com que a população tivesse de lidar com diversas inseguranças que afetam a saúde mental, o que deveria ser um alerta para mais incentivos na área.
“Nesse tempo de pandemia, as doenças que já existiam se agravaram ainda mais, algumas pessoas que eram consideradas sãs começaram a apresentar alguns problemas por causa da ansiedade, da depressão, do estresse, entre outras doenças. Quando falamos em doenças mentais, sabemos que todas podem subsidiar o suicídio”, destacou o psiquiatra.
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul não atendeu às solicitações de entrevista para mais esclarecimentos sobre o assunto até a publicação do conteúdo.