Neste sábado, 11 de setembro, o ataque terrorista ao World Trade Center, em Nova York, completa 20 anos. No total, o ataque matou 2.753 pessoas e mais de 220 foram mortas em Washington, DC, e fora de Shanksville, na Pensilvânia.
O Correio do Estado ouviu o diplomata de carreira David Hodge, que recentemente assumiu o posto de cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo. Ele é o responsável pelas relações dos Estados Unidos nos estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. Hodge falou um pouco sobre a data.
CORREIO DO ESTADO – Como os acontecimentos trágicos do 11 de setembro transformaram as relações dos Estados Unidos com o mundo e com nações amigas, como o Brasil?
DAVID HODGE – Nesta semana, lembramos as quase três mil vidas tiradas pelos ataques de 11 de setembro, ocorridos há 20 anos. O terrorismo permanece uma ameaça séria. Mas hoje enfrentamos uma ameaça muito diferente daquela de 20 anos atrás.
A ameaça de terrorismo se transformou em algo mais ideologicamente diverso e geograficamente difuso.
Com o aprendizado dos últimos 20 anos, pretendemos usar uma abordagem ágil e sustentável que utiliza uma ampla gama de ferramentas, não apenas militares, para tratar da ameaça de uma maneira consistente com nossos valores e nossas prioridades de segurança nacional.
Dividir informações e ferramentas de inteligência entre nossas agências e com parceiros e aliados em todo mundo é crucial. Construiremos parcerias globais. Também investiremos em diplomacia, desenvolvimento e medidas de prevenção em casa e no exterior de forma a dificultar o recrutamento e o progresso de terroristas.
Passados 20 anos da tragédia, que transformação na sociedade, internamente e externamente, ela deixou?
Ao longo desses 20 anos, americanos têm se reunido nesta data para lembrar das vidas perdidas em Nova York, na Virgínia e na Pensilvânia, assim como dos bombeiros e socorristas que puseram suas vidas em risco para salvar as vítimas.
As pessoas que se foram nas Torres Gêmeas, no Pentágono e em Shanksville deixaram para trás entes queridos e comunidades que nunca mais serão as mesmas. Crianças cresceram sem pais e pais têm sofrido a perda de seus filhos. Acho que todos nós aprendemos que a solução está na união, na empatia e no respeito mútuo.
Conte-nos sobre a cooperação internacional Brasil-Estados Unidos na área da segurança pública e como ela evoluiu nas últimas décadas.
A parceria em segurança é prioridade na nossa agenda bilateral. Desde 2014, trabalhamos com o Ministério da Justiça e já oferecemos treinamento para mais de 3 mil agentes de segurança pública em mais de 25 disciplinas em todo o País.
Nós coordenamos e oferecemos treinamentos em uma série de áreas, incluindo tráfico de pessoas, crimes cibernéticos, lavagem de dinheiro, combate ao tráfico de drogas, comércio ilegal de armas, exploração infantil, tráfico de animais silvestres e integridade do procedimento de emissão de vistos, entre outros.
Assinamos nove acordos estratégicos de defesa apenas nos últimos cinco anos.
Nos estados fronteiriços [caso de Mato Grosso do Sul], como os Estados Unidos podem ajudar [ou têm ajudado] as forças de segurança e a sociedade local a combater o crime organizado, sobretudo as organizações de narcotraficantes?
A Embaixada e os Consulados dos EUA no Brasil contam com uma forte colaboração com as autoridades brasileiras em questões de segurança nacional e segurança pública de interesse comum e isso inclui Mato Grosso do Sul. Exemplo disso é o Exercício Conjunto Tápio, que realizou treinamentos em Campo Grande em agosto e setembro deste ano com duas aeronaves C-17 Globemaster, da Força Aérea dos Estados Unidos [Usaf].
O Consulado dos EUA em São Paulo organizou uma série de treinamentos para centenas de policiais civis e federais em Mato Grosso do Sul nos últimos anos, especialmente para os que trabalham na fronteira, sobre as estruturas das agências de segurança dos EUA, cooperação internacional e detecção de documentos fraudulentos.
Esses treinamentos têm gerado uma interação muito positiva e nos deram a oportunidade de participar de algumas operações, como a Lábaro, da Polícia Rodoviária Federal.
Além disso, temos trabalhado no compartilhamento de informações relacionadas às questões de segurança, auxiliando em investigações e checagens de antecedentes criminais de suspeitos interceptados pela polícia brasileira na fronteira com a Bolívia.
Como fruto dessa colaboração, assinamos dois acordos este ano. Um entre a Embaixada e Consulados dos EUA no Brasil e a Secretaria de Segurança Pública de MS e outro com o Ministério Público de MS. Ainda este ano espero ter mais novidades nesta área.
Sobre o Pantanal – uma das maiores planícies alagáveis do mundo, juntamente com o Everglades, na Flórida. Como os Estados Unidos têm atuado com as nações parceiras na preservação do meio ambiente [uma das bandeiras da gestão de Joe Biden]?
Brasil e EUA têm a responsabilidade comum de garantir um futuro seguro, saudável e sustentável para as próximas gerações. O Departamento de Estado, Usaid e outras agências governamentais dos EUA já cooperam com o Brasil há décadas nesse setor e estão trabalhando com o Brasil prestando assistência no combate aos incêndios no País.
