Cidades

CRIME ORGANIZADO

Chefão de bando que roubou aviões em Aquidauana já era foragido estadual

Criminoso foi preso pelo mesmo crime em MS; aeronaves estavam no Aeroclube de Aquidauana

Do grupo de mais de 10 bandidos que roubou três aviões no Aeroclube de Aquidauana para possivelmente serem usados no tráfico de drogas, foram identificadas três pessoas, sendo uma delas um perigoso foragido do sistema penitenciário estadual e considerado o chefão da organização criminosa especializada, além de alguns integrantes bolivianos.

 O roubo ocorreu na madrugada de ontem.

Com prejuízo estimado em mais de R$ 2 milhões, foram levados um avião Bonanza Modelo V35B (matrícula PT-ING), pertencente ao irmão do prefeito de Aquidauana, Odilon Ferraz Alves Ribeiro (PSDB), e mais um sócio; e dois Cessna Modelo 182 (matrículas PT-KDI e PT-DST). 

O KDI percence à esposa do ex-prefeito de Aquidauana José Henrique Trindade, Liliane Paschoaletto, e o modelo DST, ao cantor Almir Sater.

De acordo com a diretora do Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco), Ana Cláudia Medina, o chefe da quadrilha já tem passagens anteriores por crimes semelhantes.

“A esposa do líder do grupo criminoso participou do crime e [também] o responsável pelo imóvel que serviu de base operacional para os criminosos, identificados como brasileiros e bolivianos. Ambos foram devidamente qualificados”, disse o Dracco, em nota.

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O Dracco também vai realizar a reprodução simulada do caso. 

“Nós temos na competência das nossas ações ocorrências envolvendo aeronaves. Nós temos a operação Ícaro, que se desencadeia já há seis anos, e viemos aqui somar esforços para verificar o que de fato aconteceu”, disse a delegada Ana Cláudia Medina ao Correio do Estado.

“A gente entrevista as vítimas para saber os detalhes, a dinâmica do que foi, como se comportaram, para que a gente possa retirar uma dinâmica específica do que aconteceu”, acrescentou.

O local tinha monitoramento, mas foi retirado, o que também será apurado nas investigações.

Ainda de acordo com a diretora do Dracco, normalmente, em crimes como esse, o avião é alterado para ser posteriormente usado. 

“Quando eles têm esse tipo de atitude, se for para utilização no tráfico, eles procuram também dissimular essa aeronave depois, no paradeiro dela, para o destino que ela foi. Eles acabam tentando mudar prefixo, mudar cor, dissimular essa aeronave para não chamar atenção. Mas não é só uma única hipótese quando se tem uma ação criminosa assim”.

A Polícia Civil de Aquidauana, que também participa das investigações, considera esclarecido que o paradeiro dado às aeronaves foi o exterior, inclusive, com o conhecimento do país de destino, que não foi informado.

Sabe-se, no entanto, que a Bolívia seria o país mais perto para esse tipo de ação dos criminosos.

Reforço

O Estado conta com três radares para reforçar a fiscalização de tráfego clandestino na região de fronteira do Brasil com a Bolívia e o Paraguai.

As instalações em Corumbá, Porto Murtinho e Ponta Porã são capaz de alcançar um raio de 450 quilômetros de distância, a 30 mil pés cada, o que corresponde a quase duas vezes a área de Mato Grosso do Sul. 

O investimento do governo federal foi de R$ 127 milhões nos três sistemas de vigilância.  

A Força Aérea Brasileira (FAB) sustenta que esse sistema de radares está preparado para operar 24 horas por dia, todos os dias do ano. 

Entretanto, não há notícia sobre a interceptação dessas aeronaves em solo brasileiro, um dos motivos da instalação desses equipamentos.

A primeira estação, inaugurada no ano passado, fica em Corumbá, próxima da fronteira de Mato Grosso do Sul com a Bolívia. A segunda, inaugurada em março, fica na cidade de Porto Murtinho, que faz divisa com Corumbá.  

Na instalação de Ponta Porã, que começou a funcionar em junho, o presidente Jair Bolsonaro esteve presente, prometendo mais segurança aérea na fronteira.

Em resposta, a FAB disse que emitiu ordem de vigilância intensiva sobre o caso.

“O Comando de Operações Aeroespaciais (Comae) da Força Aérea Brasileira (FAB), situado em Brasília (DF), foi notificado sobre a ocorrência em questão nesta segunda-feira. A FAB colabora com as autoridades de segurança pública responsáveis pelo caso e emitiu uma ordem de vigilância intensiva do controle de tráfego aéreo aos Centros de Operações Militares (COpM) da Aeronáutica”, explicou, em nota.

O piloto Alexandre Dibo, pelo conhecimento na área, relatou que tudo indica que o grupo sobrevoou abaixo do alcance desses equipamentos.

Ainda de acordo com Dibo, em se tratando do tempo que poderia levar para o grupo chegar na Bolívia, por exemplo, o Bonanza levaria em torno de uma hora e os outros dois modelos, cerca de uma hora e 30 minutos. 

“Existe radar que pega até 100 metros de altura. É a Força Aérea Brasileira que regula o equipamento para pegar a altura que eles quiserem”.

O roubo

Para conseguir levar os aviões, os bandidos entraram pela cerca do Aeroclube e amarram três pessoas – o caseiro e seus dois filhos menores de idade.  

A princípio, o plano era roubar cinco aviões, mas foram levados três, entre eles, a melhor aeronave. Os aviões chegaram a ser abastecidos com cerca de 400 litros de combustível para a decolagem.

Conforme o caseiro do local, que preferiu não ser identificado, alguns falavam espanhol, e outros, português.

O caseiro ainda relata que os bandidos chegaram a ameaçá-lo. “Sabe o que eles fizeram comigo? ‘Qualquer coisa, se a polícia vier atrás de mim, nós voltamos aqui e matamos você e seus filhos’”, contou.

As vítimas foram levadas até o hangar em que estavam as aeronaves e foram mantidas presas à grade de proteção do tanque de combustível. Foi jogado gasolina em uma das vítimas.

Conforme afirmou o delegado Jackson Vale, da Polícia Civil de Aquidauana, dois reféns conseguiram se soltar e acionaram a polícia. Ninguém se machucou.

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