Em julho, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional [Usaid], em parceria com o Governo Brasileiro e o Serviço Florestal dos Estados Unidos [USFS], lançou o programa Manejo Florestal e Prevenção de Fogo no Brasil.
Esse programa terá duração de cinco anos e incorpora componentes de prevenção e gestão de incêndios florestais; governança e gestão de florestas; recursos naturais e uso sustentável de terras públicas no Brasil.
Esta é a quarta vez que o senhor serve no Brasil. Já esteve em Mato Grosso do Sul? Se não, comente sobre os atrativos turísticos do Estado e suas próximas visitas à região.
Estive em Corumbá em 1989, depois de viajar no Trem da Morte. Fiquei deslumbrado com a beleza tropical e a modernidade do Brasil.
Quase 20 anos depois, foi a vez de Bonito. Um lugar lindo. E agora, como Mato Grosso do Sul faz parte do distrito do Consulado dos EUA em São Paulo, tenho uma ótima desculpa para conhecer o restante do Estado. Campo Grande e o Pantanal estão na minha lista de próximas viagens.
O Consulado dos Estados Unidos pode estar mais perto da população do que muitos imaginam. Poderia falar sobre as oportunidades de cooperação que o consulado oferece na região e em Mato Grosso do Sul, como programas para conversações na língua inglesa [American Corner], programa Jovens Embaixadores e oportunidades educacionais em universidades norte-americanas?
EUA e Brasil têm muita coisa em comum. Somos as duas maiores democracias do hemisfério. E essa relação próxima se dá não apenas entre governos, mas também entre pessoas da sociedade civil.
A Embaixada e Consulados dos EUA no Brasil possuem uma série de programas abertos para todos os brasileiros, como o Jovens Embaixadores, que todo ano abre inscrições para jovens da rede pública fazerem um intercâmbio nos Estados Unidos; o Access E2C.
Com o objetivo de capacitar jovens profissionais e/ou empreendedores negros e indígenas de todo o Brasil por meio do desenvolvimento de proficiência na língua inglesa.
Além da Academia para Mulheres Empreendedoras, voltada para mulheres empreendedoras que buscam oportunidades para ampliar seus negócios.
Este, inclusive, está com inscrições abertas neste momento. Em Campo Grande, temos desde 2014 um American Corner, ou Esquina Americana, no Sesc Horto, que oferece recursos em inglês, programas culturais, aconselhamento educacional e informações sobre os EUA.
Estes são apenas alguns exemplos, mas nossa parceria é sólida e abrangente, com programas em uma série de áreas diferentes.
A pandemia de Covid-19 já apresenta sinais claros de redução tanto no Brasil quanto em outros países. Com esse novo cenário, os EUA consideram a liberação de vistos de entrada de brasileiros ainda em 2021 sem a necessidade de quarenta?
Entendemos a importância das viagens para os brasileiros. Retomaremos os serviços rotineiros de visto de não imigrante o mais rápido possível, mas neste momento não podemos fornecer uma data específica.
As entrevistas de emergência continuam sendo agendadas, conforme permitem as regras das restrições de viagem. A Embaixada e Consulados dos EUA anunciarão a retomada dos serviços por meio de seus canais oficiais, assim que a situação permitir.
Que situações [de viagens de brasileiros] estão sendo priorizadas?
A Embaixada e Consulados estão processando solicitações de vistos de estudante, bem como as solicitações isentas da Proclamação Presidencial 10143, que se qualificam para uma autorização de embarque conhecida como National Interest Exception [NIE].
De acordo com o compromisso do Departamento de Estado em facilitar viagens legítimas aos Estados Unidos, o secretário Blinken decidiu, no dia 26 de abril, aplicar várias Exceções de Interesse Nacional [NIE] às restrições de viagem relacionadas ao Brasil, atualmente em vigor em razão da pandemia da Covid-19.
A lista completa das exceções pode ser conferida no site.
E na hipótese de renovações de visto?
Infelizmente, neste momento não podemos processar renovações de visto que não se qualificam para um NIE. Assim que retomarmos os serviços rotineiros de visto, processaremos as solicitações de renovação o mais rápido que pudermos.
Em quanto tempo e em quais circunstâncias as condições para viagens de brasileiros deverão voltar à normalidade?
Infelizmente, ainda não podemos fornecer uma data específica de quando os serviços de vistos específicos ou quando o processamento de vistos retornará para o nível regular pré-Covid-19.
Recomendamos que os brasileiros monitorem o site da Embaixada e Consulados dos EUA para obter informações sobre o status operacional e quais serviços estão sendo oferecidos atualmente.
O passaporte da vacina é uma tendência para isso?
Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos [CDC] ainda não estabeleceram o uso de um passaporte de vacinas para os Estados Unidos. Os cartões de vacinação estão atualmente sendo usados como prova de vacinação nos Estados Unidos.
Qual está sendo o tempo médio para emissão do visto que libera a entrada no País?
O tempo médio de espera para agendamento varia de acordo com o tipo de visto e pode ser monitorado no site.